Obrigada por nos visitares!


Se me viesses ver à tardinha
Que sorte seria então a minha?!

Que a poucas sorte em ti seria
Se mal desejares neste dia...

Vieram ver-me com sol dourado
E o vento leve a cirandar
Foi tão grande o meu agrado
Que prefiro na memória assentar.

Vesti o rosto de imensa alegria
Vesti a alma de simpatia
A amizade se deve Amar,
O Amor se pode mimar.

Rosa Silva ("Azoriana")

 

Delícia de escrever

Amanheço pensativa,
Pós horas a matutar:
Que por hora estou viva,
E ainda a labutar.

Uma vontade somente
Me invade a ocasião
De dizer abertamente
O que deixo por missão.

Ninguém ouse remodelar
Minha singela escrita
Nem a tente pontuar
Para ficar mui bonita.

Não a deixem, só, à mingua,
Podem até partilhar,
Jamais quis lesar a Língua
Portuguesa e exemplar.

Contudo, sei que mereço,
Que preservem meu estilo,
E, também o que ofereço,
Sem mais isto ou aquilo.

E, quando escrevo amiúde,
Não é tempo de perder...
É zelo pela saúde
E uma forma de aprender.

O que aprendi outrora,
Sem ter vontade alguma,
Hoje trago a toda a hora
E a vontade é só uma.

Deixa viver minhas rimas,
Se diferentes ou iguais,
Dá valor se me estimas...
Eu à minha Mãe dou mais.

Rosa Silva ("Azoriana")



A um homem só

Vejo nos teus olhos ocultados E um rosto de sorriso retalhado,
Um homem só - ventos cruzados,
Que da ilha for ter a outro lado.

Vejo nos teus olhos tanta amargura, Sozinho mesmo à volta de gente, Sinto que toda a tua compostura, Está cheia do passado, no presente.

Ruíram tantos sonhos, em falsete, Criou-se um abismo intemporal, Nem sequer, hoje, o brilho de corpete, Te faz reanimar velho festival.

Assim, mesmo que a vida não sorria, Com vista para o mundo dos sorrisos, Aprende que, em cada desafio, Há o perdão e a chaga, sem improvisos.

Rosa Silva ("Azoriana")

Nota: ao ver uma foto de um indivíduo com óculos escuros, mas que se nota a solidão, que é o mais triste retrato que nada esconde, através de olhares.

Tudo rico de "não-ter-com-quê"

Noutra altura se dizia
Que fulano "tem-com-quê":
O mesmo dito servia
Para quem riqueza vê.

Ser rico de coisa alguma,
Na minha vista pacata:
É ter de tudo em suma,
Que nem cabe numa lata.

Mas riqueza para mim,
Que não sei se já a tive...
É saber que o meu fim,
Vai notar algum declive.

Fiz de tudo para salvar,
O que não sei se salvei;
Só tenho que bem louvar,
Os três filhos que criei.

São a minha descendência,
Com contornos do passado,
Cada um tem a ciência,
Que escolheu, por seu agrado.

Agora nem sei se leem
O que escrevo amiúde...
Um dia, talvez, lhe creem,
Muito além da juventude.

Cada nova geração,
Tem nova aprendizagem...
Os que da antiga são,
Atropelam a viagem.

Uma coisa então vos digo,
Que nunca irá mudar:
É ter conduta de Amigo,
Na desavença, falar.

Não se fale em atropelo,
Nem tampouco alvoroço,
Porque chegar roupa-ao-pelo
Faz correr o "sangue grosso".

À dezena eu já cheguei,
E em par eu já me calo,
A quadra que comecei
Já teceu seu intervalo.

Rosa Silva ("Azoriana")

24/08/2026. Ontem, domingo, 23 de agosto, passei o dia inteiro entre a terra, a monda e as lembranças. Um lugar que, durante o ano, quase só conhece o silêncio, abre de vez em quando as portas para receber quem por ali passa em dias de festa.

Eu, sem ser dona de coisa alguma, encontrei-me a cuidar de terra, sem ferramentas modernas: com os dedos das mãos, uma toalha velha estendida no chão a servir de carrinho de acartar.

Mesmo coroada de cansaço, mas um cansaço feliz, sentia-me bem, pese embora, as esguichadelas nasais com um frasquinho de água-do-mar. É delicioso fazer o bem, sem olhar a quem - mesmo quando há laços que não se explicam.

Enquanto pairava nesta onda de alegria, o silêncio levou-me para outras eras. Lembrei-me de quando, sentada à janela da “titia” Raimunda, contava os carros que passavam para medir a riqueza de quem casava: muitos carros, limpinhos e asseados, com apitos de felicidade, significavam casamento de gente rica; poucos carros significavam o contrário.

Hoje já não sei muito bem o que é ser rico.

Sei apenas que me bastaram o cheiro da terra acabada de mondar, o canto dos pássaros, o berro distante de umas vacas, algumas teias de aranha feitas por quem também procura uma casa própria e, por breves instantes, a possibilidade de avistar o mar ao poisar do Sol.

Talvez isto seja também uma forma de riqueza.

E fica aqui esta memória, para que um dia mais tarde eu me lembre de que, em 23 de agosto de 2026, usei o resto das forças numa causa que considerei nobre.

E fiquei grata.

Como sempre.

E agora, diz-me tu, já fizeste alguma coisa para embelezar, com ajuda benéfica, algo que te aligeire o mormaço dos dias sombrios?

Para mim e para ti ou vice-versa

Há que ter muita cautela
E olhar de precisão:
Para a vida ser mais bela
Corrige alimentação.

Em destaque põe a tabela
Bem a jeito de visão
E com o estudo dela
Fica a saber qual porção.

Planto isto, mas logo penso,
Se cumpro na plenitude,
Articulando o bom senso?!

Não. Tenho mesmo de afastar
O que me lesa a Saúde!
- Mais se poupa em não gastar.

Rosa Silva ("Azoriana")


P.S. escrever é fácil, o valor é conseguir cumprir numa sociedade que usa e abusa de mesas compridas de "belezas" comestíveis. Como resistir e não provar?!