Quase no fim (das Sanjoaninas)

Tenho a rima enferrujada
De tanta hora na rua;
A Festa quase acabada
Com fogo à luz da lua.

Mesmo que queira não posso
Dizer tudo o que vi
A grandeza do que é nosso
Também foi visto por aí.

Nossa RTP Açores
Bem como o canal 1
Levaram as nossas cores
Ao vosso olhar e mais algum.

Gente que veio de fora
Em completa animação;
Quando se forem embora
Levam boa recordação
S. Pedro veio agora
Juntar-se a S. João.

Rosa Silva ("Azoriana")

Santo Amaro da minha saudade


 


Se não fosse a travessia
Que me separa do Pico
Eu juro que até ia
A esse lar magnífico.

Peço ao querido Santo Amaro
Com mel e sem vinagre
Que a Deus faça o reparo
De me fazer um milagre.

Uma casinha pequena
Que me agasalhe à noite
Pode ser pobre e serena
Porque sou mulher afoite.

Só Deus sabe a saudade
Que corre no coração
O amor e a amizade
Por esse lindo torrão.

Já não tenho a tia Amélia,
Maria, Odete e tia Helena
Só me resta uma camélia
Com uma sentida pena.

Já não tenho os meus avós,
Ti Amaro que queria tanto bem
E hoje no meio de vós
Penso tanto nos de além.

Quando eu era pequenina
Ia muito a Santo Amaro
Hoje a idade me ensina
Que foi um tempo lindo e raro.

Criou laços às raízes
De uma forma infinita
Hoje choram cicatrizes
Duma saudade tão bonita.

Ó meu Deus se estás a ver
Aquilo que hoje escrevo
Faz tudo para eu resolver
Ir ao altar que tanto devo.

Rezar com fé à capela
Que fica virada à Terra Alta
E depois de sair dela
Ir à maré que me faz falta.

Ver as estrelinhas brilhando
Na ilha em frente de Velas
Ouvir cagarros cantando
Umas serenatas belas.

Tomar o gosto ao mar,
Abraçar o sol tão quente,
E a todos cumprimentar
Em especial minha gente.

Quem sabe talvez cantar
Numa adega lá no Canto
Um serão para animar
O lugar de que gosto tanto.

Santo Amaro tão picoense
Marinheiro de cantigas,
Aceita esta terceirense
Que te dá rimas amigas.

Rosa Silva ("Azoriana")


 


Santo Amaro do Pico

(Clique na imagem para ver o album)


Thank you very much my dear friend Kathie Baker!

Angra, luar diferente


 (Foto de Graça Câmara)


 


Angra é uma praça divina
Coroada de bandeiras
À festa Sanjoanina
Vieram terras estrangeiras.

Cada rua engalanada
Com o tema principal
Rua da Sé a esplanada
De cortesia original.

Se S. João adivinhasse
O que vai nos corações
Talvez hoje atirasse
Mais alto os seus balões.

Pelo céu da nossa ilha
Hoje há luar diferente
Porque é noite da partilha
Dos cantares da nossa gente.

Rosa Silva ("Azoriana")




Angra do Heroísmo, 23 junho 2013

Angra, jardim de poema e prosa




Bela Angra do Heroísmo
Que abraça os emigrantes
Foi derrubada por um sismo
Mas está melhor que antes.

Cresceu, deu largas à verdura
E ao branco do casario;
É património, tem cultura
E amor pelo desafio.

Angra é cidade querida,
Trajada de cortesia
Num colorido de vida...

Angra fresca harmoniosa,
Um verso de alegria,
Jardim de poema e prosa.

Rosa Silva ("Azoriana")


 


Angra do Heroísmo, 23 de junho de 2013.

O S. João de Angra (do Heroísmo)




O coração já nos sangra
De amor e alegria
O São João de Angra
É folguedo noite e dia.

Angra é luz, cor e folia
Ao colo do manjerico
O balão voa e recria
O festival que é tão rico.

Vasco Pernes, Dulce Teixeira,
Uma dupla de encanto
Vão levar nossa Terceira
Ao mundo e a cada canto.

Terceira ilha lilás
De Marchas ao S. João
Ó que lindo é o cartaz
Que incendeia o coração.

Rosa Silva "Azoriana")

Não vos dei nada de novo

Não vos dei nada de novo
Numa manta de escritos
Para mim que sou do povo
Os versos são os favoritos.


 


Não vos dei nada às claras
Tudo se tinge em linhas
Tecidas em horas raras,
Mortas e às vezes sozinhas.


 


Não vos deixo quando quero,
Nem por querer vos vou deixar;
Se algo de vós ainda espero
Será como espero do mar.


