O dia de apanhar o trevo - Rosa Silva ("Azoriana")

O DIA DE APANHAR O TREVO (Em resposta ao Mintoco) 



Arrisco aqui vos contar
Tal como o amigo Mintoco
Como era o apanhar
Do trevo que nem era pouco.


 


Nos meus tempos de menina
Quando o sol se alevantava
Mesmo que fosse em surdina
Pela Rosa já se chamava.


 


Na casa não havia rapazes
Apenas duas irmãs
Uma avó, mãe e pai audazes
Em tais esbeltas manhãs.


 


Por mim não gostava nada
Do assento que engendravam
Saca de lona atulhada
De folhas de milho que secavam.


 


Ia-se, então, muito cedo,
Para aquela imensidão
De trevo que metia medo
Todo apanhado à mão.


 


Mesmo com a mão dorida
Tínhamos de tudo apanhar
Para logo de seguida
O deitarem a secar.


 


Eram tantas as bolotas
Tanta puxa daqui e dali
Que até se tiveram as botas
Esfalfados de estar ali.


 


Nesta azáfama medonha
Iam Maria e a Alexandrina,
Que diziam que a cegonha
Tinha trazido esta menina.


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Elas riam e brincavam,
Comigo à força toda
Quanto mais trevo apanhavam
Mais alegre era a boda.


 


Eu chamava-as das “titias”
Eram primas colaterais
Visitava-as todos os dias
Através dos nossos quintais.


 


Este tempo de criança
Ficou na minha memória;
Hoje perco a esperança
De voltar a esta glória.


 


As bolotas daquele trevo
Apanhadas uma-a-uma
Estão gravadas no que escrevo,
Nas entrelinhas, em suma.


 


Do trevo não tenho saudades
Nem tão pouco de acordar cedo
Das titias e suas amizades
Saudades é de meter medo!


 


Com elas aprendi tanto,
A passar ponto em lençóis
E muito do seu encanto
Só o percebi depois.


 


Mintoco fico obrigada,
Por me fazeres recordar
O tempo quando fui nada
Com tarefa salutar.


 


Agora na despedida
Destes versos em resposta
Deus te dê saúde e vida
Como toda a gente gosta;
No meu blog tens guarida
Sempre com tua arte exposta.
 

 


Rosa Silva ("Azoriana")


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