Sobre e-mail recebido do amigo José Fonseca de Sousa

A seguir a dois parágrafos de resposta/comentário à situação que me foi remetida não consegui alhear-me da força que me impulsionava a completá-los com sextilhas (num total de oito) num ápice de tempo que nem me roubou quase nada ao resto dos lavores do dia. Foi tipo uma flecha de emoções o que agora vos revelo, porque o que se faz de bem merece elogios também, seja em prosa ou em rima. No meu caso, a rima é a predileta para que as ideias jorrem o que tem de jorrar.

O terceiro parágrafo da resposta e as sextilhas foram assim - Então cá vai, à moda da Azoriana - terceirense das rimas, à laia de destaque:


“Retalhos de AMOR”

Se fica feio admirar
Da forma que admiro
Mais valia que o mar
Me levasse noutro giro;
Porque o mar é meu rimar
E da prosa o retiro.

Admiro o lisboeta
Que retrata nossas cores,
Seja a nuvem branca ou preta
Nem lhe causa dissabores,
Já sabe a silhueta
Das nove ilhas dos Açores.

E os amigos que cá tem
Vão crescendo dia a dia;
Sabemos que lhes quer bem,
Ao Pezinho e à Cantoria,
E não haja então quem
Lhe retire esta alegria.

Viva, viva amigo meu!
E de tantos bons ilhéus,
Tudo o que se canta é seu,
Divulgue sem quaisquer véus;
Por tudo o que já ofereceu
Tenha recompensa dos céus.

De louvar eu não me canso
E de rimar também não.
Quando o verso vier manso
Que nem caiba num refrão
É porque não tenho avanço
E durmo no frio chão.

Se fui musa inspiradora
Dos versos do caro José?!
Serei sua defensora
E de si nem arredo pé;
Sua escrita é detentora
Do meu gosto e minha fé.

E para mais não maçar
Nem ocupar seus momentos,
Só me resta encimar
E apregoar aos quatro ventos:
Que quando eu o abraçar
Abraço os seus talentos!

Em par seja a sextilha
Para içar o meu louvor:
Ao que tem feito na ilha
Eleva com mais fulgor
Guarde sempre a maravilha:
São Retalhos de AMOR.

Rosa Silva ("Azoriana")


José Fonseca de Sousa

Meus cabelos

Meus cabelos

Assim é o amor

Assim é o amor

Guitarra

Foto de Amália de 1949

Violetas no meu canto

Por mim o vosso fado

Vosso fado

Se quiserem cantar p'ra mim
Se de mim tiverem saudade
Basta sorrir na voz e assim
Darem o seu verso à vontade.

Um verso de amor singelo
Porque singelo é o amor
E além de ser o mais belo
Traz também à voz calor.

E se amar é querer bem
Se amar é dar-se em tudo
Por amor bem-haja quem

Me cante em voz de veludo
Porque voz sente quem tem
Na voz amor sobretudo.

Rosa Silva ("Azoriana")


Outubro, o mês do FADO

Nosso fado

A cama estava vazia
Estendi-me p'ro teu lado
Afinal não estava fria
Teu calor tinhas deixado.

E tudo o que eu queria
Que tivesses ali ficado
Enquanto eu permanecia
No nosso leito adorado.

Mas o dia já nascera
Com a pressa do costume
E a ti te convencera...

A deixar o calor meu
Que de amar parece lume
Na brasa do peito teu.

Rosa Silva ("Azoriana")

Amália - DIVA do FADO

Amália Rodrigues - DIVA do FADO


Outubro foi o teu mês
De partida mas ficando
Ao lado de quem te amando
Te chora por tanta vez.

Amália tom português
A Diva que ouvi cantando
E quase sempre chorando
O trinado que bem fez.

Amália teu doce canto
Vai comungando perfume
De uma saudade em cume.

As rosas tuas são belas
Melhor perfume que elas
Só na tua voz de encanto.

