30 de novembro

As torres da Ribeirinha
À esquerda eu as vejo,
À direita, sem ter pejo,
Entre verdes se caminha.

Remédios (sem caixinha)
No Solar de bom ensejo,
A Saúde tem azulejo
E gente que acarinha.

Enfeitada pela luz
Do valor que o sol conduz
Há pombas esvoaçando...

E dois meses faz a neta
Que com este sol completa
Tudo o que eu vou olhando.

Rosa Silva ("Azoriana")

O Presépio de Ze Freitas

Um trabalho glorioso
Que se vê com muito agrado
És um homem engenhoso
Ó meu querido cunhado.

Um trabalho de semanas
E bem cedo o começas
Só faltaram tuas manas
Para te ajudar nas peças.

Mesmo assim tu te confortas
Olhando o que foi feito
Já podes abrir as portas
Porque está tudo perfeito.

E agora com carinho
Um beijinho cordial
Para a Julia Godinho
P'ra todos Feliz Natal.

Rosa Silva ("Azoriana")

Ilusão

Iludo-me. Iludimo-nos.

Tropeço. Tropeçamos.

É como um navio
[Proa e popa]
Nas ondas e marés salgadas
Misturo-lhe o mel
Do sonho (mais leve).

Adoro (não se adore mais que a Deus) as estatuetas [risonhas], que me transmitem paz. Está na altura delas [das risonhas] para iluminar o sorriso das crianças. Não se tire o sonho das crianças, mas que não seja com ilusões e fantasias tontas.

Ilusão é a verdade vestida de mentira.

Não me iludo por vontade. Sigo os rumores entrançados na mente.

Ilusão só cura a tristeza,
A pobreza,
A velhice
Mas só por instantes.


Rosa Silva ("Azoriana")

O que importa?!

Importa mais ser e estar
De bem com qualquer pessoa
Que não seja cousa à toa
Mas também não abusar.

Importa muito limpar
O que tanto se apregoa
E nem sempre é coisa boa
'Tar na limpeza a pensar.

Noutro tempo limpei tanto
Tudo a brilhar só d'espanto
Para quem via e passava...

Hoje lembro e entristeço
Daquilo que dava apreço
E aos poucos me matava...

Rosa Silva ("Azoriana")

Fado a São Martinho

Venha daí São Martinho
Porque frio não apanhas
No copo está o vinho
Ao lume estão as castanhas
Martinho não está sozinho
Tem o povo às montanhas.

E vai um fadinho
Todo animado
Viva São Martinho
De vinho regado
Só mais um copinho
Sem cair p'ró lado.


Martinho foi tão bondoso
Por dar ao pobre agasalho
O sol ficou radioso
Aqueceu o seu atalho
Por isso ficou famoso
O dia desse retalho.

E vai um fadinho
Todo animado
Viva São Martinho
De vinho regado
Só mais um copinho
Sem cair p'ró lado.


Vinho e castanhas serão
A festa do povo quente
Uma nesga de Verão
Vai aquecer toda a gente
Martinho oxalá que não
Te rias deste ambiente.

E vai um fadinho
Todo animado
Viva São Martinho
De vinho regado
Só mais um copinho
Sem cair p'ró lado.


Rosa Silva ("Azoriana")

Flor menina

Minha flor tão menina
Minha graça pureza
Minha fã cristalina
Minha flor em beleza.

Minha voz em surdina
Minha cor natureza
Minha letra que ensina
Minha maior certeza.

Vem visitar a mãe
Que também já o foi
E avó agora é.

Vem porque és também
A dor que já não dói
Com tua filha ao pé.
Rosa Silva ("Azoriana")

Para ti, para mim...

Um pedaço de vida
Um carinho de papel
Um onda esquecida
Um poema de batel.

Um voz aquecida
Um cozido farnel
Um momento de lida
Um dedo de anel.

Um rosário de rosas
Um fio de carinhosas
Um Rojas tocando...

Um jarro de sebes
Um copo que bebes
Um amor regando...

Rosa Silva ("Azoriana")

Queria

Queria o tempo de voar,
Ir nas linhas da emoção,
Ir convosco a debruar
Abraços de uma canção.

Queria tanto assentar
O tempo da inspiração,
Sem ou ter de me acertar
Na valsa da solidão.

Há tempo do quanto baste
Em tempo que não me afaste
Da vossa linda amizade.

Há tempo p'ra luar e dia
E p'ró canto da alegria
Da vossa comunidade.

Rosa Silva ("Azoriana")

Pescadores

Pescadores vão ao mar
Seja de noite ou de dia
Com esp'rança de voltar
Ao seu porto de alegria.

Trabalham sem descansar
P'ra ter boa pescaria
Até sabem disfarçar
O choro que a água cria.

São Mateus cuide bem deles
P'ra que voltem sãos e salvos
Com o peixe para a mesa.

E cuide também daqueles
Que no mar foram os alvos
Da vaga e da incerteza.

Rosa Silva ("Azoriana")

Noite linda (dedicatória a João Mendonça - Lançamento do seu livro "Sonetos de lava e incenso - e outros delírios")

Consola ouvir cantar
Cantadores de eleição
"Outono Vivo" a fechar
Com a justa perfeição.

Adeus com mais ternura
Até outra ocasião
Parabéns à nossa cultura
E parabéns ao João.

