Tempestade

Batem leve, levemente (...)


 


Nasceu o dia com o assobio veloz do vento. O seu canto é aflitivo. Pelas frinchas da janela ouço o seu trinado triste. Recolho mais um pouco ao silêncio da almofada. Mas não consigo dormir com os pingos em compasso certo caindo mesmo ao lado da cama. Levanto-me e, rapidamente, resolvo a situação: arredo a cama para lugar seco. O vento acompanha-me forte e brusco. A chuva limpa até às entranhas da terra. A estrada parece um rio correndo para o mar. A pequenez das ilhas quase estoira de aguaceiro.


No fundo, gosto de dias assim. Recolho-me ao pensamento e viajo ao sabor dele. Deixo-me ficar no nevoeiro da palavra. Por outro lado, penso nos que, sem teto, sentem a frieza até aos ossos. Senhor, dai-lhes um sorriso e tende misericórdia de todos. Cada vez que há uma passagem da tempestade perde-se muito. Perdem-se horas de trabalho nos campos, perdem-se produtos e haveres.


Espera-se que o sol venha, de novo, dar um tanto do que a chuva levou. Assim seja!


Angra do Heroísmo, num dia de mudança para a visão do chuveiro que continua lá fora...


 


Rosa Silva (“Azoriana”)

E se não estou inspirada...

MOTE

SE A TARDE FOSSE MORNA
E A NOITE AQUECIDA
O DIA NA CERTA TORNA
MAIS QUENTE A NOSSA VIDA.

GLOSA

SE A TARDE FOSSE MORNA
Mesmo em dia friorento
É porque o Sol adorna
Tudo em qualquer momento.

Se a tarde fica quente
E A NOITE AQUECIDA
Fica toda a nossa gente
Com mais saúde e vida.

Mesmo debaixo de sorna
Se te vem doce o sonho
O DIA NA CERTA TORNA
Com o seu ar mais risonho.

E se não estou inspirada
Nem com tese conseguida
Importa é ter alvorada
MAIS QUENTE A NOSSA VIDA.



Bom dia Amizade e Vida!
Rosa Silva (“Azoriana”)

Afago as letras


 


Disseram-me poetisa para não morrer
Um poeta não morre no seu viver
Afaga as letras, dá-se em palavras, ama,
Aceita a acendalha de nova chama.


 


Um poeta não morre no seu viver
O seu pergaminho o faz crescer
No rasgo profundo da sua pena
Faz leve a brisa na pele morena.


 


Afaga as letras, dá-se em palavras, ama,
Beija as sílabas e canta-as pela rama;
Que pena a morte não deixar saber
Se o poeta volta para agradecer.


 


Aceita a acendalha de nova chama,
Nos livros e telas que alguém reclama
À leitura dos olhares que o tempo esgota
E ao fim de contas a saudade brota.


 


Disseram-me poetisa… para eu viver!


 


Rosa Silva (“Azoriana”)

Trovas

Belas são muitas das trovas
Disso quase não se dúvida,
São elas que tiram provas
Às belezas desta vida.


 


Rosa Silva / AH

Ao poema "Amizade" de Euclides Cavaco

"Amizade" poema lindo
Uma lágrima vem vindo
Torvando o meu parco olhar
Consegui ouvir sua voz
Que vem suave até nós
Com Amizade a embalar.

 

E dei comigo a pensar
Não sem antes questionar
Onde anda a amizade?!
Hoje tudo é tão veloz
Que só mesmo a sua voz
Traz paz à comunidade.

 

Por lhe ter muita amizade
Digo-lhe também à vontade
Que Euclides é o herói
Da amizade que comunga
Não de exalta nem resmunga
Porque é bom e sempre foi.

 

Meu abraço nesta hora
Vai por esta rede fora
Para longe como se perto
Em uníssona amizade
Levasse solidariedade
A quem nos dá hino certo.



Rosa Silva ("Azoriana")

Comentário de José Fonseca de Sousa a propósito do artigo e de um aniversário.

Haja inspiração!