Rosa Silva ("Azoriana")

[2014/10/06]

Hortênsia em flor (Terceira)

Moro numa ilha beijada pelo mar
E no rosto das manhãs dou por mim a louvar
- Que bom é ter-te em mais um dia de magia!
- Que bom é ter uma ilha por companhia!
Deixo-me vaguear envolvida em tanta cor
Que o dia me traz num abraço de amor;
Refresco-me de um colorido de terra e mar
Na estonteante serenidade e bravura
Que venera o centro do fogo e a paz do luar
Da Ilha onde a mulher assenta em figura.

O prazer peninsular do cativante Monte,
Ventre aberto ao céu que lhe fica defronte,
Refúgio das aves e de quem o visita,
Miradouro intemporal da terra que o fita.
O Monte, a Ilha é tudo isto sem ser demais:
É bela, é de Cristo e dos comuns mortais;
É vida, é dor, é sentimento cruzando o horizonte;
É verde, azul, lilás num justo ornamento;
É festa, é riso e a formosura se lhe aponte;
É cais de sonho, é doçura que acalento.

A ilha é linda, hortênsia em flor,
Terceira rainha, o sol do amor,
Lua de amizade, riso do Senhor,
Maresia encantada, manto de valor.

2008/01 /24

Rosa Silva ("Azoriana")

Natureza

Natureza

Sou (da ilha Terceira)

Sou terra e mar
Sou ilha em punho

Garça a navegar
Em solto rascunho

Sou o que a ilha quiser
E tudo o mais que dela escrever.

*****************************

Para quem visita a ilha, vestida de lilás e outras cores num painel imenso, nota que há sorrisos expostos para a passagem dos forasteiros, há bons manjares, há regras, usos e costumes. Portas para dentro há outras cores, outros sabores e outras alegrias e dores que, por vezes, estão ocultas... Talvez por isso é que o mar está tão cheio de águas: as suas e as nossas que caem já salgadas para não destemperar as que já o são (Há lágrimas de mar salgado?!).

E cada ilhéu vive à sua maneira mergulhado em todas as tonalidades de um só dia.

O mar é o espelho do céu e da terra e ciranda sempre em volta dela, numa dança infinita. São voltas e voltas do mar que a beija suavemente ou em golpes de fúria. Por isso, a terra é feliz quando é beijada e chora quando fustigada pela brava onda. Sempre será ilha brava por terra e mar num painel de cores.

2007/10/22

Rosa Silva ("Azoriana")

Vida de ilhéu (na Terceira)

"Com Deus me deito, com Deus me levanto, com amor e graça, do Divino Espírito Santo" - Era assim a sua reza matinal. Eu, calada no meu leito, olhos esguios na transversal, vigiava aquela mulher cuja idade se desenhava nas rugas do rosto e das mãos. Por vezes, sentava-me perto dela e esticava-lhe, com os meus dedos, aquelas torres de rugas sobre as mãos. Ela sorria e eu queria que ela me dissesse: "Um dia terás as tuas...". Atualmente, quedo-me nesse pensamento como que com medo de olhar as minhas mãos e ver os mesmos montes de pele, sinal de que a idade está a pesar muito... Tenho medo de envelhecer e de ficar só e as minhas rugas, sem ter ninguém que brinque com elas...

De novo, volto àquela ladainha do amanhecer de ilhéu:

- "Com Deus me deito, com Deus me levanto...". Parei neste ponto... Hoje, raramente balbucio esta reza que decorei, por ser bonita e fácil. A pressa do levantar nem deixa que se balbucie rezas rimadas e bonitas como estas... Não dá tempo, não se tem tempo, corre-se desenfreadamente para as rugas que, por vezes, nem se chegam a alcançar porque se morre mais cedo do que antigamente. A vida de ilhéu já não é o que era no tempo desta mulher linda de cabelos alvos de neve, com um olhar de um azul transparente onde se conseguia avistar a pureza dos seus sentimentos... Tenho saudades de lhe vigiar as rezas matinais e noturnas. Aos anos que não as ouço porque só resta a recordação.

