Que sorte seria então a minha?!
Se mal desejares neste dia...
E o vento leve a cirandar
Foi tão grande o meu agrado
Que prefiro na memória assentar.
Vesti a alma de simpatia
A amizade se deve Amar,
O Amor se pode mimar.
Rosa Silva ("Azoriana")
Noutra altura se dizia
Que fulano "tem-com-quê":
O mesmo dito servia
Para quem riqueza vê.
Ser rico de coisa alguma,
Na minha vista pacata:
É ter de tudo em suma,
Que nem cabe numa lata.
Mas riqueza para mim,
Que não sei se já a tive...
É saber que o meu fim,
Vai notar algum declive.
Fiz de tudo para salvar,
O que não sei se salvei;
Só tenho que bem louvar,
Os três filhos que criei.
São a minha descendência,
Com contornos do passado,
Cada um tem a ciência,
Que escolheu, por seu agrado.
Agora nem sei se leem
O que escrevo amiúde...
Um dia, talvez, lhe creem,
Muito além da juventude.
Cada nova geração,
Tem nova aprendizagem...
Os que da antiga são,
Atropelam a viagem.
Uma coisa então vos digo,
Que nunca irá mudar:
É ter conduta de Amigo,
Na desavença, falar.
Não se fale em atropelo,
Nem tampouco alvoroço,
Porque chegar roupa-ao-pelo
Faz correr o "sangue grosso".
À dezena eu já cheguei,
E em par eu já me calo,
A quadra que comecei
Já teceu seu intervalo.
Rosa Silva ("Azoriana")
24/08/2026. Ontem, domingo, 23 de
agosto, passei o dia inteiro entre a terra, a monda e as lembranças. Um lugar
que, durante o ano, quase só conhece o silêncio, abre de vez em quando as
portas para receber quem por ali passa em dias de festa.
Eu, sem ser dona de coisa alguma,
encontrei-me a cuidar de terra, sem ferramentas modernas: com os dedos das
mãos, uma toalha velha estendida no chão a servir de carrinho de acartar.
Mesmo coroada de cansaço, mas um
cansaço feliz, sentia-me bem, pese embora, as esguichadelas nasais com um
frasquinho de água-do-mar. É delicioso fazer o bem, sem olhar a quem - mesmo
quando há laços que não se explicam.
Enquanto pairava nesta onda de
alegria, o silêncio levou-me para outras eras. Lembrei-me de quando, sentada à
janela da “titia” Raimunda, contava os carros que passavam para medir a riqueza
de quem casava: muitos carros, limpinhos e asseados, com apitos de felicidade,
significavam casamento de gente rica; poucos carros significavam o contrário.
Hoje já não sei muito bem o que é
ser rico.
Sei apenas que me bastaram o
cheiro da terra acabada de mondar, o canto dos pássaros, o berro distante de
umas vacas, algumas teias de aranha feitas por quem também procura uma casa
própria e, por breves instantes, a possibilidade de avistar o mar ao poisar do
Sol.
Talvez isto seja também uma forma
de riqueza.
E fica aqui esta memória, para
que um dia mais tarde eu me lembre de que, em 23 de agosto de 2026, usei o
resto das forças numa causa que considerei nobre.
E fiquei grata.
Como sempre.
E agora, diz-me tu, já fizeste
alguma coisa para embelezar, com ajuda benéfica, algo que te aligeire o mormaço
dos dias sombrios?
Há que ter muita cautela
E olhar de precisão:
Para a vida ser mais bela
Corrige alimentação.
Em destaque põe a tabela
Bem a jeito de visão
E com o estudo dela
Fica a saber qual porção.
Planto isto, mas logo penso,
Se cumpro na plenitude,
Articulando o bom senso?!
Não. Tenho mesmo de afastar
O que me lesa a Saúde!
- Mais se poupa em não gastar.
Rosa Silva ("Azoriana")
P.S. escrever é fácil, o valor é conseguir cumprir numa sociedade que usa e abusa de mesas compridas de "belezas" comestíveis. Como resistir e não provar?!
Fico (ficamos) muito feliz(es)
por terem garantido a Grandeza da União Serretense. Pessoalmente não fui
assistir por motivos de fragilidade de saúde, mas estive convosco na mente e
coração, sobretudo com aqueles que são do meu sangue. Viva Todos os envolvidos
nesta grandiosa obra comemorativa da nossa Cidade! Viva os que trabalharam
constantemente por uma boa iniciativa. Parabéns, Angra do Heroísmo e sua
Presidente Fátima Amorim . E que a Aurea regresse a casa com o coração cheio de
lembranças e leve o nome da Serreta, da Terceira a tantos que ainda não tiveram
o gosto de connosco estar.
Sou frágil nesta altura,
Fiz outrora a missão,
E nos braços da Cultura
Rimei o meu coração.
Dei lugar à juventude,
Que segue os novos passos,
Congratulo a atitude
De amarem os compassos.
Na Serreta tenho raiz
E continuo com ela,
Qualquer notícia me diz
Que ela é a flor mais bela.
Uma Flor onde o Sol
Se aconchega no fim
E onde se fez Farol
Em versos de tom jasmim.
Abraços e beijos!
Rosa Silva ("Azoriana")
[Uma memória de escrita, passando por uma reflexão sobre o meu percurso de escrita, acabando no presente absoluto: uma avó (eu) a olhar para a neta enquanto o céu trovejava violentamente, e ela dormia sem qualquer susto]