Comentário:




Presumo que o amigo lisboeta seja eu e se assim for não tem nada que me agradecer pelos "elogios" que faço em relação ao seu elevado talento literário, mas se realmente quer agradecer faça-o a Deus pelo dom magnífico que lhe deu que é o de conseguir passar para o papel de uma forma tão meritória tudo o que lhe vai na alma; e como a sua alma é grande o resultado só poderia ser maravilhoso.


 


Penso que já me conhece o suficiente para não ter dúvidas de que se o declaro é porque estou convicto das afirmações que faço.


 


Continue a sua obra literária com a mesma convicção porque mais cedo ou mais tarde os responsáveis pela cultura popular dos Açores e não só, têm que dar-lhe "ouvidos", para bem da cultura popular.


 


Um grande abraço de amizade
para si e para o esposo

13-10-12
José Fonseca de Sousa
Lisboa


 


Nota: Publico o comentário no dia de aniversário da esposa do amigo José Fonseca, enviando um grande beijinho de parabéns! Desejo tudo de bom a este casal maravilhoso que para as ilhas dos Açores é tão amistoso. Nós também não vos esquecemos.


 


Muitos parabéns! Feliz aniversário.

 


Estas rosas que florescem
Nos campos açorianos
Bem que hoje as merecem
Aquelas que fazem anos.

São pra D. Guiomar
Esposa do bom Amigo
José que gosta de comentar
Quando lê o meu artigo.

Uma quadra apresentada
No início da semana
Florida e emoldurada
Com rosas da Azoriana.

São as flores preferidas
Rainhas de bom jardim
E foram bem escolhidas
Para se lembrar de mim.

Há rosas escritas faladas
Num ramalhete de amor
E há rosas dedicadas
A quem dá e tem valor.

Gostei muito de conhecer
O casal de bons valores
Que moram e vão permanecer
No coração dos Açores.

Bem-Haja!

Parabéns!

Rosa Silva ("Azoriana")

Não sei viver sem o mar

Não sei se acontece a toda a gente mas a mim sei que acontece e me pergunto muita vez: porque o mar nunca para? Umas vezes calmo, outras vezes cavado a grosso, outras, ainda, impaciente e revoltado, mas nunca para, nunca descansa. Assim sou eu. A minha mente é um mar em constante movimento. Há de haver sempre uma coisa que chame a atenção ao pensamento. Neste momento estou a matutar numa ideia que me atormenta e nem posso deitar cá para fora para não me acusarem de andar sempre sem descanso da mente. Uma mãe é como um barco que se lança ao mar numa viagem de longa duração. Encontra mar calmo e revolto. Encontra peixe miúdo e graúdo. Nem quando chega a noite para dormir descansa… A mente está sempre alerta num sono sonhador a tender para o pesadelo, numa comunhão cerrada com outros que a circundam. Então, para me distrair do pior volto-me para o mar e digo:

 


 


Não sei viver sem o mar
Ando sempre a naufragar
Aquém do louro horizonte
Sou ilha em parapeito
Com o mar cercando o peito
Acenando ao alto monte.

Não sei viver sem o mar
Mesmo sem saber nadar
Encanta-me aquele vaivém
Na ondulação perfeita
Há marés que estou sujeita,
Mas do mar eu gosto bem.

Não sei viver sem o mar
Sem o ver e abraçar
Na espuma nos rochedos...
É com ele que eu sonho
E ao seu lado me ponho
Tentando arrumar os medos.

Não sou de mim, sou do mar...
E sempre o hei-de amar!

Rosa Silva (“Azoriana”)

Equilibrar fará ganhar

Já lá vão os tempos em que o dia da “mesada” era um dia de festa, por assim dizer. Esta “mesada” a que me refiro é o salário mensal. Todos deviam tê-lo mesmo aqueles que andam de roda do tacho, da máquina de lavar roupa doméstica ou da pia com lavatório plástico ou cimentado (de pedra, nos tempos atuais é um artigo de ornamentação de jardins ou arredores de mansões).