A vida de ilhéu apetece recordar...

2007/10/22

Rosa Silva ("Azoriana")

Ilha lilás, a Terceira

A noite é um xaile negro que cobre a ilha. Quando esta desperta do pesadelo, o sol cobre-a de beijos e raios de ternura, ladeado pelas nuvens que tentam esconder a felicidade da manhã airosa e doce. E nesta maré de emoções, eis que surge, neste dia, o resplendor da vontade de cantar a Ilha Brava e Doce.

A ilha é «Brava» porque no quadriculado de preto e verde, serenamente, pastam vultos negros cuja fúria só se percebe quando o seu olhar fixa quem os atiça. Na calma azul (do céu) e verde (do pasto) e se juntos, parecem-se com os bois e vacas que pastam noutras pastagens da ilha.

A ilha é "Doce" porque a culinária é rica e apetitosa. O alfenim, por exemplo, é um doce feito à base de açúcar que só existe na ilha mais festeira do mundo - a Ilha Terceira.

Acompanha e participa nesta onda de prosas, amores, rosas e poesia de sabor popular desta pérola mais-que-perfeita, uma flor do paraíso açoriano, descoberta no século XV.

2007/10/22

Rosa Silva ("Azoriana")

A ILHA (a Terceira) merece

Ilha

Bordada de palavras
no bailado da brisa
entre um porto de aventura
e uma rocha de ternura

És magia
uma flor aberta ao dia
uma maré de amores
universo de mil flores
num decote de prazer
um doce amanhecer
da primavera da vida.

És regaço de ilhéus
És ventre de uma cratera
Que deixou de ser.

És embrião de esperança
um olhar doce de criança
cada vez que a deixas viver.

És farol de salvação
uma estátua verde
uma tela de vida
no horizonte traçada
e do mar erguida.

És o rebentar de emoções
na maresia dos sentidos
no patamar do mundo
nesse Atlântico profundo.

És Ilha
ancorada
aos meus silêncios.

2007/11/01

Rosa Silva ("Azoriana")

Abraço duradoiro

Debruada a espiguilha
Vou cantando minha ilha
Que de lilás fez-se hortense
Nesse tom que lhe pertence
E quem por ela hoje passa
Com gosto sempre a abraça.

É ilha encantadora
Mui formosa e sonhadora
De beleza sem igual
Uma flor de Portugal
E quem por ela ontem passou
Maior saudade abraçou.

Musa de danças e rimas
Regadas pelas vindimas
Do vinho doce e cantares
Que se juntam nos lagares
E quem por ela passar
Sei que a vai abraçar.

Ó minha linda Terceira
Alegre e muito festeira
O coração dos Açores
Uma mostra de sabores
E quem por ti vai passando
Sorrindo te vai abraçando.

Rosa Silva ("Azoriana")

Continuação... (embrulho de versos)

Se o cantar me ajudasse
Na vida a sobreviver
Talvez medo não passasse
Do medo que temo ter.


Este medo me acompanha
Desde a hora em que nasci
E no peito me desenha
A falta que tenho de ti (*).

Se fosse mais arrojada
E cantasse sem temer
Talvez a voz fosse nada
Comparado com o saber.

Sem saber eu me criei
Junto à berma da valeta
E dos passos que já dei
Comecei-os na Serreta.

A Serreta é lugar frio
Que aquece o coração;
Se eu cantar ao desafio
Quero ver-te na multidão.

Multidão sei que não tenho
A ouvir as minhas rezas;
Se tiver bom desempenho
Sei que a vida me prezas.

Eu hoje estou desalmada
Para rimar sem tafulho
“Por favor fica calada
Porque já falta o embrulho”.

O embrulho de uma mãe
Que gostava de cantigas…
O fundo sei que não tem,
Nem vê joio, nem ortigas.

Ó minha mãe fostes cedo
Desta vida para fora…
Só tu sabes o segredo
De eu estar cantando agora.

Rosa Silva (“Azoriana”)

(*) minha mãe.


