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Alma açoriana
Olha o nosso mar
Ouve o que ele diz
Deixa-te inundar
Na onda feliz.
A onda vem forte
E parte-se em vaga
Talvez que por sorte
O verso me afaga.
Ó mar marinheiro
Chega-te p'ra mim
Que estou no estaleiro
Do meu cais sem fim.
Sou cais de saudade
De velas e sóis
Onde a minha cidade
Se fez de heróis.
Ilha que leva à proa
Um mar de amores
Onde o verbo ressoa
Eu sou dos Açores.
Alma açoriana
Desde que gerada
Pauta lusitana
Por tantos cantada.
Rosa Silva ("Azoriana")
Fantásticas imagens
Simpáticos amigos e/ou visitantes deste vosso humilde blog,
Peço-vos, encarecidamente, que visualizem as imagens a que dei o título de «Fantásticas», porque ilustram momentos igualmente fantásticos, e, se possível, identifiquem (em comentário ou no sítio da própria imagem) a que escolheriam para ser eleita capa.
A escolha é vossa. Se encontrarem outra(s) melhor(es) ainda aceito sugestões. Neste caso terão direito a prémio.
Como recompensa apenas posso ofertar o meu agradecimento sincero.
Uma boa quinta da primeira semana de dezembro.
Rosa Silva ("Azoriana")
1873/12/04 Origem da Filarmónica Recreio Serretense
Neste dia, há 141 anos, nascia uma vontade unânime de melodiar a existência, na pequena freguesia, com um punhado de sopros, percussões e outros instrumentos que foram transitando de pais para filhos, até aos dias de hoje.
É, sem sombra de dúvida, bonito lembrar dos nossos antepassados, no presente. Tantos que já deram o seu melhor ao longo de décadas só por amor à farda e ao instrumento cujo som não tem sotaque e é percebido por todas as línguas e modos de vida. Quem não se comove com a beleza de um Hino? Quem não se sensibiliza com a tocata, o passo doble, a marcha, e tantas outras melodias de um universo musical?
Dou os meus sinceros PARABÉNS ao grupo de músicos, seu maestro João Marcelino Costa, seus diretores e ao povo da minha freguesia natal, que foi e é ponto de partida e mote para tantas das minhas criações sentidas e publicadas para memória futura.
Também dirijo uma palavra de reconhecimento e agradecimento aos músicos que colaboram assiduamente com a Filarmónica Recreio Serretense cuja origem é de outra localidade. Não medem esforços para estarem presentes em atuações na freguesia, na ilha ou fora dela. Sei que percebem a união, a amizade e a partilha que ali se vive.
Lembro, ainda, quem pertence à Filarmónica e que por motivos de força maior está ausente. Neste dia (e noutros) tenho a certeza que o coração toca um Hino de Louvor, por Amor, ao que tanta vez fez deslocar do seu ambiente familiar para estar presente nos ensaios, nas tocatas, nas procissões, nas festas locais e citadinas, entre outros festejos que fazem da ilha Terceira a primeira em alegria e gosto.
E para não destoar a criação, bem a meu gosto, eis a minha sincera oferta:
Viva a Banda da Serreta!
Senhora da Conceição,
Dos Milagres, só Maria,
Um nome de eleição
Para ancorar o seu dia.
Dia quatro de dezembro
Data linda e harmónica;
Um louvor a cada membro
Que coroa a Filarmónica.
Subo ao alto da colina,
Entre prados verdejantes,
E aceno aos emigrantes...
Sorrindo como em menina
Içando grata etiqueta:
Viva a Banda da Serreta!
Rosa Silva ("Azoriana")
Algumas imagens que seleciono para visualização: aqui, ali, em desfile, em atuação, em recordação, em diversão, em comemoração, sobretudo em tradição.
Medalha de palavras
«De propósito»
Como é lindo o teu navio
Navegante das palavras
Que lidas não nos dão pio
Sentidas por certo lavras.
Palavras de corpo inteiro
Das marés quotidianas
Do soneto verdadeiro
Que mais se louva em Hosanas!
A medalha que eu fizesse
Dar-te assim quando pudesse
Ser terna recordação...
Pelos retalhos tingidos
«De propósito» construídos
Com valor, alma e paixão.
Rosa Silva ("Azoriana")
Os bens (poucos) deste mundo
A pior humilhação
Porque passa uma pessoa
É dor e consternação
Quando a morte não entoa.
Prendem-se a coisas terrenas
Muitos seres neste mundo
Sobra pouco e quase apenas
O que se fez de fecundo.
Já vi almas se prenderem
Aos bens que têm nesta terra
Fazem tudo para ofenderem
Outros que não querem guerra.
Ó Menino de Belém
Vinde ao mundo nesta hora
Fazei com que haja bem
Em cada lar sem demora.
Quem vive toda uma vida
Nos prazeres da riqueza
Tem o mesmo à partida
Dos que vivem na pobreza.
Viemos nus, sem agasalho,
Vamos da mesma maneira,
Só resiste o trabalho
Que se fez a vida inteira.
Na hora que a balança
Pesar a nossa conduta
Há de haver peso que avança
E outro terá disputa.
Repartir cada quinhão
Que em vida se produz
É ganhar a salvação
Na balança de Jesus.
Rosa Silva (“Azoriana”)
À memória de Carlos Cândido... (porque hoje era teu dia pai!)
1929.dez.02, segunda-feira
2014.dez.02, terça-feira
Oitenta e cinco anos intervalam estas datas. Se estivesse no reino dos vivos presente estaria de aniversário, o meu pai, Carlos Cândido. Lembro-me perfeitamente de que neste dia se não se fizesse caso ou se não se balbuciasse que era dia de anos, algo modificaria a alegria do seu rosto.
Olho azul, ausência de cabelo, estatura mediana, andar compassado, voz ativa, trabalhador incansável, lutador, um génio em tudo e por tudo, falador, etc., etc., deu-me o mote para a vida. De poucos afetos que se vissem mas sentia-os. Lembro que suas histórias, em certas fases da minha existência terrena, traziam ao meu ser (e ao meu olhar) uma emoção que se via nalguma lágrima, que a tudo o custo tentava ocultar.
Homem do mar que veio para a serra pequena. Homem de uma ilha montanha de mudança para uma de arraiais, carnavais e tauromaquia. Se a memória não me falha eram os toiros que lhe incutiam respeito. Nunca o vi à frente deles, bem pelo contrário, subia o Pico da Serreta até ao cimo para ficar a apreciar do alto a corrida na pequena Praça, que hoje lhe daria muito gosto a sua remodelação. Paredes novas e portões novos com a cor escarlate e bola branca, como que a assinalar o recinto de boas práticas tauromáquicas, cuja tradição remonta a tempos idos mas que são preservados na sua essência.
Partiu em 2001.fev.23, sexta-feira gorda. Perdeu o Carnaval desse ano de que tanto gostava. Não esqueço a velha frase exclamativa: Olh’á dança rapazes! E tudo parecia cumprir o seu eco jovial, fraterno e amigo.
Viveu e amou à sua maneira, trabalhou de forma a amparar a descendência – duas filhas – e jamais sairá dos nossos corações pelo facto de ter sido o progenitor.
E toda a verdade se encerra
Em quadras que a mente capta
Desde o mar até à serra
Há uma regra intacta.
Viver feliz é sempre o sonho
Que toda a alma acalenta;
Às vezes é tão medonho
O que em real nos apresenta.
Meu pai quis ser feliz
E foi em pouca medida...
Ao deixar a sua raiz
Abraçou a dor da vida.
Uma vida de trabalho,
Alegrias e também tristeza;
Em cada ponto e retalho
Vi brio, amor e firmeza.
Rosa Silva ("Azoriana")
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2 de dezembro / A ti, meu pai… / Baladas de Miravento / Carlos Cândido (da Silva) / Lembrança / Mar de amor / Maresia do pensamento / Ó querida ilha Montanha / Recordar é lembrar do que é seu / Último sábado de fevereiro / Uma dúzia de anos / Versos dos sentidos, entre outros...
À memória de Carlos Cândido
Casou com Matilde Correia em 28 de Julho de 1960 na Igreja de Nossa Senhora dos Milagres. Resumo: Em Janeiro de 1975 perdeu os dedos da mão esquerda num acidente de trabalho. Para não deixar de trabalhar, inventou o seu próprio engenho e continuou os seus ofícios como se nada tivesse acontecido.
O polegar foi o único dedo que lhe restou depois de cirurgia reconstrutiva. A “Luva” foto 4, como ele lhe chamava, substituía a função dos outros dedos. Quando a colocava, segurava qualquer objeto por mais pequeno que fosse e, com o “gancho” agarrava firme qualquer objeto. Na parte que correspondia à palma da mão, prendia uma “abraçadeira” onde colocava qualquer cabo, de enxada ou vassoura. Ninguém diria que não tinha dedos porque era rápido na execução das suas tarefas. Foi readmitido ao serviço como pintor.