O objetivo do primeiro parágrafo é o segundo, que já vem a transbordar da mente: A festa que se fazia com o salário de outras eras em que a receita dava e sobejava para a despesa tinha mais ou menos a ver com o equilíbrio das somas: da receita que recebes pagas aquilo que deves. Infelizmente, hoje não é bem assim. A receita já começa a dar dores de cabeça mal entra na soma da despesa. Antes mesmo da mudança do mês tal, para o mês coisa e tal, já se apertam os cintos até ao último furo (ou até ao ponto de se ter de fazer furo novo). Mas isto tudo porquê? Porque a dita evolução que se foi adquirindo, visionada muitas das vezes por amostra do exterior, foi tomando conta do dia-a-dia. Casa que não tenha casa de banho apetrechada com tudo do bom e do melhor, que não tenha esquentador inteligente, máquina de lavar, secar e até passar, que não tenha som, música e cor num ecrã com formato avultado, que não tenha frigorífico, fogão com bocas e forno suficientes para dar conta dos ingredientes faustosos, que não tenha arca congeladora com produtos à escolha, que não tenha micro-ondas, para-raios, locomotiva (lembrei-me da “Pedra Filosofal” e da metáfora do sonho), enfim, que não tenha luxos e asseio q.b. não faz parte da dita evolução que nos transformou ao ponto de não querermos voltar aos dias de fazer tudo à mão. Há máquinas para tudo e mais alguma coisa. É uma questão de termos no bolso o que é preciso para as mandar levar a casa.

E já me alonguei muito no parágrafo anterior que ainda peca por incompleto. Há tanta, mas tanta coisa a que nos habituámos (e nem tenho metade do que vejo por esse mundo açórico e não só) que deixar de ter é outra dor de cabeça sujeita à toma de analgésicos e antipiréticos e outras pílulas que nos façam a vida parecer bela.

Não se deve reclamar quando a saúde estiver de bem com a vida. Isso é que é importante porque o resto é uma questão de habituação. Quando não há, não há e está decidido.

É pena que os nossos governantes não experimentem o seguinte: aumentar a “mesada” mensal e não apenas cortar, tirar e aplicar impostos a tudo e mais alguma coisa. Lembrem-se que o EQUILÍBRIO é o segredo do bem-estar. Se a balança pender só para um lado não se lhe pode chamar fiel.

Se aumentassem os salários a jeito de cobrir a despesa (que muitas vezes nos é impingida pelo invólucro da publicidade enganosa), à laia de experiência a ver se há tafulho, então acredito que o buraco não seria tão custoso de tapar.

Com tanto parágrafo já perdi os olhares de quem devia pensar no nosso grave problema.


 


Se quiser bom conselheiro
Para um problema comum
Aumente o nosso dinheiro
E vai ver que sobra algum.

A ver pela atualidade
Muita gente a reclamar
É prova que a sociedade
Está toda a afundar.

O buraco é tão fundo
Que nada o vai tapar
Pode até correr mundo
Mas ele vai acompanhar.

Haja equilíbrio na receita
E na despesa correntes,
Fica a gente satisfeita
Com o melhor dos presentes.

Seja em prosa ou em rima
Peço que haja prudência;
E tudo o que está acima
Foi escrito sem violência.

A violência nos lesa
Quando a fome vem à tona
E também muito nos pesa
Quando alguém nos abandona.

Rosa Silva (“Azoriana”)

Viva a alma serretense!

A Serreta foi meu berço
E foi anel de união
Aprendi a rezar o terço
Fiz primeira comunhão.

Hoje volto àquele local
Sou sempre bem recebida
Na Sociedade e em geral
Por todos sou acolhida.

Devo louvar com fervor
E honrar minha raiz
Onde a Mãe do Senhor
Me lança um ar feliz.

Sua fronte imaculada
Irradia a doce paz
Quem responde à chamada
Muito mais a satisfaz.

Quando volto ao meu torrão
Regresso mais animada
Ele me dá inspiração
E lanço a quadra rimada.

A todos da Sociedade
Filarmónica tão querida
Estrela da comunidade
Que nos dá ânimo e vida.