Artigo relacionado: Improvisando...

Improvisando...

Será que a voz não me ajuda
Para eu ter mais alegria
E por vezes nem me acuda
Ao verso na cantoria?!

A voz da inspiração
Para mim é preferida
Em qualquer ocasião
É ela que nos dá vida.

Uma vez frente à colina
Temos de ir a preceito
Com inspiração divina
Sobe-se de melhor jeito.

Dizem que o escrever
É melhor que o falar
Pode bem verdade ser
Mas escrevo a cantar.

É na hora que ele vem
É como que em rajada
O verso que me convém
Pode até nem valer nada.

Se o cantar me ajudasse
Na vida a sobreviver
Talvez medo não passasse
Do medo que temo ter.

Rosa Silva ("Azoriana")

Memórias

Uma santa no céu


 


Sinais de versos

Depois de ouvir "Ferreirinha das Bicas", cantei...


Esta gente que agora canta
Dos velhos não tem noção (?)
Porque levantam a garganta
E perde a força a missão.

É preciso a humildade
E elogiar os antigos
Porque a sinceridade
É que cria bons amigos.

Não ouvia a cantoria
Mas quando me interessei
Vi brilhar como não via
E a rima então pesquei.

Não pesquei como quem pesca
Com o fio chamariz
Fui tecendo a quadra fresca
Cuja rima é a matriz.

Ai quem pudesse cantar
A toda a hora e momento
O que a rima segredar
P’ra deixar voar ao vento.

Há uma forte ventania
Na arte dos cantadores
Que fazem da cantoria
O melhor voo dos Açores.

Sinto a alma a explodir
Com rimas ao desbarato
Meu coração se as seguir
De certeza dá-lhes trato.



Por favor alguém me acuda
Estou a cantar a sério
Se eu vos peço ajuda
É p’ra desvendar o mistério.

Que mistério é este o meu
Parece não ter travão?!
Se cada um tem o seu
Este é mais que um vulcão.

Valha-me Santa Maria!
Valham-me anjos do céu!
Dai-me asas p’ra cantoria,
Fazei voar algum chapéu.

Para ver o chapéu voar
Da cabeça de vocês
Era preciso atuar
Muito mais que uma vez.

Se calhar eu não enxergo
O que muitos enxergaram;
Se calhar eu não me vergo
Como tantos já vergaram.

Esta quadra foi tão pobre
Como pobre também sou
Só queria a alma nobre
Do pouco que me restou.

Ouvi Ferreirinha das Bicas
Com seu filho a cantar
Com quadras lindas e ricas
Que me fizeram chorar.



Rosa Silva ("Azoriana")

Cantoria entre Ferreirinha das Bicas e filho, Luís Carlos Ferreira

Nota prévia: Desculpem se algum verso não está exato. Se por acaso isso notarem é favor avisar para que o retifique. Muito obrigada.


CANTORIA (15:03)

Com Ferreirinha das Bicas e Luís Carlos Ferreira
Viola - Amâncio Rocha
Violão - Diamantino Ávila

Disco - “Levei a Vida a Cantar” - 1979

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Com minh’alma oprimida,
Com meus versos inferiores,
Venho dar a despedida
À glória dos cantadores.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Eu na minha mocidade,
As quadras iam surgindo;
Agora com esta idade
As ideias vão fugindo.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Ó meu pai tu podes crer,
Que nada sou nesta hora;
Mas gostava de saber
Tanto como o pai agora.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Eu cantava com alegria,
Nessa época santa e qu’rida,
Julguei que a vida me fugia
E é que vou fugindo à vida.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Pai ainda cantas bem,
Fazes o povo vibrar
E cá não temos ninguém
Que faça o teu lugar.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Dou, às vezes, em pensar,
Em colegas que morreram;
E eu não tardo a acompanhar
Esses que desapareceram.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Pai não deixes de cantar,
A pedir-te a tal me obrigas,
Porque o povo vai achar
Falta das tuas cantigas.

