Depois de ouvir "Ferreirinha das Bicas", cantei...


Esta gente que agora canta
Dos velhos não tem noção (?)
Porque levantam a garganta
E perde a força a missão.

É preciso a humildade
E elogiar os antigos
Porque a sinceridade
É que cria bons amigos.

Não ouvia a cantoria
Mas quando me interessei
Vi brilhar como não via
E a rima então pesquei.

Não pesquei como quem pesca
Com o fio chamariz
Fui tecendo a quadra fresca
Cuja rima é a matriz.

Ai quem pudesse cantar
A toda a hora e momento
O que a rima segredar
P’ra deixar voar ao vento.

Há uma forte ventania
Na arte dos cantadores
Que fazem da cantoria
O melhor voo dos Açores.

Sinto a alma a explodir
Com rimas ao desbarato
Meu coração se as seguir
De certeza dá-lhes trato.



Por favor alguém me acuda
Estou a cantar a sério
Se eu vos peço ajuda
É p’ra desvendar o mistério.

Que mistério é este o meu
Parece não ter travão?!
Se cada um tem o seu
Este é mais que um vulcão.

Valha-me Santa Maria!
Valham-me anjos do céu!
Dai-me asas p’ra cantoria,
Fazei voar algum chapéu.

Para ver o chapéu voar
Da cabeça de vocês
Era preciso atuar
Muito mais que uma vez.

Se calhar eu não enxergo
O que muitos enxergaram;
Se calhar eu não me vergo
Como tantos já vergaram.

Esta quadra foi tão pobre
Como pobre também sou
Só queria a alma nobre
Do pouco que me restou.

Ouvi Ferreirinha das Bicas
Com seu filho a cantar
Com quadras lindas e ricas
Que me fizeram chorar.



Rosa Silva ("Azoriana")

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