Inverno de palavras, sem Amor!

Inverno de palavras, sem Amor!

Cansei-me das palavras encobertas,
Do cheiro nauseabundo da razão,
Do diz que “sim” e também diz que “não”,
Do poço onde derramo horas incertas.

Por mim serias, todo, às descobertas,
Pincel de feno liso em fina mão,
Descalço entre o riso e a paixão,
Absorto nos lugares que desertas.

E rio-me no choro, sem tu veres,
Prostrada na poltrona do meu ser,
Que teima na insónia de viver.

E tu, abecedário, sem o teres,
Retalho de palavras sem sabor,
Inverno de palavras, sem Amor!

Rosa Silva (“Azoriana”)


À Tourada do Terreiro da Serreta

É a minha "última" tourada
Deste ano, que descubro,
Que a festa é quase nada
Desde maio a outubro.

As tardes já são pequenas,
E o sol nos traz a brisa,
No campo as açucenas
Alegram a quem precisa.

Viva a nossa brava gente
Que trabalha sem cessar
No Terreiro há somente
Gosto pelo Bravo a passar.

E passa plo arraial,
Donetes e batatinhas,
E há cortesia leal
Nestas quadras que são minhas.

Viva a Serreta!

Rosa Silva ("Azoriana")

Ler ou não ler, eis a questão?!

Quando leio alguma vez
Que há um "bode de leite"
Fico-me pelos porquês?
Se é cousa não aceite.
Pode dar leite o bode,
Para nova criação,
Mas com teta ele não pode
Dele não é tal função.
Se escrevem como falam
Ou se até falam mal
Até o verniz estalam
E o Bodo nem é igual.
Bodo de Leite se diz
Na tradição regional
O bode fica feliz
Se não usarem para tal

Rosa Silva ("Azoriana")
Nota: imagem aparelhada com a ajuda da IA.

30º Aniversário de Paulo Borges

E hoje é que parabém
Não há festa para ele
Benjamim da sua mãe.
E hoje entra nos "inta"
E para bem continua
Haja caneta e tinta
Na rima que sai à rua.
Relembro que quando veio
Esperei mais pra ser mãe
No meu lar 3º asseio
Prova de Amor também.
Sejas feliz, sempre, filho,
Pela tua vida fora,
Aprimora o teu trilho
Bem melhor estás agora.
Deixo estas quadras minhas
Guarnecidas com imagem
Não ponho aquelas que tinhas
Porque estão noutra paragem.
Tens o teu dom musical,
Desde o tempo de miúdo;
Agora estás igual
Mas doutorado no estudo.
Rosa Maria Correia da Silva

Meu mote e minha glosa

Meu mote
| Saúdo o povo que gosta
|| De cantigas atinadas
||| Menos as que dão à costa
|||| Tristes, pobres, sem piadas.|
Glosa
1ª
Penso que não incomodo,
Com imagem bem-disposta,
Para dizer com bom modo:
| Saúdo o povo que gosta.
2ª
O gosto nem se discute
Por cantigas e desgarradas
Venha um molho que se escute
|| De cantigas atinadas.
3ª
A dizer isto me obrigo
Se on-line estou exposta
Gosto das cantigas d' amigo
||| Mesmo as que dão à costa.
4ª
Hoje forço a minha barra,
Com as quadras embrulhadas,
As ofereço à cigarra...
|||| Tristes, pobres, sem piadas.
Rosa Silva ("Azoriana")

Viagem do Sol

Tarde modesta outonal
Quando o sol se esmorece
E sereno se esquece
Do dia, na vertical.
Da Praia é jovial,
E a sul bem nos aquece;
Lentamente adormece
Na posição triunfal.
É o Sol das Emoções
Que brilha em sã partilha
Entre uma e outra margem.
Dá brilho às gerações
Que sabem da maravilha
De ser sol sempre em viagem.
Rosa Silva ("Azoriana")
Nota: dia do 116° aniversário da Implantação da República Portuguesa.
[Qual terá sido a reação da minha avó materna, que tinha 9 anos de idade?! Talvez já soubesse ler e escrever.)

+ Receita - Despesa

Aos governantes mais atentos
Deixo a minha opinião:
Se nos derem mais talentos
Mais teremos à refeição.
Os idosos estão isentos
Do trabalho que dá pão;
Os ativos ou seus rebentos
Podem dar-lhes um quinhão.
Eu que já dei o que pude,
No capítulo da saúde,
Não posso ir mais além.
Os que estão na mesma era
Na certa estão à espera
Como quem teve e não tem.
Rosa Silva ("Azoriana")