 


O mar, a terra e a lua
O sol e até mesmo o vento
Saíram comigo à rua
Nas linhas de Miravento.


 


Se partir vou com saudade
Daquilo que não criei
Para dizer com verdade
Foi tão pouco que já nem sei.


 


Se gostas do que eu faço
Guarda com muito amor
Preza o que no teu regaço
Te faz lembrar uma flor.


 


Cada página de vida
Construída passo-a-passo
É como manter erguida
A voz que em letras faço.


 


Meu amor foi tudo o que
Vires com o meu assento
Não haverá “mas” nem “se”,
Na mãe que sopra o talento.


 


Rosa Silva (“Azoriana”)


 


P.S. Meu filho mais novo disse: "Ahn, até tá fixe!"

Porque o mundo é de Pessoa, comemoremos Fernando Pessoa


 


 

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Sanjoaninas 2013


 

Até já! Vemo-nos na festa, se Deus quiser e o S. João.

 

Angra bela e festeira!
(num "Mar de emoções")


Vamos festejar o querido S. João
Em mar de alegria acostumada
Seja feliz o retorno do nosso irmão
Que abraça sua Angra engalanada.

Vamos festejar ares de fascinação
Juntando emoção à ilha que, em alta voz,
Canta de alegria em tons do coração
Por quem volta à ilha dos egrégios avós.

Em cada rua vistosa luminária
Do fogo que brota brilho noite e dia
Cidade terra brava imaginária.

Nos trilhos da amizade forasteira
S. João já se adorna de simpatia
Por quem visita Angra bela e festeira!

Rosa Silva ("Azoriana")

"Quem cala consente" e "quem não aparece esquece" (ao estilo azorianino)

Dois ditos populares conhecidos que me bailam, hoje, na mente: Se não arcarmos palavra perante um cenário que nos desagrada é o mesmo que o apoiar e quem se fecha a sete chaves no mundo da oral ou da escrita também fica igualmente no farnel do esquecimento.

Mas porquê estas duas setas incómodas a martelar-me a mente?

Assim de caras não sei responder. Talvez se avaliar o cenário pávido e sereno que grassa na escrita do meu blogue, no seu nonagésimo ano de existência, mais ou menos assídua de escritos e com a predominante quadra ao estilo azorianino. Se o dicionário não reconhecer este termo que criei, façam favor de o adicionar porque bem o merece. Se quem cala consente é o primeiro adágio, então que se calem e aceitem um termo que pode bem ser adotado pela linguística açoriana. Se para Manuel é Manuelino, para Nemésio é Nemesiano, para Natália seria Natalino (?!)… então para Azoriana proponho Azorianino. Gosto deste eco fino. Nada como o cântico natural das palavras que brotam do instantâneo diário.

Portanto está encontrada a resposta ao corte da primeira seta imponente.

Penso que já vem a caminho a resposta para a segunda. O meu blogue, nos últimos dias tem estado à mercê da falha de conteúdo que se preze. É um não-sei-quê de marasmo inabitual. É um curto pensamento a tingir as linhas de escrita automatizada por um teclado sonante a compasso certo. Talvez porque os temas não abundem ou porque haja um descanso intemporal da mente criativa.

Se quem não aparece esquece, há que dar corda ao teclado para que se façam notar algumas letras adequadas à quadra festiva que vamos atravessar: o S. João de Angra do Heroísmo (e de outras localizações também sobejamente importantes).


 


Sanjoaninas 2013

Angra do Heroísmo, 19 de junho de 2013 (nas vésperas da maior festa Angro-terceirense - Sanjoaninas 2013). Leia-se mais sobre a festa in Açoriano Oriental.

O rosto alegre vs triste

Por este rosto da Senhora
Quem não se sente cativado
A vir cá na mesma hora
Que se soleniza o sagrado?!

Por este rosto da Senhora
Quem é capaz de a negar
E de não vir sequer uma hora
De joelhos para lhe orar?!

Por este rosto simbologia
Da riqueza de ter fé
Quer esteja longe ou ao pé...

Por este rosto de alegria
Que também o vejo triste
Quem de o visitar resiste?!

Rosa Silva ("Azoriana")

Retrospetiva: A Serreta vista por Vasco Pernes, da Antena 1 Açores

Na rádio pública dos Açores, Antena 1, aos domingos, Vasco Pernes mete-se com “Gente Franca” e dá-nos retalhos de boas conversas com convidados especiais.

