[Uma memória de escrita, passando por uma reflexão sobre o meu percurso de escrita, acabando no presente absoluto: uma avó (eu) a olhar para a neta enquanto o céu trovejava violentamente, e ela dormia sem qualquer susto]
*
Sem cabelo e sem caneta,
Sem mentira, sendo peta,
Escrevia para o jornal...
Hoje sinto uma saudade
Que o meu gosto invade
Por não ser do ritual.
*
Se há 6 anos eu era,
O que sou, mesmo em espera,
Uma escritora em repente,
Podia então deixar,
O assento do meu lar,
E seguir marés de frente.
*
Mas não vou sem ser chamada,
Cada qual tem a piada,
Que teve ou deixou de ter;
Porém, fixem minha ideia,
Da mente que anda cheia,
Da escrita que hás de ler.
*
Só quando cá não estás,
Fazem zumbido capaz
De afugentar a colmeia...
No entanto, quero estar,
Enquanto Ela me deixar,
Ver um céu que incendeia.
*
Após a noite ancorada,
Ao brilho da madrugada,
Com o susto do trovão...
Vi o quanto a natureza,
Tem o poder e com certeza
Nos trespassa o coração.
*
Um coração a bater,
E a mão destra a benzer,
Unem-se à claridade...
Só olhava a minha neta,
Que dormia sã, completa,
E feliz na tenra idade.
*
06/08/2026. Sextilhas escritas hoje, inspiradas por uma memória de há seis anos.
Seis de agosto, dia do Senhor Bom Jesus, da freguesia de São Mateus, da ilha do Pico, no arquipélago dos Açores.
Rosa Silva ("Azoriana")
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