Findo o exercício efetivo de funções, dedicou-se a outros trabalhos, nomeadamente artesanais, em que com a referida “luva” fazia miniaturas em madeira de: carros de bois foto 1, mobílias de quarto de cama e de jantar foto 2, barcos foto 3, que ofereceu, como recordação do avô, aos seus três netos e neta.
Pai, "Mestre do Arco" p'ra Procissão!
Foi em 11 de Setembro de 1999,
Coincidência das coincidências,
Fará brevemente exatos cinco anos,
Que alindaste o arco com hortênsias.
Mestre de Arco uma vez por ano,
O Mordomo de ti não se esquecia,
Geralmente era um americano,
Que adorava esta grande folia.
Na véspera de os arcos construir,
Reunia-se o pessoal nomeado,
Iam em grupo e sempre a curtir,
Ao mato, em trator, tudo animado.
Varas de eucalipto e a criptoméria,
Tudo material indispensável,
Hortênsias, dálias e outras flores, sem miséria,
Eram "ordens" do Mordomo responsável.
Na sexta ficava tudo separado,
No sábado, logo pela manhã, te levantavas,
P'ra construir o arco embelezado,
Quantas e quantas gaitadas não davas!?
No Domingo, tudo estava prontinho,
Os arcos brilhando de devoção,
A espaços, distribuídos pelo caminho,
Ornavam o desfile da procissão.
Lembro que estes dias para ti,
Eram de muita e muita trabalheira,
Lembro que nem só a ti
Tocava esta ou aquela brincadeira.
Uns comes e bebes ao acabar,
Deixavam o pessoal bem divertido,
Toca de dar foguetes para o ar,
Pois o Arco já estava erguido.
Pai! Três anos que cá não estás,
Mas àqueles que cá estão,
Mostraste que foste capaz,
E estou certa da sua gratidão.
Nossa Senhora dos Milagres, da Serreta,
Proteja todos quantos aqui a veneram,
Louvor e glória à Virgem, é nossa meta,
E nisso os Serretenses imperam.
1 de setembro de 2004
Último dia e domingo de novembro
Fim de novembro. Último domingo do mês das almas. Sol acompanhado por uma brisa suave. Calma de vales, montes e águas. Saudades em evolução. Frases ao calhas no tempero da véspera do primeiro de dezembro, mês de natividade e partilha de carinho. Não há prenda maior que um abraço, um beijo e o calor da gente. Haverá pausa escolar. Alguns terão férias laborais. Outros nascerão, outros já partiram (ora com penas ora sem elas). No fundo só me apetece içar a quadra natalícia a partir de hoje:
Feliz Natal para todos vós
Na ilha ou outro local
Que nunca o passem sós...
Só com Jesus é Natal!
Bom dia vizinho, amigo,
Parente ou outros mais;
Feliz estou eu contigo
Na casa dos Folhadais.
Não ouses levar a mal
Isto que agora faço
Coroado pelo abraço...
Vai começar o Natal:
Sorri enquanto puderes
Paz aos Homens e Mulheres!
Rosa Silva ("Azoriana")
Espalamaca em Santo Amaro do Pico
Louvo-te
Espalamaca foi ao mar
E do mar ela voltou
Para o Mestre a renovar
Conforme ela se formou.
Peça a peça manobrou
Esse que a sabe arranjar
Com afinco trabalhou
Desde aurora ao luar.
No porto de Santo Amaro
No estaleiro o reparo
Com engenho e alegria.
Vai erguer-se nova proa
E o meu verso já entoa
O louvor à freguesia!
Rosa Silva ("Azoriana")
«Folhetins de Fagundes Duarte - de 1 a 688», um dia quem sabe...
FOLHETIM (688)
LUÍS FAGUNDES DUARTE
Ite, missa est
Durante os últimos catorze anos colaborei com estes folhetins, ininterruptamente - salvo em tempos de férias, ou aqui e ali quando os afazeres mo não permitiram-, no "Diário Insular". Neles, falei de política, de pessoas, de acontecimentos. Para eles, recorri às minhas experiências, aos meus conhecimentos, às vozes do povo. Por causa deles, abdiquei de outras actividades, de horas de sono, do convívio familiar. Com eles, cheguei a muitas centenas de pessoas, que por esta via me ficaram a conhecer.
Porém, chegou a altura de parar: é preciso saber-se quando se deve sair de cena.
Estes catorze anos coincidiram com os doze em que fui deputado, e com os vinte meses em que fui secretário regional. Se, no exercício das primeiras funções, o ter colaboração fixa em órgãos de comunicação social escrita era considerado normal e até útil - houve e há outros deputados que o fazem -, o mesmo já não aconteceu com o exercício das segundas: muita gente achou que eu, sendo membro de um governo, deveria ter interrompido a minha colaboração pessoal com os jornais; e estou mesmo convencido de que o facto de o não ter feito terá contribuído, por várias razões que me dispensarei de enunciar, para a minha demissão. Entendi, no entanto, que ser membro do governo não tira a capacidade de pensar de um homem, não o pode castrar, e sobretudo não lhe pode retirar a condição de homem livre.
Continuei a escrever - ou seja, a emitir opiniões e a exprimir emoções - enquanto fui secretário regional, e contra todas as normas do politicamente correcto, pelas mesmas razões por que o fazia de antes (e recordo, a quem o não saiba, que comecei a escrever em jornais de circulação nacional no início dos anos de 1980): porque me apeteceu. A quem agradou, agradeço: ter-lhes-ei sido útil; a quem não agradou, agradeço igualmente: foram-me úteis.
Por definição, as duas margens de um rio nunca se tocam. E no entanto, durante todos estes anos eu estive com um dos pés em cada uma das margens de um dos rios que correm pela minha vida - e a minha vida, pessoal e profissional, vai muito mais além do que fui e do que fiz nos dezoito anos em que estive na política activa -: o pé esquerdo na margem direita, e o pé direito na margem esquerda.
De cara a montante e de costas a jusante.
Porque foi assim, preocupado em conhecer as origens dos problemas e das situações de que me ocupava e não com a minha sobrevivência como político - e por isso me orientava para a nascente - que me assumi. Só conhecendo a origem do rio, e os seus acidentes de percurso até ao local onde o observamos, se pode saber porque é que ele às vezes seca, porque é que às vezes corre violento e outras calmo, e porque é que, também às vezes, transborda.
O meu rio transbordou.
Durante estes anos de política deparei-me com muitos problemas - uns que tinham a ver com as fraquezas e as forças das pessoas, outros com casos de polícia. Conheci muita gente: valentes e cobardes, seguros e inseguros, honestos e desonestos, verdadeiros e hipócritas.
Conheci lutadores e ratos de navio.
Conheci gente que me apoiou, e gente que me atraiçoou; uns, muitos, que foram meus amigos enquanto nas suas ficções pessoais eu podia constituir uma mais-valia, e que me escarneceram quando descobriram que eu já de nada lhes serviria - e outros, poucos, que continuam a honrar-me com a sua amizade. Aos primeiros, respeito-os - acreditando que o tempo dirá de que lado está a razão e a verdade; aos segundos, afianço que permaneço o mesmo, e que continuarei a escrever o que quiser, e onde e quando me apetecer - porque sou um homem da palavra.
A todos eu conheço o nome.
Não farei minhas as palavras que o evangelista Lucas (9:5) colocou na boca de Jesus dirigindo-se aos Apóstolos - até porque soaria a sacrilégio: "Se nalguma terra as pessoas não vos quiserem receber, quando saírem de lá sacudam o pó dos pés". Não sacudirei o pó das sandálias com que percorri todas as nossas ilhas, até porque a terra que servi é minha de direito próprio: foi nos Açores que nasci e fui criado. Sou açoriano, doa a quem doer.
Por isso, neste momento pensado, apenas direi: "Ite, missa est" - que em vulgar significa: "Ide, chegou a hora da despedida".
Como na Sapateia.
Fonte: DI. DOMINGO 16.NOV.2014. Transcrição completa.
************
Nota da minha autoria: Rosa Silva, açoriana, terceirense, serretense e, atualmente, sancarlense.
Para quem me conhece escusado será escrever que o meu gosto é mais pela rima, sobretudo porque me faz feliz. Hoje escrevo em prosa corrida, assim por aí abaixo até completar alguns parágrafos, espero.
Depois de ler e reler o Folhetim 688, sinal de que nos catorze anos de escrita de Luiz Fagundes Duarte, conterrâneo, nascido no mesmo território que eu, deve ter escrito, por ano, uns quase cinquenta dos tais intitulados “Folhetim”.
Alguns li, outros reli, outros ri, outros emocionei-me, outros menos, outros mais, outros não lhe coloquei os olhos nem os sentidos, outros, ainda, guardei para memória minha, ora em cópia do jornal ou o próprio jornal.
Com a moda das redes sociais em tecnologia moderna, muitos dos “Folhetim” li-os através do ecrã minúsculo do telemóvel. Cheguei a comentá-los com a celeridade de escrita a que as teclas me impelem, tal como os sentimentos.
