"O dia de apanhar o milho", por António "Mintoco"

O DIA DE APANHAR O MILHO 



Para falar de coisas antigas
Não há por onde começar
Mas tirando as silvas e ortigas
Eu sei que não me hei de picar.


 


Eu vou falar só de uma coisa
E do assunto não me desviar
Minha mão no teclado poisa
Já posso a história começar.


 


Naquele tempo que já lá vai
No dia de apanhar o milho
Cedo se levantava a mãe o pai
E iam acordar também o filho.


 


Se tinham mais do que um
Isto é que era uma beleza
Não pagavam a nenhum,
Não faziam muita despesa.


 


Se outros tivessem de contratar
O que muitas vezes acontecia
O jantar tinha que lhes dar
Além de lhes pagar o dia.


 


Mas lá iam todos contentes
De manhã pela fresquinha
Mas por dentro estavam quentes,
Tinham bebido uma pinguinha.


 


Pode talvez não ter muita graça
E não vou fazer nenhuma troça
Mas parece que um copo de cachaça
Lhes dava a eles muito mais força.


 


Começando todos a trabalhar
Antes pudesse nascer o sol,
Todos iam milho apanhar
Até encher o primeiro lençol.


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Às vezes se faziam apostas
De maneira bem sentimental
Para pôr o lençol às costas
Sem a ajuda do pessoal.


 


Certamente só se fazia isso
Quando tinha lá raparigas;
Alguém até já me disse
Que chegava a haver brigas.


 


Certos terrenos faziam combro
Com alguma estrada principal;
O milho era carretado ao ombro
Para que ficasse perto do portal.


 


Podia vir um carro de bois
Ou até mesmo um camião
Carregava-se eles os dois
E era tudo carregado a mão.


 


Trazia-se o milho para casa
Se punha num cafugão;
À noite se acendia a brasa
Para torrar favas para o serão.


 


Vinha então a vizinhança
Vinha o pai e vinha o filho
Vinha o velho e a criança
Todos para o serão do milho.


 


Não havia rádio nem televisão
Não se pensava em tais glórias,
Mas passava-se um lindo serão
Cantando e ouvindo histórias.


 


Vai ser melhor parar por aqui
Isto é uma história muito grande
Agora vou dar a vez também a ti
Espero que isto para a frente ande
Mas estas coisas eu não esqueci
Nem esqueço mesmo que me mande.
 

 


António "Mintoco"


1 comentário:

  1. Eu hoje por aqui passei
    Ao tempo que não passava
    Dizer a verdade eu nao sei
    Mas a consciência me acusava
    Porque uma silva aqui deixei
    Que precisava de ser cuidada

    Nao é uma silva qualquer
    É uma silva que da rosas
    Que quando se torna em mulher
    É uma das mais formosas
    Que quem suas rosas colher 
    Leva picadelas dolorosas

    Mas eu sou um bom jardineiro
    Com ela eu tenho cuidado
    Levei picadelas a primeiro
    Mas agora estou acostumado
    Pois tenho uma no meu canteiro
    Com quem muito eu tenho praticado

    Mas esta silva que da rosas
    Coisa que é imaginavel
    Seus espinhos sao suas prosas
    Que não ha nada igualavel
    Sao como setas poderosas
    Que me deixam muito instavel

    Saudades dela eu tenho
    Por isso entrei no seu espaco
    Fazer guerra eu não venho
    Pois é coisa que não engraco
    Mas com prazer hoje me empenho
    Dando-lhe com prazer um grande abraco

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