FERREIRINHA DAS BICAS:

A vida é cheia de dores,
Tu ainda a vida gozas;
Entre cardos viçam flores,
Entre espinhos viçam rosas.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Ó meu grande cantador,
Mestre que valor encerra:
Tu ainda és uma flor
Dos jardins da nossa terra!

FERREIRINHA DAS BICAS:

Não tive quadras famosas,
Fazia simples cantigas,
Porque o campo que dá rosas
Também chega a dar ortigas.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Nem todas as plantas dão flores,
Nem todas frutos também,
Nem todas bonitas cores…
É isto que a vida tem.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Fui flor que desabrochou,
Quando a vida era bela;
Veio o tempo que a secou
Resta muito pouco dela.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Dizem pessoas amigas,
Das gentes que te são queridas,
Que restam tuas cantigas
P’ró resto das nossas vidas.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Na América e nos Açores
Cantei de boa vontade;
Conquistei admiradores
Só me resta a saudade.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Na América o pai cantou
Os teus versos superiores,
A alto nome o levou
As nove ilhas dos Açores.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Quando vou a um coreto
Já nada de mim se espera;
Estão vendo o esqueleto
Daquele pouco que eu era.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Com as belas quadras tuas,
Sempre alegre e sorridente,
Mesmo velho continuas
A agradar a nossa gente.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Junto ao teu berço cantava
E dizia doces falas,
Nesse tempo é que te embalava
Agora é que me embalas.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Creio quando me embalavas,
Como o vento as espigas,
Nessa altura me cantavas
As mais bonitas cantigas.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Meu filho para teres brilhos,
E na vida seres feliz:
É fazeres aos teus filhos
Esse pouco que eu te fiz.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Sou feliz como ninguém,
À vida formo empenho;
É feliz o filho que tem
Um pai santo como eu tenho.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Que sejas bom cantador,
Sem pensares traiçoeiros,
Que sejas respeitador
P’ró público e companheiros.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Tudo na vida se esvai,
Num minuto, num segundo,
Mas os conselhos de pai
Ficam sempre neste mundo.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Canta de forma risonha,
Muita calma e sensatez,
E nunca tenhas vergonha
De seres um bom português.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Diz minha voz magoada,
Meu rosto lavado em pranto:
Que ser bom não custa nada
E que ser mau custa tanto.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Já te disse muita vez
E que te sirva de lição:
Para seres bom português
Tens de ser um bom cristão.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Ó pai quem nunca nascesse
P’ra uma terra partida,
Talvez que nunca sofresse
Na curta estrada da vida.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Há pobre que se consome
Por imerecida pobreza;
Se vires alguém com fome
Põe mais um prato à tua mesa.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Serei sempre bom cristão,
Praticando a caridade;
Procurarei dar a mão,
A quem tem necessidade.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Meu filho repara nisto,
Não julgues que é loucura,
Ele até pode ser Cristo
Que vem à tua procura.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Ó se tal acontecesse,
Em hora, minuto ou segundo,
Não havia quem conhecesse
Mais alegria no mundo.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Para a vida nos sorrir,
Ser mais leve a nossa cruz;
Ser democrata é seguir
As pisadas de Jesus.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Se assim todos pensassem,
Mas pensassem bem a fundo,
Talvez que se acabassem
As guerras em todo o mundo.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Falam em democracia,
Que falsidade atrevida;
Há tanta hipocrisia
Em tanto peito escondida.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

E pó que se empoeira
Tantos que se sujam nela,
E a nossa ilha Terceira
Está bem repleta dela.

FERREIRINHA DAS BICAS:

É melhor ficar calado.
Adeus ó nobre assistência:
A todos muito obrigado
Por vossa benevolência!

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Agora p’ra não maçar
Com quadras sem conter brilho,
Todos devem perdoar
Ao Ferreirinha e seu filho.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Levei a vida a cantar,
Pobres versos aleijados;
E agora levo a chorar
Em perdão dos meus pecados.