E agora?! Onde ir buscar a doçura das palavras, a sabedoria da escrita, as farpas que algumas contém, mesmo que não sejam com o objetivo de causar ferimentos graves, onde ir buscar o ímpeto de resposta imediata como que a abraçar o conteúdo de alguém que já escreveu sobre mim de uma maneira que ficou lavrada em livro, o meu primeiro… Onde? Onde? Poderia continuar a discorrer frases de inquietação e busca de justificação para o agora terminado “Folhetim”… Auguro que germinem novas crónicas com o bom saber das escrituras sobre tudo e mais alguma coisa, como a gente gosta, e eu gosto.
Caro “vizinho”, amigo, não me coloque jamais nos oportunistas, não me coloque jamais nos que balbuciam palavras menos boas a seu respeito. Da sua vida pessoal quase nada sei nem preciso saber. Da sua vida profissional sei o que se publica, quer em papel quer em vias tecnológicas. Uma coisa apenas e agora lhe digo e oxalá lhe chegue ao olhar, aos ouvidos, ao coração: sempre gostei de saber que era açoriano, terceirense, serretense e que domina a língua portuguesa por todas as juntas. Ainda mais quando escreve como a nossa gente fala, tal e qual.
Prof. Dr. Fagundes Duarte não importa o seu credo mas creio que, para mim, será sempre um nome a figurar na nossa alma serretense que vai muito além da ilha, das ilhas.
Bem-haja por tudo o que escreveu e deu ao mundo. Agora fico à espera de uma coletânea intitulada: «Folhetins de Fagundes Duarte - de 1 a 688».
Angra do Heroísmo, 17 de novembro de 2014.
Uma questão de toques
Já perdi a conta às vezes que pensei (ou disse): este é o melhor que escrevi!
Podem acreditar que até a mim me surpreendo com o que, bastas vezes, escrevo. É algo que não terá explicação que não seja aos olhos do coração, da inspiração, portanto. Escrever na forma tradicional em sebenta, caderno, papel propriamente dito é muito raro eu fazer. A minha melhor opção quer dizer, a melhor ajuda ao meu impulso de escrita é tido por via de toque célere de teclas alinhadas por uma norma infalível, se formos a ver pela técnica, rapidez e sonoridade. O próprio teclado quando pressionada tecla-a-tecla com os dez dedos bem posicionados dá-nos um cântico novo, um amistoso acompanhante do que flui da mente, com os acordes do coração. Não há melhor melodia que esta, toque após toque, até se formar uma imensidão de palavras sonantes sem serem audíveis. Quando muito teremos de recorrer ao altifalante para colocá-las audíveis a um público que pode, ou não, surpreender-se pela grandeza do que foi registado a toque de toques.
Graças a uma excelente professora de datilografia que tive num ano já distante, a D. Dores Ávila, já falecida, é que cheguei à perfeição do uso das teclas da escrita. Outras teclas não sei se teria tanta afinidade como as de um aparelho de uso diário, quer pessoal quer laboral. Até de olhos fechados sei a posição das teclas e isso, sem dúvida alguma, devo-o à minha, tão bem lembrada, professora. Na altura tinha que usar uma tampa para o teclado, feita de madeira que cobria a zona das teclas de letras e números. Tinha que aprender a usar a fila do meio até à exaustão, a do meio combinada com a superior e depois a inferior ao ponto de saber a posição de todas as letras, em primeira instância, e só depois aprendi os números quer na fila acima das letras, quer no lado direito, melhor adaptado para sequência de cálculos.
E fui muito feliz assim, com uma aprendizagem que me deu o caminho do futuro laboral porque comecei a trabalhar por ter superado um concurso com sucesso, à custa de me desenrascar muito bem com o teclado e o seu uso com rapidez. Daí por diante foi sempre um teclado fosse ele de máquina de escrever com teclas, fosse em equipamento informático, que me levou à especialização de toques… Não me perguntem é quais os dedos desta ou daquela letra, perguntem sim: onde devem estar, sempre, os dedos nas teclas de partida. Direi que nas de “asdf” e “çlkj”, zona central do teclado, obrigatoriamente. As outras letras vem derivadas da posição central e mais nada!
Rosa Silva (“Azoriana”)
Lá fora a chuva canta... o desenho da alma
Alma açoriana
Quem gosta de escrever
O que emerge do centro
Certamente irá ter
Sua alma aqui dentro.
Sinto isto a cada passo,
Cada letra (sem papel)
Basta seguir o compasso
Da rima a que sou fiel.
Meus leitores de segunda,
Terça, quarta ou outra feira,
Se a escrita de mim abunda
É por ser "made in" Terceira.
Nada como prosseguir
Neste desenho da alma
Mesmo que sem conseguir
Arrecadar douta palma.
Quem me dera de mim ler
Noutra hora de evento
O que consegui escrever
Sem remendar um acento.
O que escrevo é furtivo
É ditado pela mente
É como se fosse vivo
O que jaz eternamente.
Que lindo é o que leio
À medida que é solto
Para alguns será asseio
Para outros mar revolto.
Não me prendo nas marés
Que batem noutros rochedos;
Venham ler de lés-a-lés
O que escrevem os dez dedos.
Dedos correm no teclado
Que navega em circuitos
Que levam a qualquer lado
Muito mais que os meus intuitos.
Pra finalizar em dezena
Nove quadras já contei:
É uma conta pequena
Da maior conta que dei.
Rosa Silva ("Azoriana")
Hoje penso nisso...
Hoje penso nisto: lenço à foliã, avental ao pescoço, mangas arregaçadas, alguidar de barro, farinha, fermento, ovos, açuçar, sal, mãos lavadas e prontas a sovar a massa que ganha desprendimento à medida que é sovada, forno aberto com lenha trazida nas vésperas do mato, lamparina acesa, primeira mecha de lume para acender o forno com a dita lenha bem seca, primeiro clarão em sinal de que pegou o lume, lenha a crepitar à medida da queima, lados do forno avermelhados em sinal de aquecimento ideal, pá a arredar a cinza para o borralho, ou seja para a porta do forno; pão lêvedo em cima da mesa protegido com linho branco atapetado de farinha para não haver pega da massa, que mesmo assim está deposta em cima das folhas de jarroca apavonada nas pontas e alinhadas a preceito, rostos felizes a levar a massa à pá que vai depositando no forno aquecido e a modos de não queimar o solo da massa que vai ganhando uma cor rosada como que a convidar a que a primeira a sair do forno fosse experimentada pelas bocas desejosas de provar o resultado do arranjo que levou algumas horas de dedicação e sabedoria da culinária tradicional... e lá vai mais um bocadinho que nem é preciso partir com a faca porque a mão já lhe sabe tirar a medida exata do desejo de massa quente com um salpico da manteiga que a doura ainda mais, escorrendo da cabaça feita de um retalho alvo de neve, onde se deposita um naco de manteiga para barrar a massa que vai continuando a sair do forno, já em modo de final da tarefa doméstica, em dias em que o galo se levanta cedo e dá o mote às galinhas para se aprontarem para o cântico matinal de despertar uma família inteira para os cuidados de fé, esperança e caridade... Sim, porque no meio disto tudo, lá se ia colocar um bolo de massa ainda quentinho, embrulhado em papel vegetal, em cima da parede do caminho mais próximo, onde os transeuntes já sabiam que aquele era um presente com intenção, em louvor de Santo António, ou pela boa realização da tarefa ou por alma de alguma alma mais necessitada. E surtia sempre bom efeito no contentamento daqueles(as) que por detrás do cortinado fino e rendilhado, espreitavam a quem calhava levantar o bolo de massa sovada, dourada como o sol, fresca e boa como a vida de tantos heróis da vida familiar.
De um fôlego, como quem bebe um licor caseiro, escrevi o parágrafo antecedente como quem regressa ao passado, por volta dos meus dez ou mais anos, para me matar a saudade que vive acotovelando o viver presente. E tu, leitor que gostas do que dou a conhecer ou relembrar, o que tens a contar da época que já se avista entre a bruma dos dias e o luar fusco das tardes e anoitecer dos dias que te douram a imaginação?
Como eram esses dias? Tardes, Noites? Como te vias e já não te vês mais, como eu, que nem sei talhar o pão-nosso-de-cada-dia, de comer e chorar por mais?
Que este domingo seja para ti o que está a ser para mim: reflexão, saudade e escrita com a rapidez de um fôlego tecnológico... que outrora nem se sonhava.
Um beijo doce no teu rosto, minha madrinha do batismo, a única viva, de um punhado de familiares que já pertencem ao outro lado da vida: A VIDA ETERNA!
Obrigada por me leres até ao ponto final. Deixa-me um pouco da tua ternura escrita em sinal do teu olhar, leitura e carinho. Faz-me companhia na solidão das tardes domingueiras onde não tenho tão assíduas as presenças dos meus três rebentos: Luís Borges, Aida Borges e Paulo Borges. Beijos para vocês, meus filhos.
Para quem vive diariamente o meu respirar... um beijo saboroso.
Rosa Silva ("Azoriana")
VERSOS DOS SENTIDOS
Só, na chuva que bem cai,
Com a tua companhia...