Que sejam muito felizes
Músicos e toda a Direção
E a família, suas raízes,
Zelando pela tradição.

Um abraço mui contente
Do fundo do coração
Viva toda a nossa gente
Que hoje canto com emoção.

Rosa Silva ("Azoriana")
2012/10/20

Vozes do Fado (o mote)

 



 


O fado é uma constante
Com vozes de redondilha
Que lembra o emigrante
Quem vem e quem sai da ilha.

Fado à ilha devotado
Com bordados de lirismo
Que anda por todo o lado
Em odes de heroísmo.

Fado de alma e coração
Hino de uma oração
Feita lágrima ou sorriso...

Dedilhado da guitarra
Ao coração se agarra
Com letras do improviso.



Rosa Silva ("Azoriana")

Como é viver no Corvo?!

 


[À pequenina ilha açoriana]

De Santa Maria ao Corvo
Passando por São Miguel
E para não dar estorvo
Vou em barco de papel.

Olho as garças uma a uma
Nas asas de cor anil
A ver se vejo alguma
Que seja do mês de abril.

Mas de rosas eu me cubro
Em tom de felicidade
Porque estamos em outubro
Douradas são de verdade.

As folhas também se douram
Quebradas pelo outono
Quantas delas já se foram
Durante o sonho e o sono.

E na alma destas ilhas
C’roadas de nove cores
Vejo nove maravilhas
De tradições e sabores.

Sabe tão bem a cultura
De um verso marulhado
No terreiro da aventura
Em basalto retalhado.

Se hoje estou inspirada
Não há vento que me cale
Pode ser que seja nada
Mas com pouco tudo vale.


 

Sou da ilha de Jesus
Sou filha de um rebento
Que tomou a sua cruz
E no fim deixou talento.

Com esse dom resolvi
Escrever versos de paz
Que saíram já daqui
Em hora que satisfaz:

Não vos quero incomodar
Nem tão pouco dar estorvo
Só queria perguntar
Como é viver no Corvo?

De manhã tudo em surdina
Excetuando os chilreios
Cantando a Graça Divina
Nos lares com mais asseios.

E os corvinos bem-dispostos
Com chaminés fumegando
Deixando tudo a postos
Para alguém de vez em quando.

E a saudade como é?
Como se tinge a cultura?
No que toca a vossa fé
O que se faz porventura?

Desta que rima a Terceira
E as ilhas todas a eito
Também faz por brincadeira
As quadras que lhe dá jeito.



Um abraço no que lês
De amizade virtual
Talvez chegue dia em mês
Que tal possa ser real.

Rosa Silva (“Azoriana”)

A mão

Não chores pelo que dás
Em nome da Santa Mãe
Porque é Ela que te traz
O melhor que te convém.

O que dou vem pela alma
E trespassa o coração
Tonifica e dá a palma
Ao verso que tenho à mão.

Há mão de sabedoria,
Há mão que apazigua
E há aquela que cria
Outras como a minha e tua.

É a mão da nossa Mãe
Que indica o caminho
Da piedade e do bem
Do amor e do carinho.

Mão de Mãe

Quando algo te sobeja
É na mão que vai cair
Para dar ao que esteja
Sem meios para subir.

Há quem nasça na Serreta
Com versos da mão caindo;
Há quem esteja na valeta
E ande sempre sorrindo.

Rosa Silva (“Azoriana”)

Ver "A União" morrer...

Ver “A União” morrer, com data anunciada, racha-me o coração e destrói, ainda mais um pouco, do que resta do orgulho e da honra da própria ilha Terceira. - João Rocha.


 


In "A União". "MORTE, AMOR E PAIXÃO", publicado hoje, dia 19 de Outubro de 2012.

Manhã dourada

Sinto-me tão consolada
Quando estás a meu lado
'Inda mais que a madrugada
Traz o nascente dourado.

A madrugada ilhoa
Que São Carlos já avista
Traz um sol que nos ecoa
E bom sorriso conquista.

Uma manhã como esta
Na paisagem soberana
Faz nascer em nós a festa
Beirando o fim-de-semana.

