Ando tão devagar ao compasso da vida
Piso um golpe de água em conversa perdida
Vejo o monte cerrado à vista de menina
Nascida ao parapeito de bruma neblina.
Sinto a pele viva à tona do mar
Mesmo que me doa não saber nadar
Vejo o monte aberto com cara de cão
E falta-me tudo na palma da mão.
Acho o corpo verde vestido de sol
Finjo que adormeço na tez do lençol
E vem-me à lembrança teu sorriso brando.
E sonho contigo com laços de chumbo
Na mente um deserto em que hoje sucumbo
Só a rima me salva até não sei quando.
Rosa Silva ("Azoriana")
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Laços
O lar (à descoberta do "eu")
Onde encontro o que não quero
Em qualquer outro lugar
Onde o repouso sincero
É presente sem rogar.
É a paz que eu venero
"A valsa onda do lar"
E quanto mais dela quero
Mais ela teima em se dar.
Teima a vida ventania
Teima uma onda selvagem
Que impede uma viragem.
E, com Deus, eu só teria
O consolo de uma paz
Que a vida não me faz.
Rosa Silva ("Azoriana")
Ser mãe (II)
Ser mãe é a maravilha
Ser mãe é mesmo tão lindo
Dar o beijo de bem-vindo
No rostinho que nos brilha.
E ser mãe de uma filha
É reflexo do carinho
O amor de nosso ninho
Que se fixa numa ilha.
Ser mãe foi o grande sonho
Que em trio realizei
E jamais esquecerei.
Ser mãe é onde (re)ponho
A letra do melhor fado
Com meus três filhos ao lado.
Rosa Silva ("Azoriana")
O Bravo da Casa
Eis que o Bravo se apresenta
No topo da pastorícia
E quem com ele vai e tenta
Deve ter bem certa a perícia.
No prado é mestre de porte
Para quem o vê da estrada
E talvez tenha muita sorte
Se nunca provar a cornada.
Louvar-te que eu sempre possa
Porque Bravo já és dos grandes
Desta Casa que é bem nossa
De José Albino Fernandes!
Viva, viva a Festa Brava
Da ilha Terceira Açores
Que por tradição não se trava
E tem grandes admiradores.
Viva! Viva quem a estuda
E a segue com alegria
Da Terceira jamais se muda
O Bravo da Ganadaria!
Bem sei que não é que escolheste
Ter do Povo toda a ternura
Bravo touro tu já nasceste
Com o laço da sã bravura!
Rosa Silva ("Azoriana")
nascimento
Nasci no alto da serra
Tecida com pé-de-flor
É entre o mar e a terra
Que o meu verso ganha cor.
Corre em mim a teoria
De tudo o que vi primeiro
Seja de noite ou de dia
O verso é meu companheiro.
Rosa Silva ("Azoriana")
À Vila de São Mateus da Terceira
Marinheira de Deus perto,
Glória da sua gente,
São Mateus a céu aberto
É a Vila diligente.
E é Vila abençoada
Mais do que a gente pensa
Com seu porto em arcada
Numa calheta imensa.
E as Torres que encimam
O seu vale piscatório
Apregoam e estimam,
O sucesso meritório.
Muito além do que se diga
Há de cair sempre em graça
No refrão de uma cantiga
E na voz que bem lhe faça.
Rosa Silva ("Azoriana")
Nota: inspirada na linda foto de capa do sítio da Junta de Freguesia (Vila de São Mateus da Calheta)
Com tua voz
Ai, quem me dera ouvir
Tu a leres o que escrevo
Tinha alegria a seguir
E nem por isso te devo.
E cantar? Com a tua voz
De jovem ou mais madura
Cada verso sai veloz
Neste jardim de cultura.
A cultura ideal
É o ramo do ilhéu
Com a raiz regional
Entre terra, mar e céu.
A raiz do ser humano
Está no sangue da pessoa
No caso açoriano
Muito mais se apregoa.
Rosa Silva ("Azoriana")