LUÍS CARLOS FERREIRA:

Ouçam esta gravação,
De quadras pobres e ricas,
Que é uma recordação
Do Ferreirinha das Bicas.

FERREIRINHA DAS BICAS:

Eu fui seguindo este trilho,
A cantar com filho amigo;
Que Deus te abençoe, meu filho,
E a paz de Deus seja contigo.

Fim

A S. Sebastião

Último domingo (26) do mês de outubro de 2014. Tarde calma com visões celestiais tranquilas de anil e ouro, fruto do mar e do sol. Paisagem serena junto à Ermida da mártir Maria Vieira, na freguesia de S. Sebastião. Por entre as visões e as orações íntimas, uma porta aberta convidativa à subida de cinquenta degraus intervalados por uma espécie de "Pai-Nosso". É que a escadaria lembra-me a reza do terço, as cinquenta ave-marias e os cinco Pai-Nossos. Impelidos por uma vontade consciente subimos e entrámos na Ermida que, por incrível que nos parecesse, estava no início da eucaristia, com a palavra do pároco Domingos Faria (desconhecia-o até então).

Nada nos fez abalar sem ouvir tudo até à bênção final. Nada mesmo. Os bancos; o terço artesanal de comprimento que dava para enfeitar a entrada, as laterais e o altar da Ermida, entrelaçando algumas imagens belas de Jesus e sua Mãe; o Sacrário; as imagens cativantes; mas sobretudo, a explicação (prefiro ao invés de sermão) do pároco, sempre que via a necessidade do bom gesto que nos impedia de sequer pronunciar um gemido. O silêncio era preciso para captar com todos os sentidos a mensagem (todas) das leituras, do Evangelho, do "nós", da "salvação universal" e da paz interior.

Parecia que o céu tinha descido à Ermida. Parecia que o pecado se anulara. Parecia que Deus nos presenteava com um momento para a vida exterior à Ermida. Parecia que os anjos cantavam pela voz do pároco Domingos Faria. Parecia que a tarde caía numa escuridão santa.

E foi então que do meu íntimo surgiram versos cantantes para ofertar a S. Sebastião, porque ouvi a intenção informativa. À minha lembrança chegou a voz interior que me despertou para a proximidade do dia 28 de outubro, data que fará onze anos que a minha mãe partiu para outra dimensão. Ela deu-me este sinal que, de propósito ou não, me fez subir cinquenta degraus, e entrar numa Ermida até então desconhecida para mim. São estes sinais que provam a existência da eternidade e a partilha de sentimentos de lá para cá.

É-me impossível esconder tais versos "ouvidos", cantados e rezados para uma imagem única: S. Sebastião! Graças a uma homilia extraordinária e que me tocou profundamente, admirei e amei.

Ei-los por escrito e também em imagem:


S. SEBASTIÃO

Pode o céu tombar de anil
Junto a S. Sebastião;
Pode o ilhéu ser subtil
No retalho de mansidão;
Porque as graças serão mil
Fruto da nossa oração.

Glória a S. Sebastião
O padroeiro da Vila
Na flecha do coração
Junta o povo qual argila.
Glória à fé em união
Nos caminhos da ternura
Patrono da salvação
Que nos tira da agrura.


Vem o tempo de orar
Uma prece universal;
Vem o tempo de ficar
Numa onda fraternal
E do abraço popular
Dar-se a graça divinal.

2014/10/26

Rosa Silva (“Azoriana”)


S. Sebastião


Nota: Artigo relacionado.

A rima puxa rima...


Bom dia!


Minha mãe que estás no Céu
Pede por mim ao Senhor
À saudade comum de ilhéu
Junto a fraqueza e a dor;
Que as estrelas do teu véu
Deem brilho aonde eu for.

Rosa Silva ("Azoriana")


 


Primeira quadra do meu filho, Paulo Filipe Silva Borges, em resposta à minha sextilha:


 


Coimbra que me abraça
Dos açores fiz a partida
Deixo aqui minha graça

Desta saudade sentida.