Mendonça de apelido,
Mais velho um ano que eu,
Da Agualva conhecido,
Abraça o Porto Judeu.

Tenho seu livro nas mãos
Unidas como em prece
Quem dera sermos irmãos
Na rima que nos aquece.

Há amor pela Terceira
Há amor pela escrita
Quando a rima é inteira
Fica sendo a favorita.

Rosa Silva ("Azoriana")

Chove a cântaros

É tanta e até demais
Inteira por cada greta
No caminho e na valeta
E por todos estes quintais.

É tanta nos Folhadais...
E lembro minha Serreta,
Só alva na tabuleta,
Quando outrora via mais.

Minha musa também é chuva
Encaixa como uma luva
Na onda do meu refrão.

E cantam no exterior
Os cântaros da incolor
Chuv'ilha da Região.

14/11/2021

Rosa Silva ("Azoriana")

Nota: Dia da Diabetes.

Dedicatória à menina Júlia (filha de amigos sancarlenses)

Júlia

Bela menina
Com oito anos
Tenha oceanos
De luz divina.

Júlia é fina,
Fina de planos,
De açorianos
De boa sina.

Dou parabéns
Pelos que tens
E mais virão...

És a rainha
Na ode minha
De coração.

Rosa Silva ("Azoriana")

Alegria

Minha neta está sorrindo
Do colo da sua avó
Para a mãe que tira só
Ao fruto que nos é lindo.

Do ventre que é bem-vindo
Um refrão sem ter o Dó
Faz cantar o "ló-ló-ló"
Para a boneca saindo.

Aida Alexandra a mãe,
Que é a filha também,
Mui feliz com o rebento.

Matilde Alexandra é
A neta da minha fé
Na bisa que dá talento.

11/11/2011

Rosa Silva ("Azoriana")

Pão de marés

E o pão disse à fatia:
- Porque te deitas assim?
És a glória e empatia
Tu és tudo o que há em mim.

És o pão do mar aberto
És fatia do meu sal
E de mim estás tão perto
Sem o fogo abissal.

Goza a aurora matinal,
E goza o canto marinho;
Estás comigo, afinal,
Rente às ondas do caminho.

Ó ilhéus de realeza,
Vistosos de tal maneira:
Sóis nossos por natureza,
Ilhéus leais da Terceira!

Rosa Silva ("Azoriana")

Encontrei o CD de "José da Lata"

Nas voltas que o mundo dá
Há de sempre haver um cravo
Um pastor de gado bravo
Sendo natural de cá.

Cantou por cá e por lá
Sua lata não deu travo.
O seu verbo nem eu lavo
Nem o bom que dele há.

"Zé da Lata", olhar manso,
De gabá-lo não me canso,
Mesmo sem ter conhecido...

Reconheci no "CêDê"
No panfleto que se lê
Meu "Queimado" ♡ preferido.

Rosa Silva ("Azoriana")


Nota: ♡ In "Referências Bibliográficas", cujo fundo é uma foto da Ponta do Queimado, da freguesia da Serreta, da ilha Terceira, Açores. José Martins Pereira ("josé da lata") nasceu a 6/1/1898, na freguesia das Cinco Ribeiras e "deixou silenciosamente este mundo" na madrugada de 10/2/1965, no Hospital de Angra do Heroísmo, com 67 anos de idade. Casou com 26 anos e ficou a residir na freguesia da Terra Chã. Fixa-se numa casa no Caminho de Belém, em frente da Canada dos Folhadais, onde, desde 1987, se encontra um azulejo comemorativo a "José da Lata". É precisamente no topo da Canada onde resido agora, mas na parte que pertence à freguesia de São Pedro. Nem 1 ano eu tinha quando quando ele nasceu e, encontrei o CD aos 57 anos de idade... ele nasceu no mês do meu afilhado e partiu no mês do nascimento da minha avó materna. Não é uma questão de comparação. Simplesmente uma espécie de vínculo de memória. Nem que seja um bom pretexto para Memórias D' Agua da boa amiga Filomena Rocha Mendes, cuja voz de Rádio é ponto de celebridade.


♡♡♡

Há tanta gente açoriana
Com cardápio de valor
Que sua voz não engana
Seja lá aonde for.

A minha pobre não faz
O que minha escrita quer
Só o verso satisfaz
O prazer desta mulher.

Minha vida não reluz
Nem para isso foi feita
Nascer na ilha de Jesus
Já me dou por satisfeita.

Se a cantar eu não afino
Fica para outro alguém
Meus versos são meu destino
Doados por minha mãe.

Eu canto mesmo a escrever
Podem ter essa certeza
Muitos são a enaltecer
Linda terra portuguesa.

Povo nosso emigrante
Que lutas no dia-a-dia
Jamais te sintas distante
Tens a mim por companhia.

Rosa Silva ("Azoriana")

O homem quis dividir

O homem quis dividir
A ilha em quadradinhos
Para melhor se unir
Na partilha dos caminhos.

A Terceira, a ilha Brava
E mansa no seu viver
Ai tantas vezes se cava
O quadrado para morrer.

É linda nossa verdura
Desenho de divisões
Uma verdura que cura
De verdes as ilusões.

Ilha que gosto e nasci
Bem perto de uma serra
Pequena mas quando a vi
Soube que era minha Terra.

5/11/2021

Rosa Silva ("Azoriana")

Nota: Inspirada na publicação de Rosa Fortuna