E há gente que me convida
A trilhar minha raiz
Com belo sol que dá vida
E também nos faz feliz.

Rosa Silva (“Azoriana”)

"Ai tal tareia!" ouvi dizer ontem à noite...

Ontem foi um domingo diferente. Para uns de trabalho, para outros de louvor, para outros de votar. Incluo-me nos primeiros e nos que foram votar. Cansada de trabalhar mas feliz por ajudar, fui votar. Na volta a casa resolvi repousar um pouco e acabei adormecendo. Já a noite caía e as dezanove horas tinham passado quando sou acordada com uma frase: “Ai tal tareia!”. Ainda atordoada retorqui: “O que foi?! A Berta ganhou?!”. A resposta foi célere: “Cá nada… Anda ver”. Levantei-me dum ápice e sentei-me de olhos esbugalhados a ver as notas de rodapé que iam passando no ecrã televisivo. Pasmei de felicidade e confirmei: “Ai tal tareia!”. Desta vez só queria ouvir a ressonância da Drª Berta ao resultado das notas de rodapé. Não me espantou “por aí além” as palavras, com uma calma forçada e aparente, da Drª Berta face ao resultado eleitoral da Região de 2012. Já não gesticulava, já não falava à boca cheia, já nem tinha vontade, certamente, de tocar pratos de uma Banda Filarmónica, já nem lhe apetecia sequer cumprimentar o vencedor.

Eu não sou de política nem de politiquices, mas o conselho que ouso dar à Drª Berta e seus seguidores é que o melhor mesmo, e olhando à opinião do voto soberano do povo açoriano, é arrumar-se e não prometer mais nada (15 mil postos de trabalho?! Acho que esta parte podia ter sido evitada e talvez fosse mesmo a deixa para muita gente rir e colocar a cruz noutra onda). Eu não queria estar na pele daquela senhora de sotaque acentuado… Ainda continuo com a frase bailando na mente: “Ai tal tareia!”.

Felicito com muita felicidade o justo vencedor: o Dr. Vasco Cordeiro. Um senhor com boa apresentação, experiente, bom profissional e um bom seguidor do Presidente do Governo Regional até então – Carlos César. Esperemos, assim, a organização do XI Governo Regional dos Açores. Por mim, sempre dei o meu melhor e cumpri com os meus deveres profissionais e espero assim continuar.

Viva o povo açoriano que em tudo é soberano.

Rosa Silva (“Azoriana”)

Haja inspiração!

Com uma lágrima no canto do olho e um sorriso a escondê-la.

Há lágrimas felizes como que a regar o que nos vai na alma após tomarmos conhecimento de algo que nos enche as medidas todas.

Hoje fiz algo diferente do habitual. Levantei o rabo da cadeira e deixei as paredes a cogitar onde eu ia toda frenética e com o pensamento a mil. Após o ritual de picar o ponto (ai quem pudesse evitar esta maçada) e dirigi-me, a passos calmos, até ao mercado que há muito não me ripava uns trocos.

Com o pensamento incógnito mas com o físico reconhecido, dou por mim a ser cumprimentada alegremente por uma pessoa que nutre grande amizade pela freguesia da Serreta. Algumas palavras trocadas, alegremente, e ficou no ar aquela frase: “Não esqueças os toiros do Terreiro…” e, entre sorrisos, dissemos adeus.

Procurei nas prateleiras o mínimo dos mínimos de gastos e retornei ao ritual de picar o ponto de entrada da tarde. Almocei e segui o frenesim de terminar o que me tinha proposto antes do fim-de-semana.

Tarefa terminada. Trabalho em dia!

Li alguns correios eletrónicos e fiquei de lágrima feliz ao canto do olho a iluminar o encanto de uma das mensagens vindas do outro lado do mar que nos banha comummente. Escondi-a com um sorriso perante quatro paredes mudas, com prateleiras que deram que comer a quem as urdiu e a quem escreveu tantas e tantas folhas que prescreveram.