Digo-te, Virgem Maria,
Hoje o verso por ti vai...
Na lembrança tenho o pai,
Tenho a mãe que sempre via;
Ausentes da luz do dia,
Presentes no que me sai.
E tu, ó meu chão aguado,
Que cantas mesmo calado,
Onde o meu verso é gemido...
Ó minh'alma que na rima,
Chove em ode que dá estima
A quem vem ou foi sem ter ido.
Rosa Silva ("Azoriana")
"O Santo Nome de Deus em Vão". SOARES, Ana Rocha e Silva
Um evento lindo para um livro, o primeiro! Gostei do livro e das palavras. Gostei de sentir a emoção feliz por vê-la, a autora, feliz, iluminando felicidade. Sei o que isso é. São momentos de cumplicidade. Feliz, também, é a leitura da obra literária. Parabéns à chefe, amiga e escritora que já conhecia antes e agora tive a prova. "O Santo Nome de Deus em vão" não foi em vão e mais virão.
Lar açoriano
Longe vão os tempos, ou melhor, perto vêm as palavras que se diziam que “grão a grão enche a galinha o papo” para vos dar a conhecer a minha estranheza na avalanche de recintos e/ou lojas ao cuidado dos “novos” residentes de outra raça que não a portuguesa legítima, ou ainda, da açorianidade. Sim, porque somos viventes das ilhas dos Açores com tudo o que temos de melhor e soberano, ao longo de uma eternidade de sonhos e realidades. Mas, voltando aos entrementes, estava a escrever que achava estranho a ocupação por parte de gentes provenientes de outros lugares longínquos… os conhecidos chineses… Sim, conhecidos porque a cada passo, ou melhor, a cada rua citadina (ou quase) é notória a marca “made in China” e ficamos de olhos esbugalhados perante a imensidão de artigos postos à disposição das bolsas açorianas e das de quem passeia pela nossa sempre nobre e leal cidade.
Portanto, já não me faz maior estranheza a abertura de nova loja, aqui ou acolá, porque já me habituei ao proliferar desta nova aquisição. Se dá lucro, ou não, isso já não me diz respeito. Apenas chamo a atenção aos nossos ilustres residentes que observem o modo de trabalho dos novos residentes e apreciem a multiplicação do mercado chinês. Trabalham de sol-a-sol e o descanso não se fez para este povo que, digo eu, talvez já se tenha apercebido que também de festas e touradas, arraiais e comensais vivemos bem e damos fruto que baste (q.b.). Pena é que a conversão do escudo a euro tenha feito ruir tanta da alegria que se tinha e os rendimentos tenham caído em flecha pelas ruas da amargura.
Não vou adiantar mais texto sobre assuntos que nem têm retorno ou abono maior, exceto para quem dá duro para vender o produto que, mesmo que seja de uso curto, tem ganho e angariado território bastante. Pena que não sejamos nós os gloriosos mas sim meros perdedores de terreno e nobreza. Enfim, venha quem vier, que seja por bem e para bem da ilha, da Região e da Pátria!
Entretanto deixo um ar de minha escrita rimada que tem um pouco (ou não) a ver com o estado das coisas de ilhéu e com o gosto de ser ilhoa colada às tradições terceirenses/açorianas (aZorianas).
Homenagem a D. Isaura das Mercês Gonçalves, da Serreta, ilha Terceira
Versos e Cânticos
de
ISAURA DAS MERCÊS GONÇALVES![]()
MOCIDADE
1º
Mocidade não te rias,
Das rugas que o velho tem;
Se viveres mais uns dias
Irás ter rugas também.
2º
Mocidade tira a prova
Com algarismos certinhos
Verás que de gente nova (bis)
É que se formam os velhinhos.
3º
Não negues o teu carinho
A quem o deves fazer,
Se chegares a velhinho
Carinho precisas ter.
4º
Jovem se és caridoso
Estende a tua mão
O que se faz ao idoso (bis)
Não cai migalha no chão.
5º
O destino marca o povo
Tudo que tem de passar
Para quem não more novo
A velho tem de chegar.
6º
Aproveitem a gozar
A vida que vai passando
Quando a velhice chegar (bis)
É gemendo e chorando.![]()
SERRETA
Coro:
Nossa querida Serreta
É muito hospitaleira
É das principais freguesias da Terceira
É alegre e sorridente
Tem carinhos sem par
Para com toda a gente que nos venha visitar.
1º
A freguesia é pequenina
E é muito pobrezinha
É humilde e pacata
É de todas diferente
Mas cativa toda a gente
Com o fresco da sua mata.
2º
A Serreta não se envaidece
Porque ela bem conhece
Suas humildes campinas
Tem vales e altos montes,
Mas brota das suas fontes
Puras águas cristalinas.
3º
A freguesia é educada
E é muito visitada
É tudo que se deseja
Que das muitas romarias
Que das outras freguesias
Ocorrem à nossa igreja.
4º
Nossa padroeira adorada
Dos Milagres é chamada
Das graças medianeiras
Nela a beleza se encerra
Que do alto duma serra
Abençoa a ilha inteira.![]()
VERSOS
Perdoai-me se vos ofendo com isto
Ó virgem dos santos rainha
Ajudastes a levar a cruz de Cristo
Ajudai-me a levar também a minha.
A minha não é tanto pesada
Disso tenho a certeza
Às vezes sinto-me cansada
Porque é fraca a natureza.
A Deus não quero ofender
No mundo estou tanto bem
Mas preferia morrer
Do que ser carga pesada para alguém.
Coitado de quem está a penar
As dores nunca são iguais
Às vezes quem está a tratar
Ainda pena muito mais.
Ó Deus sem princípio nem fim
Ó Deus de toda a vitória
Quando não puder cuidar de mim,
Levai-me para o reino da glória.
Ó Deus que não tendes véu
Que lá do céu me estás a ouvir
Levai a minha alma pró céu
Quando deste mundo sair.
O que eu desejo é preciso,
Mas vou vivendo sempre à sorte,
É que Deus me dê juízo
Até á hora da morte.![]()
A VIDA
A juventude é a Primavera da vida.
As árvores começam a rebentar,
Crescem, crescem
E florescem.
Até os passarinhos,
Nos seus ninhos,
Estão à espera de cantar e de voar,
Porque a Primavera é época das flores
E dos amores.
Depois vem o Verão.
Que lindos dias, festas, arraiais e romarias.
Como no Verão, a vida é linda!
Parece que não finda.
Mas de repente
O sol ardente
Com os seus raios fulminantes
A surgir no espaço.
Começa-mos a sentir cansaço.
Que ilusão! E tudo diz:
Vamos gozar, porque ainda é Verão.
Mas ele acabou
E o Outono chegou com seus dias sombrios, tristes e frios.
É o fim da vida,
Há tanta folha seca e caída,
Como eu, que tudo para mim acabou.
Só me restam as folhas secas e caídas
Que já quase o vento levou...![]()
CÂNTICO #1
CORO
Nosso convívio
Da terceira idade
É da Serreta
Por felicidade
Temos vaidade
E presunção
Pra nossa idade
É uma distração.
1º
Nas leis do Omnipotente,
Nós todos somos iguais;
O convívio tem pouca gente
Mas poderia ter mais.
2º
Vamos numa volta certa
Até ponto de parar,
Mas temos a porta aberta
Para quem quiser entrar.
3º
Os que não vieram outrora,
Eu lhes peço por favor
Podem vir a qualquer hora
É a vinha do Senhor.
4º
Vamos levando em festa
Nas nossas linhas finais
Na hora nona ou na sexta
Os salários são iguais.![]()
CÂNTICO #2
Refrão
Idosas somos
Vamos todas a folgar
Porque enquanto novas fomos,
Foi só pra trabalhar.
Foi a canseira
Que nos pôs assim velhinhas
Antes estar na brincadeira
Do que em casa sozinhas.
1º
Da Serreta os idosos
De mil e uma maneira
Ficamos todos vaidosos
Por entrar na brincadeira.
2º
Nós idosos vamos gemendo,
Vendo a vida passar
E os novos vão crescendo
Pra vir pró nosso lugar.
3º
Tudo que digo é verdade
Remando o barco ao porto
Tudo que é feito de vontade
Não se deita em saco roto
4º
Obrigado voluntárias,
De dentro do coração,
E porque ainda são várias
Com a gente tem atenção.![]()
CÂNTICO #3
CORO
Ó Terceira, ó Terceira
Ó Terceira dos amores
És para mim a primeira
Das 9 Ilhas dos Açores.
1º
Nós somos da Serreta,
E temos muita alegria
Chegámos à quinta-feira
E com muita harmonia.
2º
Levámos a semana inteira
Gemendo com dores intensas
Mas quando chega a quinta-feira
Desaparecem as doenças.
3º
Somos velhos temos provas
Nesta vida de incertezas
Mas também já fomos novas
Tivemos nossas belezas.
