Baú de recordações
Não sou dada a guardar tudo o que o tempo foi deixando de material. Não tenho arcas de madeira com recantos floreados pela habilidade de artesãos experientes, não tenho baús de antepassados onde se guardavam as roupas de cama (mantas, colchas, cobrejões, lençóis bordados, toalhas de linho, roupa íntima e outra de sair às festas e procissões, nem aqueles bordados sob iluminação artificial, sem eletricidade ainda, nem almofadas feitas com a mesma afinação arrendada, nem, tão pouco, tenho o sótão de casa com qualquer divisória de arrumação predileta. Tudo o que possuo se resume a um punhado de recordações (na mente que já guarda pouco) dispersas pelas paredes e nalgumas divisões da casa, ora nalguma gaveta ou prateleira de material de “desenrasca-te se puderes” e sujeitas a tombar com a ameaça saltitante de um gato esperto e/ou outro atrevidote.
Valor sentimental
Não penso que o conteúdo do parágrafo anterior tenha menos valor sentimental que o de tantas pessoas que tiveram e têm “berço de ouro” e “cama qual moldura perfeita” que nem apetece desmanchar para dormir mas simplesmente ficar a admirar a preciosidade.
No fundo, gosto muito das minhas pacatas coisinhas porque em cada uma está o retrato de uma vida, uma dor, uma lágrima, um sorriso, um coração, um esforço laboral, um retalho, sobretudo, uma oração íntima de cada vez que as olho ou toco, como que vendo o meu mundo in [finito] …
Arca da maternidade
De repente, dou por mim numa pausa a pensar: Tenho três filhos (e uma enteada). Queira Deus que sempre os veja, lhes fale, os ouça, até ao finito dos meus dias. Não há arca, nem baú melhor que a arca da maternidade. Ser mãe foi a minha primeira vontade após unir os laços de um matrimónio finito. Não guardei as suas vestes de infância, nem os cadernos das sucessivas passagens de ano, nem aquelas lembranças em dias comemorativos… Guardei na alma e no coração a alegria de ser mãe dos meus «ricos» filhos que, agradeço a Deus, até hoje não me deram motivos para outras arrumações (leia-se preocupações).
Angra do Heroísmo, 20-01-2014,
Rosa Silva (“Azoriana”)
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