 


2014/10/26
Domingo de outubro
Hora de inverno


Comemorações do Centenário do Nascimento do Ferreirinha das Bicas

Centenário de nascimento de Ferreirinha das Bicas


Organização:
Câmara Municipal de Angra do Heroísmo
e
Associação de Cantadores ao Desafio dos Açores


 


Meu artigo relacionado, iniciado em janeiro de 2014: Centenário do nascimento de Ferreirinha das Bicas.

Fico muito feliz por esta comemoração. Bem-haja a todos quanto nela colaboram!





Para a Rádio Portugal USA: "Voz dos Açores", de Euclides Álvares - Um cheirinho da Terceira:

2014/10/25

Sábado de comemorações
De um cantador terceirense:
Ferreirinha das emoções
Verso de lilás hortense.

É dia de Centenário
Pleno do seu Nascimento;
Abre-se, hoje, o cenário
P'ra celebrar o evento.

Cantadores do desafio
Com dita Associação
Vão dar-lhe um novo brio
À tarde e ao serão.

Viva quem deixou legado
Digno de ser advertido
Bem-haja quem está ao lado
E não o deixa esquecido.

A Terceira, meus senhores,
É devota da cantiga
Que é dom dos cantadores
E faz com que a rima siga.

Bem-haja a organização
De tão bonito festejo!
Celebremos a ocasião
Como sempre foi meu desejo.

Lembrar aqueles que partiram
É lembrar quem fez o bem
Certamente conseguiram
Ter um bom lugar também.

Minha alma se inflama
De verdadeira ternura
Viva todo aquele que ama
A nossa viva cultura.

Rosa Silva ("Azoriana")

“Começamos a morrer no dia em que nascemos...”

Nasci e não me criei
Vivi como se não vivesse
Cresci como se não fosse eu
Dei vida à vida de três
Tão diferentes e tão iguais...
No entanto colhi alegrias, choros entre marés partidas…

Deixei-me poetizar em nada
Tingi as letras do meu eu nado
Salpiquei o ser de sonhos
Irreais
Fingi a felicidade que quis
E mesmo assim quis ser feliz
Mesmo que a morte seja sempre a meta…

A escrita é que me salva
É verdade. Colho da escrita a salvação
E quanto mais enriçada, a escrita, melhor até

[Reticências]

2014/10/22

Rosa Silva (“Azoriana”)

Saudade


Carlos Drummond de Andrade


Não importa a distância que nos separa, há um céu que nos une




Leia mais: Mensagens com amor/frases de saudades


Lembranças

Cai a noite, vem o dia
E eu aqui sem noção
Do tanto que eu podia
E agora posso não.

Cai o xaile, vem a nu
Tanta palavra deserta
Num verso que sabe a cru
E deixa uma porta aberta.

E eu aqui deste lado
Numa berma da história
Que sufoca a memória.

E tu aí ensonado
No passeio de uma vida
De lembranças investida.

Rosa Silva ("Azoriana")


Âncora de Angra

A ANGEL K

Mulher, mãe, linda e artista


Do seu mundo brasileiro


Do funk que nos conquista


E o amor do mundo inteiro.


 


Alto sonho, luxo que à vista


Dá um gozo verdadeiro


Paraíso que na revista


Luz em visual pioneiro.


 


Com subtil delicadeza


Rainha de grã beleza


Ganha nossa admiração.


 


Portugal hoje te abraça


E da ilha que te acha graça


Fascínio teve à visão.


 


Rosa Silva ("Azoriana")

O livro, o convite, o lançamento e a feliz emoção

A Cecília e ao marido,
Que conheci na Terceira;
Meu abraço agradecido,
Feliz estive à sua beira.

O seu livro eu já li
É lindo dou a certeza;
Ainda bem que conheci
Filhos da ilha portuguesa.

Bem-haja a D. Cecília,
Por tudo o que tem de seu;
Bem-haja toda a família
E a quem a olha do Céu.

"Não peças contas a Deus"
É uma expressão sincera
Que na terra se venera
Por alma de entes seus.