4º
Sempre entre a mocidade
Passou-se o que se passa
Não com tanta liberdade
Mas tinha a mesma graça.![]()
CÂNTICO #4
REFRÃO
Idosas somos
Estamos todas a folgar
Porque enquanto novas fomos,
Só soubemos trabalhar
Foi a canseira
Que nos pôs assim velhinhas
Antes estar na brincadeira
Do que em casa sozinhas.
1º
A nossa terceira idade
Num convívio faz bem
Mais uma realidade
Que a nossa terceira tem.
2º
Aqui ninguém está só
Tudo é bom nada é ruim
Nos tempos da minha avó
Não se convivia assim.
3º
Felizes assim vivemos,
Cantando em desmedida
É o melhor que fazemos
Nos restos da nossa vida.
4º
Pois é com muito carinho
Alegria igualmente
Que as novas fazem chazinho
E põem-nos à nossa frente.
5º
Em conjunto as velhinhas
É uma linda união
Vão jogando às cartinhas
Ou fazendo uma oração.
6º
Acabou-se a mocidade
O tempo foi-se a voar
Agora a terceira idade
Só dá pulinho ao ar.
7º
A quem fala e na acerta
E quase que desatina
Estava tudo careca
Se a inveja fosse tinha.![]()
FIM![]()
Isaura das Mercês Gonçalves
Freguesia da Serreta - ilha Terceira - Açores
Pão Por Deus
"Soca vermelha, soca rajada,"
Por esmola era pedida,
"A tranca a quem não dá nada"
Vinha logo de seguida.
Por caminhos e atalhos
Numa alegria infantil
Vão saquinhas de retalhos
Pedir guloseimas mil.
Um dia de mais encantos
No rosto da pequenada
Chamado de Todos os Santos
Que a novembro dá entrada.
E somos todos chamados
Também a levar a sério
E visitar os antepassados
Que jazem no cemitério.
Serão santos de uma vida
Que deixaram para nós
Os que de forma sentida
Vão rezar-lhes em viva voz.
Pais, filhos e até irmãos,
E os mais antecedentes,
Por terem sido cristãos
Hoje lhes são dados presentes.
Se o céu é o infinito,
Se o inferno é na terra,
Hoje alegre seja o grito
Que pla alma se descerra.
Deixem ir as criancinhas
Pelas portas da bondade
Pois parecem avezinhas
Trilhando a caridade.
Que beleza é ser santo,
Ser puro ou inocente.
Colorindo cada canto
Com um sorriso somente.
Venham sorrisos ilhéus
Coroar a paz do dia
Venham sorrisos dos céus
Afastar a nostalgia.
Que não se abrace a tristeza
Nem seja um dia cinzento
Tenha-se alegria à mesa
Na escaldada do evento.
E às crianças, Senhor,
Apregoando alegria,
Dai-lhes todo o vosso Amor
Dai-lhes Pão em qualquer dia.
Rosa Silva ("Azoriana")
Sobre e-mail recebido do amigo José Fonseca de Sousa
A seguir a dois parágrafos de resposta/comentário à situação que me foi remetida não consegui alhear-me da força que me impulsionava a completá-los com sextilhas (num total de oito) num ápice de tempo que nem me roubou quase nada ao resto dos lavores do dia. Foi tipo uma flecha de emoções o que agora vos revelo, porque o que se faz de bem merece elogios também, seja em prosa ou em rima. No meu caso, a rima é a predileta para que as ideias jorrem o que tem de jorrar.
O terceiro parágrafo da resposta e as sextilhas foram assim - Então cá vai, à moda da Azoriana - terceirense das rimas, à laia de destaque:
“Retalhos de AMOR”
Se fica feio admirar
Da forma que admiro
Mais valia que o mar
Me levasse noutro giro;
Porque o mar é meu rimar
E da prosa o retiro.
Admiro o lisboeta
Que retrata nossas cores,
Seja a nuvem branca ou preta
Nem lhe causa dissabores,
Já sabe a silhueta
Das nove ilhas dos Açores.
E os amigos que cá tem
Vão crescendo dia a dia;
Sabemos que lhes quer bem,
Ao Pezinho e à Cantoria,
E não haja então quem
Lhe retire esta alegria.
Viva, viva amigo meu!
E de tantos bons ilhéus,
Tudo o que se canta é seu,
Divulgue sem quaisquer véus;
Por tudo o que já ofereceu
Tenha recompensa dos céus.
De louvar eu não me canso
E de rimar também não.
Quando o verso vier manso
Que nem caiba num refrão
É porque não tenho avanço
E durmo no frio chão.
Se fui musa inspiradora
Dos versos do caro José?!
Serei sua defensora
E de si nem arredo pé;
Sua escrita é detentora
Do meu gosto e minha fé.
E para mais não maçar
Nem ocupar seus momentos,
Só me resta encimar
E apregoar aos quatro ventos:
Que quando eu o abraçar
Abraço os seus talentos!
Em par seja a sextilha
Para içar o meu louvor:
Ao que tem feito na ilha
Eleva com mais fulgor
Guarde sempre a maravilha:
São Retalhos de AMOR.
Rosa Silva ("Azoriana")
Por mim o vosso fado
Vosso fado
Se quiserem cantar p'ra mim
Se de mim tiverem saudade
Basta sorrir na voz e assim
Darem o seu verso à vontade.
Um verso de amor singelo
Porque singelo é o amor
E além de ser o mais belo
Traz também à voz calor.
E se amar é querer bem
Se amar é dar-se em tudo
Por amor bem-haja quem
Me cante em voz de veludo
Porque voz sente quem tem
Na voz amor sobretudo.
Rosa Silva ("Azoriana")
Outubro, o mês do FADO
Nosso fado
A cama estava vazia
Estendi-me p'ro teu lado
Afinal não estava fria
Teu calor tinhas deixado.
E tudo o que eu queria
Que tivesses ali ficado
Enquanto eu permanecia
No nosso leito adorado.
Mas o dia já nascera
Com a pressa do costume
E a ti te convencera...
A deixar o calor meu
Que de amar parece lume
Na brasa do peito teu.
Rosa Silva ("Azoriana")
Amália - DIVA do FADO
Outubro foi o teu mês
De partida mas ficando
Ao lado de quem te amando
Te chora por tanta vez.
Amália tom português
A Diva que ouvi cantando
E quase sempre chorando
O trinado que bem fez.
Amália teu doce canto
Vai comungando perfume
De uma saudade em cume.
As rosas tuas são belas
Melhor perfume que elas
Só na tua voz de encanto.
Rosa Silva ("Azoriana")
[2014/10/06]
Hortênsia em flor (Terceira)
Moro numa ilha beijada pelo mar
E no rosto das manhãs dou por mim a louvar
- Que bom é ter-te em mais um dia de magia!
- Que bom é ter uma ilha por companhia!
Deixo-me vaguear envolvida em tanta cor
Que o dia me traz num abraço de amor;
Refresco-me de um colorido de terra e mar
Na estonteante serenidade e bravura
Que venera o centro do fogo e a paz do luar
Da Ilha onde a mulher assenta em figura.
O prazer peninsular do cativante Monte,
Ventre aberto ao céu que lhe fica defronte,
Refúgio das aves e de quem o visita,
Miradouro intemporal da terra que o fita.
O Monte, a Ilha é tudo isto sem ser demais:
É bela, é de Cristo e dos comuns mortais;
É vida, é dor, é sentimento cruzando o horizonte;
É verde, azul, lilás num justo ornamento;
É festa, é riso e a formosura se lhe aponte;
É cais de sonho, é doçura que acalento.
A ilha é linda, hortênsia em flor,
Terceira rainha, o sol do amor,
Lua de amizade, riso do Senhor,
Maresia encantada, manto de valor.
2008/01 /24
Rosa Silva ("Azoriana")
Sou (da ilha Terceira)
Sou terra e mar
Sou ilha em punho
Garça a navegar
Em solto rascunho
Sou o que a ilha quiser
E tudo o mais que dela escrever.
*****************************
Para quem visita a ilha, vestida de lilás e outras cores num painel imenso, nota que há sorrisos expostos para a passagem dos forasteiros, há bons manjares, há regras, usos e costumes. Portas para dentro há outras cores, outros sabores e outras alegrias e dores que, por vezes, estão ocultas... Talvez por isso é que o mar está tão cheio de águas: as suas e as nossas que caem já salgadas para não destemperar as que já o são (Há lágrimas de mar salgado?!).
E cada ilhéu vive à sua maneira mergulhado em todas as tonalidades de um só dia.
O mar é o espelho do céu e da terra e ciranda sempre em volta dela, numa dança infinita. São voltas e voltas do mar que a beija suavemente ou em golpes de fúria. Por isso, a terra é feliz quando é beijada e chora quando fustigada pela brava onda. Sempre será ilha brava por terra e mar num painel de cores.