Esteja eu onde estiver, estejas tu, amigo, onde estiveres, haverá sempre este elo eletrónico para nos consolar a alma (de quem escreve e quem lê e/ou comenta). Obrigada, amigo lisboeta!

Rosa Silva (“Azoriana”)

Saudade dos cheiros... (até de alguns que nem gostava)

Da outra natureza;

Dos campos de trigo ceifado;

Da panela de ferro ao lume de lenha;

Da chaleira com água a ferver para amolecer as penas do frango da capoeira;

Do torresmo derretido pela brasa de um fogo sério, mexido com um colherão de pau;

Da tripa lavada e esfregada com um punhado de salsa, de cebola em rama, de farinha e sabão “macaco” e água cristalina de fartura pelas arquinhas da nossa canada;

Do sarapatel feito pela mão da minha madrinha e da morcela a fumegar ainda;

Da feijoada com ingredientes do porco farto que se havia dependurado no tirante da casa, convidado a vizinhança para apreciar o bom naco de toucinho depois de muito bem lavado e posto a jeito de quem o quisesse ver (e comer numa refeição de bradar aos céus de satisfação);

Do pão lêvedo, estendido por riba da mesa da alegria, enfarinhada de esperança, para ir para o forno, de bordas escarlates, no ponto da boa cozedura, na pá da abundância…

E hoje que cheiros tenho?

Nem vos conto…

Nem vos conto…

Rosa Silva (“Azoriana”)

Cenas da vida real

Houve tempo que uma galinha gorda, uma saca de batatas bem escolhidas, uns quilos de feijão amarelo (o meu preferido), ah… e umas dúzias de ovos frescos da melhor galinha poedeira regalavam as atenções dos (as) senhores (as) da cidade quando os (as) do campo vinham numa viagem de agradecimento ou pedinchice para que o(a) filho(a) tivesse forma de ter um futuro brilhante. Felizmente, não me lembro de ter precisado disso mas sei de quem precisou e hoje nem sei se tem o presente com muito brilho. Enfim, isto para vos revelar que se me aparecer ao portão (de baixo ou de cima) uma galinha gorda, uma saca de batatas bem escolhidas, uns quilos de feijão amarelo (e já agora umas cebolas jeitosas) e uma dúzia de ovos frescos da melhor galinha poedeira regalava-me a mesa para quatro bocas (à beira de um ataque de fome) e fazia-me correr para as cruzes de domingo.

A ver como a situação está, a ver pelas últimas letras em caixa alta de promessas que nem lembra ao diabo, a ver pelo atropelo de mãos em riste vociferando por atenções para as efetivas cruzes de domingo, dá-me como que uma vontade enorme de ficar, de papo para o ar, nos lençóis que tem uso suficiente para me conhecerem de ginjeira…

Amanhã é dia 13 de outubro: dia comemorativo do “Milagre do Sol” (há 95 anos) inserido nas aparições de Nossa Senhora do Rosário, de Fátima, a três crianças que traduzem a simplicidade, a honestidade, a sinceridade e a pureza de coração.

Amanhã ocorre a última tourada (julgo eu que seja a do Terreiro da Serreta) da temporada taurina da ilha Terceira que forçosamente tem de levantar os riscos a 15 de outubro.

Amanhã é a véspera do dia que muita boa gente já pensa estar sentada na cadeira de veludo vermelho a regalar-se pela vitória e a pensar: “Em que sarilho me fui meter… E agora como vou cumprir as falsas promessas perante as audiências?!”… Oxalá que eu me engane e vença o menos prometedor.

E pronto, por hoje é tudo. Não sou jornalista, não sou comentadora de rescaldos eleitorais mas dá-me um gozo danado escrever ao sabor da tecla que, neste dia, parece movida por velocidades extraordinárias.

Façam o favor de serem felizes e fazerem-nos felizes.

Rosa Silva (“Azoriana”)

"Que mundo andamos a criar?"

A propósito de um artigo publicado na “U”, revista semanal d’A União, de 8 de outubro de 2012, página 6, cujo título é: “Que mundo estamos a criar?”, de P. Dennis Clark – in Catholic Exchange trad, e adapt.: rm do Secretariado Nacional da NPC.