Cecília e João, o casal,
Que muito lutaram na vida
P'ra ter forma garantida
E triunfo pessoal.

A vida é como uma barca
Que navega em alto-mar;
Sobrevive quem deixar
No mundo a boa marca.

Não sabemos a missão
Que Deus a nós destinou;
Só se sabe que findou
Quando já cá não estão.

Rosa Silva ("Azoriana")


 


Para a Rádio Portugal USA, programa «Voz dos Açores», de Euclides Álvares, na rubrica «Um cheirinho da Terceira», vinte anos depois (9/4/1994), no dia do lançamento do livro "Cecília & João Pires - Uma Leitaria em Gustine - Califórnia", da autoria de Liduíno Borba, da coleção "Figuras da Diáspora 02", com Prefácio de Monsenhor Ivo Rocha.

A minha participação, que me fez sentir muito honrada, encontra-se nas páginas 239 à 242 (em português) e 250 à 253 (em inglês), com um poema ao casal Pires, na festa do 65º aniversário de João Borges Pires; uma quadra do Pezinho e uma sextilha da Cantoria, realizada na festa junto à "Santinha do Mato", em 24 de junho de 2014.

Eis o convite que recebi e conto estar presente, hoje, no lançamento de tão lindo livro, com um total de 384 páginas, da cor do mar, do céu e da alma açoriana, um azul cristalino, com imagens lindíssimas de toda uma vida de trabalho, dedicação e amor.


Cecília & João Pires


 


Para mim, a imagem do Periquito, a do "Amor a Três...", a da "Santinha do Mato", a da página 165, a da página 283 e a da montagem de José Enes com a rosa de Robert, são as que ficam gravadas no coração e na memória...


 


Que uma roseira se plante.
Junto ao poste nasça a rosa;
Que seja a paz do semblante
De uma alma ditosa.

Seja junto ao poste velho
Onde a cruz está presente;
P'ra que seja um conselho
Que fica p'ra muita gente.


Angra do Heroísmo, 18 de outubro de 2014, sábado.

Dos Açores e de mim

Dei de mim tudo o que pude
De resto haja saúde!
Levei o dia assim
Num pensamento sem fim.

E vejam só que virtude
Mesmo com a longitude
Tudo está perto de mim
Nas flores do meu jardim.

Da roseira nascem rosas
E das letras a memória
Que retrata minha história.

Só as letras mais vistosas
Florescem na alegria:
Por amor o bem se cria!

9/10/2014
Rosa Silva ("Azoriana ")

No dia de aniversário, na entrada na maioridade, de Paulo Filipe Silva Borges. Parabéns, filho! Beijos

Postar por email

Dou por mim a experimentar
O que há muito havia:
Por email a escriturar
Versos ao sabor do dia.

Não sei se vai resultar
O poste sem avaria;
Importa é ver navegar
O que nos dá alegria.

Quando a alegria é pouca
Mesmo com a novidade
A escrita cala a boca.

Mas não vou calar a minha
Tenha ou não dificuldade…
O SAPO nos acarinha.


SAPOBlogs



Rosa Silva (Azoriana)

O SAPO mudou


Engraçada a mudança
Toda airosa e perfeita
Deu um salto de pujança
Sem achar a porta estreita.

Parece maior em tudo
Uma limpeza de tralha
Tem um ícone sortudo
Do verde que bem lhe calha.

E eu que fazer ao meu
Blogue que tem a dezena
Dos posts que Deus me deu
Com algum tempo de antena?!

Quero lavar o meu rosto
Dar-lhe um novo visual
Quando o Pedro tiver o gosto
De me dar algum sinal.

Entre cliques e mais cliques
Há ainda alguns detalhes
Ó SAPO se tiveres "chiliques"
Nos Destaques tu não falhes.

Da experiência que já tens
Nesta hora é tudo ou nada
Desde já os PARABÉNS
Pela mudança mostrada.

Rosa Silva ("Azoriana")