2007/10/22
Rosa Silva ("Azoriana")
Vida de ilhéu (na Terceira)
"Com Deus me deito, com Deus me levanto, com amor e graça, do Divino Espírito Santo" - Era assim a sua reza matinal. Eu, calada no meu leito, olhos esguios na transversal, vigiava aquela mulher cuja idade se desenhava nas rugas do rosto e das mãos. Por vezes, sentava-me perto dela e esticava-lhe, com os meus dedos, aquelas torres de rugas sobre as mãos. Ela sorria e eu queria que ela me dissesse: "Um dia terás as tuas...". Atualmente, quedo-me nesse pensamento como que com medo de olhar as minhas mãos e ver os mesmos montes de pele, sinal de que a idade está a pesar muito... Tenho medo de envelhecer e de ficar só e as minhas rugas, sem ter ninguém que brinque com elas...
De novo, volto àquela ladainha do amanhecer de ilhéu:
- "Com Deus me deito, com Deus me levanto...". Parei neste ponto... Hoje, raramente balbucio esta reza que decorei, por ser bonita e fácil. A pressa do levantar nem deixa que se balbucie rezas rimadas e bonitas como estas... Não dá tempo, não se tem tempo, corre-se desenfreadamente para as rugas que, por vezes, nem se chegam a alcançar porque se morre mais cedo do que antigamente. A vida de ilhéu já não é o que era no tempo desta mulher linda de cabelos alvos de neve, com um olhar de um azul transparente onde se conseguia avistar a pureza dos seus sentimentos... Tenho saudades de lhe vigiar as rezas matinais e noturnas. Aos anos que não as ouço porque só resta a recordação.
A vida de ilhéu apetece recordar...
2007/10/22
Rosa Silva ("Azoriana")
Ilha lilás, a Terceira
A noite é um xaile negro que cobre a ilha. Quando esta desperta do pesadelo, o sol cobre-a de beijos e raios de ternura, ladeado pelas nuvens que tentam esconder a felicidade da manhã airosa e doce. E nesta maré de emoções, eis que surge, neste dia, o resplendor da vontade de cantar a Ilha Brava e Doce.
A ilha é «Brava» porque no quadriculado de preto e verde, serenamente, pastam vultos negros cuja fúria só se percebe quando o seu olhar fixa quem os atiça. Na calma azul (do céu) e verde (do pasto) e se juntos, parecem-se com os bois e vacas que pastam noutras pastagens da ilha.
A ilha é "Doce" porque a culinária é rica e apetitosa. O alfenim, por exemplo, é um doce feito à base de açúcar que só existe na ilha mais festeira do mundo - a Ilha Terceira.
Acompanha e participa nesta onda de prosas, amores, rosas e poesia de sabor popular desta pérola mais-que-perfeita, uma flor do paraíso açoriano, descoberta no século XV.
2007/10/22
Rosa Silva ("Azoriana")
A ILHA (a Terceira) merece
Ilha
Bordada de palavras
no bailado da brisa
entre um porto de aventura
e uma rocha de ternura
És magia
uma flor aberta ao dia
uma maré de amores
universo de mil flores
num decote de prazer
um doce amanhecer
da primavera da vida.
És regaço de ilhéus
És ventre de uma cratera
Que deixou de ser.
És embrião de esperança
um olhar doce de criança
cada vez que a deixas viver.
És farol de salvação
uma estátua verde
uma tela de vida
no horizonte traçada
e do mar erguida.
És o rebentar de emoções
na maresia dos sentidos
no patamar do mundo
nesse Atlântico profundo.
És Ilha
ancorada
aos meus silêncios.
2007/11/01
Rosa Silva ("Azoriana")
Abraço duradoiro
Debruada a espiguilha
Vou cantando minha ilha
Que de lilás fez-se hortense
Nesse tom que lhe pertence
E quem por ela hoje passa
Com gosto sempre a abraça.
É ilha encantadora
Mui formosa e sonhadora
De beleza sem igual
Uma flor de Portugal
E quem por ela ontem passou
Maior saudade abraçou.
Musa de danças e rimas
Regadas pelas vindimas
Do vinho doce e cantares
Que se juntam nos lagares
E quem por ela passar
Sei que a vai abraçar.
Ó minha linda Terceira
Alegre e muito festeira
O coração dos Açores
Uma mostra de sabores
E quem por ti vai passando
Sorrindo te vai abraçando.
Rosa Silva ("Azoriana")
Continuação... (embrulho de versos)
Se o cantar me ajudasse
Na vida a sobreviver
Talvez medo não passasse
Do medo que temo ter.
Este medo me acompanha
Desde a hora em que nasci
E no peito me desenha
A falta que tenho de ti (*).
Se fosse mais arrojada
E cantasse sem temer
Talvez a voz fosse nada
Comparado com o saber.
Sem saber eu me criei
Junto à berma da valeta
E dos passos que já dei
Comecei-os na Serreta.
A Serreta é lugar frio
Que aquece o coração;
Se eu cantar ao desafio
Quero ver-te na multidão.
Multidão sei que não tenho
A ouvir as minhas rezas;
Se tiver bom desempenho
Sei que a vida me prezas.
Eu hoje estou desalmada
Para rimar sem tafulho
“Por favor fica calada
Porque já falta o embrulho”.
O embrulho de uma mãe
Que gostava de cantigas…
O fundo sei que não tem,
Nem vê joio, nem ortigas.
Ó minha mãe fostes cedo
Desta vida para fora…
Só tu sabes o segredo
De eu estar cantando agora.
Rosa Silva (“Azoriana”)
(*) minha mãe.
Artigo relacionado: Improvisando...
Improvisando...
Será que a voz não me ajuda
Para eu ter mais alegria
E por vezes nem me acuda
Ao verso na cantoria?!
A voz da inspiração
Para mim é preferida
Em qualquer ocasião
É ela que nos dá vida.
Uma vez frente à colina
Temos de ir a preceito
Com inspiração divina
Sobe-se de melhor jeito.
Dizem que o escrever
É melhor que o falar
Pode bem verdade ser
Mas escrevo a cantar.
É na hora que ele vem
É como que em rajada
O verso que me convém
Pode até nem valer nada.
Se o cantar me ajudasse
Na vida a sobreviver
Talvez medo não passasse
Do medo que temo ter.
Rosa Silva ("Azoriana")
Depois de ouvir "Ferreirinha das Bicas", cantei...
Esta gente que agora canta |
Por favor alguém me acuda |
Rosa Silva ("Azoriana")
Cantoria entre Ferreirinha das Bicas e filho, Luís Carlos Ferreira
Nota prévia: Desculpem se algum verso não está exato. Se por acaso isso notarem é favor avisar para que o retifique. Muito obrigada.
CANTORIA (15:03)
Com Ferreirinha das Bicas e Luís Carlos Ferreira
Viola - Amâncio Rocha
Violão - Diamantino Ávila
Disco - “Levei a Vida a Cantar” - 1979
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Com minh’alma oprimida,
Com meus versos inferiores,
Venho dar a despedida
À glória dos cantadores.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Eu na minha mocidade,
As quadras iam surgindo;
Agora com esta idade
As ideias vão fugindo.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Ó meu pai tu podes crer,
Que nada sou nesta hora;
Mas gostava de saber
Tanto como o pai agora.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Eu cantava com alegria,
Nessa época santa e qu’rida,
Julguei que a vida me fugia
E é que vou fugindo à vida.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Pai ainda cantas bem,
Fazes o povo vibrar
E cá não temos ninguém
Que faça o teu lugar.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Dou, às vezes, em pensar,
Em colegas que morreram;
E eu não tardo a acompanhar
Esses que desapareceram.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Pai não deixes de cantar,
A pedir-te a tal me obrigas,
Porque o povo vai achar
Falta das tuas cantigas.
FERREIRINHA DAS BICAS:
A vida é cheia de dores,
Tu ainda a vida gozas;
Entre cardos viçam flores,
Entre espinhos viçam rosas.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Ó meu grande cantador,
Mestre que valor encerra:
Tu ainda és uma flor
Dos jardins da nossa terra!