Retive-me na leitura e captei o seguinte texto: “dar os nossos dons é a única maneira possível de encontrar a felicidade”. Um texto enternecedor que faz pensar qualquer leitor. O que será que dou? O que será que damos?

Ainda hoje, pela manhã, aconteceu-me uma cena que me quedei a pensar nela até que outra me ocupe a mente: ao estacionar a minha viatura num lugar que avistara vago, no parque com cancela automática (pelo menos dou-lhe esse nome) chamaram-me a atenção que aquele lugar já havia sido avistado por outra pessoa, que entretanto, fazia marcha atrás para o ocupar. Eu, que não me havia apercebido da manobra da outra viatura, recuei, deixei que a pessoa ocupasse aquele lugar e fui direta para outro com vagatura. O que me fez ficar a pensar nisto o resto das horas matinais foi o facto de ter sido chamada à atenção de uma forma áspera, como se tivesse a cometer um crime. Será?! Por acaso fui eu que criei este mundo em que se vive? Com cancelas para tudo, com senhas para tudo, com policiamento para tudo, com parquímetros para quase todos os arruamentos citadinos, com legislação ao ponto de exaustão para toda e qualquer reação humana e animal?!

Meu Deus! Que mundo estamos a criar?

Deito-me acelerada;
Amanheço acelerada;
Tomo o pequeno-almoço acelerada (bem como os que me rodeiam);
Conduzo no limite possível de aceleração com respeito às normas e para evitar pagamento de multas;
E tudo isto para conseguir encontrar um lugar para arrumar a viatura para não ter de pagar parquímetro ou ir estacionar para “cascos de rolha” sempre a pensar no cumprimento dos objetivos laborais mesuráveis do dia. Será que vale a pena?! Andar-se a cumprir objetivos que depois vemos ultrapassados por uma maioria cujos objetivos não se regem como os nossos?!

Que mundo andamos a criar?

Eu tento criar o meu mundo de forma a não dever, a não perder, a não gastar em desperdícios, em … … … etc. e afinal devo, perco e nem consigo que os meus dons contribuam para a felicidade seja de quem for. O que me anima é que este pensamento e atitude são universais.

Pergunto-me, muita vez, porque algumas pessoas teimam em querer chegar ao pódio do poder governamental?! Se tudo está à beira de um poço sem fundo; se a calamidade é mais que muita; se não há maneira de reinventarem a conversão do escudo em euro... Porquê?! Para depois se verem obrigados a criar cancelas automáticas, senhas de posicionamento, parquímetros e tantas leis que podiam muito bem ser abolidas a favor de uma... Amar o próximo como a nós mesmos e todos poderem viver sem darem em doidos.

Rosa Silva (“Azoriana”)

Comentário de José Fonseca de Sousa

Cara amiga Rosa Silva (Azoriana)

Na consulta assídua que faço ao seu blogue "reparei" naquilo a que eu chamo "um texto em poesia" com o título "Um Século e dois anos" que vem confirmando que a sua poesia descritiva tem o condão de nos obrigar, ao lê-la, a refletir na análise dos acontecimentos que vão surgindo e também a pesquisar nas parábolas que vai escrevendo o real significado das mesmas.

Assim consegui ler:

* A repetição da tempestade que assolou os Açores.
* As trapalhadas na comemoração do 5 de outubro.
* As manifestações de desagrado do povo português.
* Quanto a Crise afeta o Povo.
* O desgoverno do Governo.
* As eleições nos Açores.

Só lhe queria dar os meus sinceros parabéns.

Em fim de comentário aproveitava para dizer o seguinte :

* Gosto muito de "Coelho" mas é à caçador......mas não de impostos.
* Admiro muito "Sócrates" mas o filósofo, não o "fugitivo".

Um grande abraço de amizade

09-10-12
José Fonseca de Sousa
Lisboa

Olh'ó "Frascoon"!