A 11 de setembro de 2011, fui encontrar a Serreta, sua fé e devoção no centro de toda a emissão. Tentei captar, por escrito, o que Vasco Pernes deliciosamente nos deu oralmente, de gente que sente e fala a nossa língua:

«Falamos agora das Festas da Serreta

Das peregrinações ao Santuário de Nossa Senhora dos Milagres mas também da festa profana que por estes dias faz com que todos os caminhos da ilha Terceira sigam para a Serreta. Seja qual for a hora do dia ou da madrugada é impressionante assistir aos milhares de pessoas que formam um quase ininterrupto cordão de gente que chega a pé à Serreta. Quilómetros que se fazem sozinho ou em grupo, ou com amigos ou com a família, por devoção, por tradição ou, simplesmente porque se sente a necessidade de ir à Serreta.

Muita gente nova, talvez mais jovens do que gente de mais idade; e pelo caminho estão as tascas, muitas tascas para ajudar a aliviar o corpo e transformar a romaria numa festa. E quando os pés já não aguentam há sempre por perto os postos da Cruz Vermelha Portuguesa dos Açores. Os motivos que levam os peregrinos à Serreta podem ser tantos e tão diferentes. (…) [pausa para uma entrevista a uma peregrina, Dina Pereira, que fazia 25 anos de ir à Serreta a pé]. “Eu tenho que vir, a promessa tem que ser paga”.

Testemunhos como este, podíamos encontrá-los aos milhares, cada um com o seu motivo, cada um à sua maneira, seja por devoção, seja para participar apenas na Festa. E a Festa faz-se também fora do Santuário. O Maurício Toledo faz parte da Comissão. Bom, foi quase obrigado porque é casado com a Mordoma das Festas deste ano. Mas falámos com ele ali ao pé do Império sobre a Festa que vai para além da fé em Nossa Senhora dos Milagres.

(…) [pausa para a entrevista a Maurício Toledo, esposo da Marlene Ormonde]. “A gente tenta manter sempre a tradição. A gente o que pode alterar aí é o programa das vinte e duas horas durante todos os dias…” “Basicamente, a tradição é sempre seguida”. “Esta freguesia é uma freguesia muito pequena, como sabe. Receber a multidão da ilha Terceira toda aqui é um motivo de muito orgulho para a gente. A gente fica mesmo muito contente de receber as pessoas todas, vê-se essas ruas cheias. Não é fácil ver essas ruas cheias, que elas estão quase sempre é vazias. E nesses dias é magnífico ver isso da maneira que está.” “Esse ano a gente fez uma aposta muito forte no Fado”… “A nossa tourada lá no Pico, não é derivado aos toiros que ela é conhecida mas devido àquele conjunto de massa humana que se junta lá.”… “Temos que trabalhar em conjunto com o Padre da freguesia. Ele tem que estar sempre a par daquilo que a gente faz, derivado ao respeito que ele tem na freguesia e também devido ao apoio que ele nos dá para a outra parte, conseguimos conciliar as duas situações” …“O fogo é uma das partes mais importantes que a gente tem. Dizem quando a Santa fica virada para a Igreja que o resto da Festa está garantido. Vamos a ver…”

As emoções de cada um dos milhares de peregrinos que por estes dias estão espelhadas na vontade de agradecer à Senhora dos Milagres. Uma promessa que se paga ou simplesmente uma tradição que se cumpre. Nas Festas de Nossa Senhora dos Milagres ir à Serreta faz-se num misto de fé, de peregrinação ou de festa e convívio, onde não importam os quilómetros que se façam ou a forma como se fazem. Importa que se vá, seja qual for o motivo.

E ali mesmo, atrás do Santuário há um cheiro a velas a queimar. Os devotos, em silêncio, acendem uma vela, ou mais do que uma. O espaço é pequeno para milhares de velas e por isso, ali está o Sr. José Romeiro, que é Romeiro de nome porque não tem tempo para romarias. É ali duma freguesia perto mas gosta de ajudar a organização sempre que pode e este ano calhou-lhe tomar conta do espaço das velas. O amigo José Romeiro diz que não tem tempo para romarias mas lá estava ele…

(…) [entrevista] “Há muita gente que não tem noção do que se passa”

E não tendo noção vão com certeza percebendo que as coisas acontecem nesta e noutras festas graças à boa vontade de muita gente. A Serreta recebe os peregrinos ao mesmo tempo que se prepara para os dias da sua padroeira, mesmo que sejam da terra ou dali perto, como é o caso do Luís Nogueira que nos fala da sua devoção.

(…) [entrevista] “Todos os anos que possa vou cumpri-la” - a promessa. “Gosto da Senhora dos Milagres… Gosto muito dela”; “uma festa destas chama muita gente”; “há muita fé na Nossa Senhora dos Milagres”.