FERREIRINHA DAS BICAS:
Não tive quadras famosas,
Fazia simples cantigas,
Porque o campo que dá rosas
Também chega a dar ortigas.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Nem todas as plantas dão flores,
Nem todas frutos também,
Nem todas bonitas cores…
É isto que a vida tem.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Fui flor que desabrochou,
Quando a vida era bela;
Veio o tempo que a secou
Resta muito pouco dela.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Dizem pessoas amigas,
Das gentes que te são queridas,
Que restam tuas cantigas
P’ró resto das nossas vidas.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Na América e nos Açores
Cantei de boa vontade;
Conquistei admiradores
Só me resta a saudade.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Na América o pai cantou
Os teus versos superiores,
A alto nome o levou
As nove ilhas dos Açores.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Quando vou a um coreto
Já nada de mim se espera;
Estão vendo o esqueleto
Daquele pouco que eu era.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Com as belas quadras tuas,
Sempre alegre e sorridente,
Mesmo velho continuas
A agradar a nossa gente.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Junto ao teu berço cantava
E dizia doces falas,
Nesse tempo é que te embalava
Agora é que me embalas.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Creio quando me embalavas,
Como o vento as espigas,
Nessa altura me cantavas
As mais bonitas cantigas.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Meu filho para teres brilhos,
E na vida seres feliz:
É fazeres aos teus filhos
Esse pouco que eu te fiz.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Sou feliz como ninguém,
À vida formo empenho;
É feliz o filho que tem
Um pai santo como eu tenho.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Que sejas bom cantador,
Sem pensares traiçoeiros,
Que sejas respeitador
P’ró público e companheiros.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Tudo na vida se esvai,
Num minuto, num segundo,
Mas os conselhos de pai
Ficam sempre neste mundo.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Canta de forma risonha,
Muita calma e sensatez,
E nunca tenhas vergonha
De seres um bom português.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Diz minha voz magoada,
Meu rosto lavado em pranto:
Que ser bom não custa nada
E que ser mau custa tanto.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Já te disse muita vez
E que te sirva de lição:
Para seres bom português
Tens de ser um bom cristão.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Ó pai quem nunca nascesse
P’ra uma terra partida,
Talvez que nunca sofresse
Na curta estrada da vida.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Há pobre que se consome
Por imerecida pobreza;
Se vires alguém com fome
Põe mais um prato à tua mesa.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Serei sempre bom cristão,
Praticando a caridade;
Procurarei dar a mão,
A quem tem necessidade.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Meu filho repara nisto,
Não julgues que é loucura,
Ele até pode ser Cristo
Que vem à tua procura.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Ó se tal acontecesse,
Em hora, minuto ou segundo,
Não havia quem conhecesse
Mais alegria no mundo.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Para a vida nos sorrir,
Ser mais leve a nossa cruz;
Ser democrata é seguir
As pisadas de Jesus.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Se assim todos pensassem,
Mas pensassem bem a fundo,
Talvez que se acabassem
As guerras em todo o mundo.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Falam em democracia,
Que falsidade atrevida;
Há tanta hipocrisia
Em tanto peito escondida.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
E pó que se empoeira
Tantos que se sujam nela,
E a nossa ilha Terceira
Está bem repleta dela.
FERREIRINHA DAS BICAS:
É melhor ficar calado.
Adeus ó nobre assistência:
A todos muito obrigado
Por vossa benevolência!
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Agora p’ra não maçar
Com quadras sem conter brilho,
Todos devem perdoar
Ao Ferreirinha e seu filho.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Levei a vida a cantar,
Pobres versos aleijados;
E agora levo a chorar
Em perdão dos meus pecados.
LUÍS CARLOS FERREIRA:
Ouçam esta gravação,
De quadras pobres e ricas,
Que é uma recordação
Do Ferreirinha das Bicas.
FERREIRINHA DAS BICAS:
Eu fui seguindo este trilho,
A cantar com filho amigo;
Que Deus te abençoe, meu filho,
E a paz de Deus seja contigo.
Fim
A S. Sebastião
Último domingo (26) do mês de outubro de 2014. Tarde calma com visões celestiais tranquilas de anil e ouro, fruto do mar e do sol. Paisagem serena junto à Ermida da mártir Maria Vieira, na freguesia de S. Sebastião. Por entre as visões e as orações íntimas, uma porta aberta convidativa à subida de cinquenta degraus intervalados por uma espécie de "Pai-Nosso". É que a escadaria lembra-me a reza do terço, as cinquenta ave-marias e os cinco Pai-Nossos. Impelidos por uma vontade consciente subimos e entrámos na Ermida que, por incrível que nos parecesse, estava no início da eucaristia, com a palavra do pároco Domingos Faria (desconhecia-o até então).
Nada nos fez abalar sem ouvir tudo até à bênção final. Nada mesmo. Os bancos; o terço artesanal de comprimento que dava para enfeitar a entrada, as laterais e o altar da Ermida, entrelaçando algumas imagens belas de Jesus e sua Mãe; o Sacrário; as imagens cativantes; mas sobretudo, a explicação (prefiro ao invés de sermão) do pároco, sempre que via a necessidade do bom gesto que nos impedia de sequer pronunciar um gemido. O silêncio era preciso para captar com todos os sentidos a mensagem (todas) das leituras, do Evangelho, do "nós", da "salvação universal" e da paz interior.
Parecia que o céu tinha descido à Ermida. Parecia que o pecado se anulara. Parecia que Deus nos presenteava com um momento para a vida exterior à Ermida. Parecia que os anjos cantavam pela voz do pároco Domingos Faria. Parecia que a tarde caía numa escuridão santa.
E foi então que do meu íntimo surgiram versos cantantes para ofertar a S. Sebastião, porque ouvi a intenção informativa. À minha lembrança chegou a voz interior que me despertou para a proximidade do dia 28 de outubro, data que fará onze anos que a minha mãe partiu para outra dimensão. Ela deu-me este sinal que, de propósito ou não, me fez subir cinquenta degraus, e entrar numa Ermida até então desconhecida para mim. São estes sinais que provam a existência da eternidade e a partilha de sentimentos de lá para cá.
É-me impossível esconder tais versos "ouvidos", cantados e rezados para uma imagem única: S. Sebastião! Graças a uma homilia extraordinária e que me tocou profundamente, admirei e amei.
Ei-los por escrito e também em imagem:
S. SEBASTIÃO
Pode o céu tombar de anil
Junto a S. Sebastião;
Pode o ilhéu ser subtil
No retalho de mansidão;
Porque as graças serão mil
Fruto da nossa oração.
Glória a S. Sebastião
O padroeiro da Vila
Na flecha do coração
Junta o povo qual argila.
Glória à fé em união
Nos caminhos da ternura
Patrono da salvação
Que nos tira da agrura.
Vem o tempo de orar
Uma prece universal;
Vem o tempo de ficar
Numa onda fraternal
E do abraço popular
Dar-se a graça divinal.
2014/10/26
Rosa Silva (“Azoriana”)
Nota: Artigo relacionado.
A rima puxa rima...
Bom dia!
Minha mãe que estás no Céu
Pede por mim ao Senhor
À saudade comum de ilhéu
Junto a fraqueza e a dor;
Que as estrelas do teu véu
Deem brilho aonde eu for.
Rosa Silva ("Azoriana")
Primeira quadra do meu filho, Paulo Filipe Silva Borges, em resposta à minha sextilha:
Coimbra que me abraça
Dos açores fiz a partida
Deixo aqui minha graça
Desta saudade sentida.
2014/10/26
Domingo de outubro
Hora de inverno
Comemorações do Centenário do Nascimento do Ferreirinha das Bicas
Organização:
Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
e
Associação de Cantadores ao Desafio dos Açores
Meu artigo relacionado, iniciado em janeiro de 2014: Centenário do nascimento de Ferreirinha das Bicas.
Fico muito feliz por esta comemoração. Bem-haja a todos quanto nela colaboram!
Para a Rádio Portugal USA: "Voz dos Açores", de Euclides Álvares - Um cheirinho da Terceira:
2014/10/25
Sábado de comemorações
De um cantador terceirense:
Ferreirinha das emoções
Verso de lilás hortense.
É dia de Centenário
Pleno do seu Nascimento;
Abre-se, hoje, o cenário
P'ra celebrar o evento.
Cantadores do desafio
Com dita Associação
Vão dar-lhe um novo brio
À tarde e ao serão.
Viva quem deixou legado
Digno de ser advertido
Bem-haja quem está ao lado
E não o deixa esquecido.
A Terceira, meus senhores,
É devota da cantiga
Que é dom dos cantadores
E faz com que a rima siga.
Bem-haja a organização
De tão bonito festejo!
Celebremos a ocasião
Como sempre foi meu desejo.
Lembrar aqueles que partiram
É lembrar quem fez o bem
Certamente conseguiram
Ter um bom lugar também.
Minha alma se inflama
De verdadeira ternura
Viva todo aquele que ama
A nossa viva cultura.
Rosa Silva ("Azoriana")
“Começamos a morrer no dia em que nascemos...”
Nasci e não me criei
Vivi como se não vivesse
Cresci como se não fosse eu
Dei vida à vida de três
Tão diferentes e tão iguais...
No entanto colhi alegrias, choros entre marés partidas…
Deixei-me poetizar em nada
Tingi as letras do meu eu nado
Salpiquei o ser de sonhos
Irreais
Fingi a felicidade que quis
E mesmo assim quis ser feliz
Mesmo que a morte seja sempre a meta…
A escrita é que me salva
É verdade. Colho da escrita a salvação
E quanto mais enriçada, a escrita, melhor até
[Reticências]
2014/10/22
Rosa Silva (“Azoriana”)
Saudade
Carlos Drummond de Andrade
Não importa a distância que nos separa, há um céu que nos une
Leia mais: Mensagens com amor/frases de saudades
Lembranças
Cai a noite, vem o dia
E eu aqui sem noção
Do tanto que eu podia
E agora posso não.
Cai o xaile, vem a nu
Tanta palavra deserta
Num verso que sabe a cru
E deixa uma porta aberta.
E eu aqui deste lado
Numa berma da história
Que sufoca a memória.
E tu aí ensonado
No passeio de uma vida
De lembranças investida.
Rosa Silva ("Azoriana")
A ANGEL K
Mulher, mãe, linda e artista
Do seu mundo brasileiro
Do funk que nos conquista
E o amor do mundo inteiro.