Dei comigo a vasculhar
O blog do "El Frascoon"
Acabei por imaginar
Que efeito terá algum

El Frascoon

A crise neste momento
Incentiva qualquer um
A dar-lhe um tratamento
Com o jeito "El Frascoon".

Parabéns, são um sucesso,
As suas caricaturas,
Com o SAPO, fez progresso,
E anda pelas alturas.

Se não for uma ousadia
Olhe pró meu cabeçalho
Se pachorra tiver um dia
Caricature o meu atalho.

Um desenho de "El Frasco"
No blog d'Azoriana
Juro que não é fiasco
Ser o tema da semana.

Melhores cumprimentos

Rosa Silva ("Azoriana")

Sufoco

Escalar a montanha da vida torna-se cada vez mais difícil. É ingreme a subida e tem muitos solavancos e percalços. Hoje, por exemplo, dei comigo no local de trabalho sem me lembrar do percurso desde a residência até ao portão principal de um edifício com marcas de história. O problema maior é dar comigo a pensar que ainda faltam dois dias para chegar a bem-aventurança de um sábado e a redondeza de um domingo. Desta feita, o domingo será diferente devido à obrigatoriedade de sair de casa para dar um sinal, em cruz, na quadrícula do meu consolo e na hora que sou livre.

Mas o mais grave disto tudo é que ainda faltam onze “bons-dias” para chegar o que já nem dá para o gasto. Compromissos, impostos e contas feitas dão conta de uma despesa sem receita de equilíbrio capaz.

O melhor que podia acontecer-nos era fazerem uma paragem, reverem a conversão do malogrado EURO, e pensarem que um café custa sensivelmente CENTO E VINTE ESCUDOS, se formos a converter à moeda anterior ao EURO. Será que ainda não chegaram à conclusão que enquanto não houver essa paragem, a dívida irá subir a montanha ao ponto de alcançar um pico que jamais avistará o vale?! A ver pelo meu caso imagino o resto dos casos por esse mundo português abaixo. Não admira que estejamos todos (eu já há muito que dei por isso, antes mesmo da maioria) à beira de um sufoco financeiro em alta escala.

Quem avisa a tempo merece atendimento.

Juro-vos que não há quem consiga mudar estes destemperos financeiros sem a tal paragem de ajuste da vida quotidiano-financeira. É preciso é ter tomates para isso, ou melhor, produzir tomates, cebolas, feijão etc.

Rosa Silva (“Azoriana”)

Um século e dois anos

Depois duma tempestade
Com Nadine retornada
Temos uma solenidade
Com a Bandeira revirada.

Virem tudo meus senhores
E tirem sem coração
Já se ouvem os tambores
Pra nova revolução.

Portugal está faminto
De dinheiro e de valores
Deixam água por absinto
Para sumirem as dores.

É fácil a conversão
Destes males sem tafulho
O "coelho" vira João Ratão
Que no tacho deu mergulho.

No Tacho o povo não está
Sem lume já foi cozido
Por isso aconselho já
Não repitam o mal cometido.

Será daqui a uma semana
As cruzes da eleição
Cada ilha açoriana
Tenha vergonha então
Dê outro uso à catana
Não dê coelho à refeição.

Rosa Silva ("Azoriana")

Sintomas outonais

O primeiro sintoma da época outonal, no meu caso, é espirrar q.b., ao ponto de lhe perder a conta.

Neste dia que amanheceu com claridade suficiente para apetecer manter-me junto da natureza mas debaixo de mantas tive de esquecer que a cabeça está um tanto zonza e a pedir recolhimento. É sempre assim. Mal começam a cair as folhas das árvores para um chão atapetado de cores douradas começo a sentir os sintomas do costume. Já estranhava tal não acontecer mas é infalível. E pronto, por hoje é só, numa manhã que se prevê rápida uma vez que a tarde é para a tão tradicional segunda-feira de São Carlos. Por incrível que pareça, a festa deste ano não me viu nem eu a vi. A crise também nos quebra a vontade de sair. Esperemos que tudo melhore e cresça a vontade de novos festejos. Por agora apetece-me o silêncio e a paz do lar.

Rosa Silva (“Azoriana”)