Alto sonho, luxo que à vista
Dá um gozo verdadeiro
Paraíso que na revista
Luz em visual pioneiro.
Com subtil delicadeza
Rainha de grã beleza
Ganha nossa admiração.
Portugal hoje te abraça
E da ilha que te acha graça
Fascínio teve à visão.
Rosa Silva ("Azoriana")
O livro, o convite, o lançamento e a feliz emoção
A Cecília e ao marido,
Que conheci na Terceira;
Meu abraço agradecido,
Feliz estive à sua beira.
O seu livro eu já li
É lindo dou a certeza;
Ainda bem que conheci
Filhos da ilha portuguesa.
Bem-haja a D. Cecília,
Por tudo o que tem de seu;
Bem-haja toda a família
E a quem a olha do Céu.
"Não peças contas a Deus"
É uma expressão sincera
Que na terra se venera
Por alma de entes seus.
Cecília e João, o casal,
Que muito lutaram na vida
P'ra ter forma garantida
E triunfo pessoal.
A vida é como uma barca
Que navega em alto-mar;
Sobrevive quem deixar
No mundo a boa marca.
Não sabemos a missão
Que Deus a nós destinou;
Só se sabe que findou
Quando já cá não estão.
Rosa Silva ("Azoriana")
Para a Rádio Portugal USA, programa «Voz dos Açores», de Euclides Álvares, na rubrica «Um cheirinho da Terceira», vinte anos depois (9/4/1994), no dia do lançamento do livro "Cecília & João Pires - Uma Leitaria em Gustine - Califórnia", da autoria de Liduíno Borba, da coleção "Figuras da Diáspora 02", com Prefácio de Monsenhor Ivo Rocha.
A minha participação, que me fez sentir muito honrada, encontra-se nas páginas 239 à 242 (em português) e 250 à 253 (em inglês), com um poema ao casal Pires, na festa do 65º aniversário de João Borges Pires; uma quadra do Pezinho e uma sextilha da Cantoria, realizada na festa junto à "Santinha do Mato", em 24 de junho de 2014.
Eis o convite que recebi e conto estar presente, hoje, no lançamento de tão lindo livro, com um total de 384 páginas, da cor do mar, do céu e da alma açoriana, um azul cristalino, com imagens lindíssimas de toda uma vida de trabalho, dedicação e amor.
Para mim, a imagem do Periquito, a do "Amor a Três...", a da "Santinha do Mato", a da página 165, a da página 283 e a da montagem de José Enes com a rosa de Robert, são as que ficam gravadas no coração e na memória...
Que uma roseira se plante.
Junto ao poste nasça a rosa;
Que seja a paz do semblante
De uma alma ditosa.
Seja junto ao poste velho
Onde a cruz está presente;
P'ra que seja um conselho
Que fica p'ra muita gente.
Angra do Heroísmo, 18 de outubro de 2014, sábado.
Dos Açores e de mim
Dei de mim tudo o que pude
De resto haja saúde!
Levei o dia assim
Num pensamento sem fim.
E vejam só que virtude
Mesmo com a longitude
Tudo está perto de mim
Nas flores do meu jardim.
Da roseira nascem rosas
E das letras a memória
Que retrata minha história.
Só as letras mais vistosas
Florescem na alegria:
Por amor o bem se cria!
9/10/2014
Rosa Silva ("Azoriana ")
No dia de aniversário, na entrada na maioridade, de Paulo Filipe Silva Borges. Parabéns, filho! Beijos
Postar por email
Dou por mim a experimentar
O que há muito havia:
Por email a escriturar
Versos ao sabor do dia.
Não sei se vai resultar
O poste sem avaria;
Importa é ver navegar
O que nos dá alegria.
Quando a alegria é pouca
Mesmo com a novidade
A escrita cala a boca.
Mas não vou calar a minha
Tenha ou não dificuldade
O SAPO nos acarinha.
Rosa Silva (Azoriana)
O SAPO mudou
Engraçada a mudança
Toda airosa e perfeita
Deu um salto de pujança
Sem achar a porta estreita.
Parece maior em tudo
Uma limpeza de tralha
Tem um ícone sortudo
Do verde que bem lhe calha.
E eu que fazer ao meu
Blogue que tem a dezena
Dos posts que Deus me deu
Com algum tempo de antena?!
Quero lavar o meu rosto
Dar-lhe um novo visual
Quando o Pedro tiver o gosto
De me dar algum sinal.
Entre cliques e mais cliques
Há ainda alguns detalhes
Ó SAPO se tiveres "chiliques"
Nos Destaques tu não falhes.
Da experiência que já tens
Nesta hora é tudo ou nada
Desde já os PARABÉNS
Pela mudança mostrada.
Rosa Silva ("Azoriana")
Três "p's": Parar Para Pensar
“Escreves coisas tão bonitas”
Parece que ouço na mente
“Mas não sei se acreditas
No que lês na tua frente”.
É verdade! Podem crer
Não sei dar a mim valor
Mas também posso dizer
Que escrevo por amor.
Hoje lembro do meu pai
O homem de sete ofícios
Que da mente não me sai
E era contra desperdícios.
Se ele vivesse agora
Ficaria horrorizado
Com tanto carro à nora
Fazendo o céu cinzelado.
Há carros a mais na ilha
Terceira de Jesus Cristo
Nem sequer numa sextilha
Dava para falar disto
Tende cuidado ilhéus
Que andais tão apressados
Manchando os nossos céus
Poluindo os nossos brados.
Tanto carro pelas ruas
Entupindo a viação
E se assim continuas
Vítima és da poluição.
Se um “drone” sobrevoar
Nossa Angra do Heroísmo
Certamente vão notar
Que o verso tem realismo.
Não há lugar para parar,
Conduzir é um colosso;
Há que parar para pensar
Ou então está aberto o fosso.
Isto assim está ruim
E não há volta a dar
Também falo para mim
Com carro costumo andar.
Na minha casa é só um
Carro por necessidade
E não quero mais nenhum
Poluindo a cidade.
Mas há lares que têm mais
Em virtude de trabalhos
Diferentes e pontuais
Que vão por outros atalhos.
O que foi que aconteceu
Para haver tando deslize?
Ou tudo endoideceu
Ou então já não há crise?!
Ou gastamos sem medida,
Andamos em “faz de conta”,
Ou queremos gozar a vida
Mesmo com a cova pronta?!
Rosa Silva (“Azoriana”)
P.S. Após a divulgação destes versos chegou-me ao conhecimento um comentário pertinente e muito bem construído de acordo com a atualidade automobilista na ilha Terceira (e quem sabe noutras ilhas do arquipélago dos Açores). Ei-lo transcrito na íntegra sem colocar o nome do autor que gosta de anonimato:
(...) digo-te, efetivamente que, na nossa ilha, há carros demais a circular nas nossas estradas. Isto é o reflexo da preguiça e do comodismo que tomou conta das nossas gentes. Estamos quase todos com as veias e artérias entupidas de comer, beber muito e, depois, chocar as banhas no sofá. Alguns (as) para combater essa gula e preguiça excessiva, gastam fortunas em “podas” estéticas, outros procuram diluir o tecido adiposo nas academias mas, como temos o famoso “quinto toiro”, deitam tudo a perder com os proventos gastronómicos desse bicho generoso nas questões da culinária.
Quanto aos problemas do meio ambiente, eles já nos estão a molestar, mas continuamos a assobiar para o lado julgando que isso só irá apoquentar os outros. Conheço pessoas, minhas vizinhas, que, várias vezes por dia, vão a casa dos parentes que distam duzentos ou trezentos metros uns dos outros nos seus popós de marca afamada. Ei home, isto o que é?!... E se quisermos abordar outras questões: os plásticos e os vidros que deveriam ser todos reciclados, teríamos aqui um tratado de revolta e repúdio por aquilo que vejo não fazer por aí. Em jeito de síntese, deixo o seguinte provérbio “Deus perdoa sempre, o Homem perdoa às vezes, a Natureza nunca perdoa”…
A propósito do artigo anterior (Lançamento do livro de João Leonel)
Da sextilha que me fez
Tão linda, está muito bem;
Sinto que algo talvez
Tenha vindo do além,
Porque sinto muita vez
Um sinal da minha mãe.
Há em mim alguns espinhos
Que aos poucos vou ceifando;
Há também fortes raminhos
Nas quadras que vou criando,
Mas perante seus pergaminhos
Meus espinhos vou curando.
Quem fizesse uma coroa
Para em ouro te ofertar
Lembrando que a pessoa
Erra quando tem de errar
Mas do céu bem me ressoa
Um sinal para mais te cantar.
Um lírio de alva cor
Viu no bordão S. José;
Uma marca por amor
A Maria, que Virgem é,
E a quem canta com fervor
Tem sempre um lírio ao pé.
Agora que posso fazer
Para florir minhas flores?!
A teu lado pude ver
Tão risonhas minhas cores.
Só que vou anoitecer
Sem cantar além Açores.
Rosa Silva ("Azoriana")