E lá estava a Filarmónica da Serreta a atuar no seu melhor até com convidados especiais, porque esta Filarmónica acabou também por se especializar um pouco mais na festa taurina, na festa dos toiros, estiveram até há bem pouco tempo na famosa corrida no Campo Pequeno representando a música dos Açores e essa parceria com a Banda de Alcochete trouxe ontem, por exemplo, um dos principais trompetistas daquela Banda, José Manuel Raminhos, foi convidado para estar presente e escreveu até alguns passo-dobles a propósito para a Banda da Serreta que foram apresentados pela primeira vez nas festas deste ano.

E o Santuário, o Santuário ali está e vai ganhando cada vez mais vida. Serve de porto de abrigo a quem chega e, lá dentro, depois de ter sido porto de chegada é também um momento obrigatório para alguns minutos de reflexão.

Há uma Comissão que na Serreta está encarregue da parte religiosa da Festa. O Ricardo Meneses é um dos elementos desta Comissão da Igreja.

(…) [entrevista]. “Todos os caminhos vem dar à Serreta”… “É uma freguesia pequena, e nessa altura, toda a gente se lembra da Serreta, e isso é um orgulho para nós que temos aqui a Nossa Senhora dos Milagres”… “Já não temos muito espaço, só se a gente alargar a Igreja” (ouve-se o seu leve riso)… “Da Comissão da Igreja este é o primeiro ano” disse Ricardo Meneses a dada altura da entrevista; “Por aquilo que vejo, tem muita gente nova, jovens que vem pagar as suas promessas… e também tem pessoas mais idosas que vem todos os anos já estão efetivos aqui” (e volta-se a ouvir o seu riso com gosto)… “A gente nomeia uns colaboradores para ajudarem… na sacristia, temos umas senhoras que dão chá às pessoas, lavam os pés se as pessoas tiverem muito cansadas dos pés… Pronto, temos a ajuda da freguesia toda”… “As pessoas às vezes dizem que estão a perder a fé mas eu não acho isso. Cada vez tem vindo mais gente à Igreja fazer a sua devoção à Nossa Senhora e acho que isso nunca se vai perder”.

As orações são acompanhadas por muitas emoções fortes, as lágrimas ali são de agradecimento, ou de tristeza, ou de alegria, de esperança são quase sempre mas nunca de desilusão, porque quem percorre os caminhos da ilha Terceira até à Serreta quase nunca o faz só uma vez e o que sente quando ali chega justifica bem a caminhada.

Frente ao Império há Fados para ver e ouvir na festa da Serreta e na segunda-feira, a tal segunda-feira da Serreta, o dia passa-se no mato em família, com amigos e ao fim da tarde há toiros no Pico, no Pico da Serreta, claro está.»

Gente Franca, gente que sente e fala a nossa língua. Gente Franca, na Antena 1 Açores.

11.setembro.2011

O discurso de José Eliseu para a história de vida de Luís Bretão e da cultura popular açoriana

Não me atrevo a tecer, agora, grandes comentários sobre a prosa seguinte, da autoria de José Eliseu, o nosso brilhante cantador, porque ela por si só é um documento que me honra divulgar com a autorização do seu autor. Bem-haja quem assim escreve sobre o que é nosso e inigualável. Ora leiam:


 


A ilha Terceira, em mais de meio milénio de povoamento, tem sido berço de pessoas que se tornam figuras incontornáveis pelo que escrevem, dizem, cantam, ensinam, pelo que fazem, pelo que são.

Outras há que pelo seu carácter, integridade e simpatia tornam-se exemplos da intrepidez e tradição cavalheiresca que têm marcado gerações nesta ilha redonda.

Neste lote está sem dúvida Luís Carlos Noronha Bretão.

Nascido em pleno coração de Angra e filho de um dos mais insignes doutos da cidade, Luís teve sempre o condão de nunca esquecer as suas raízes rurais por via paterna, da freguesia de Santa Bárbara deste concelho.

E talvez isso tenha condicionado a moldagem da sua personalidade.

É um homem solidário, de diálogo fácil e aberto, franco, prestável, leal e sem qualquer capa de fingimento.

Em termos profissionais, justificou sempre cabalmente a remuneração mensal pelo bom nome que constantemente deu à companhia aérea que servia.

O modo despretensioso com que se pôs ao serviço da entidade patronal SATA, fez-lhe granjear fama e proveito de funcionário exemplar.

Sabia solucionar problemas agudos com eficácia sem perder o bom humor nem descurar a idoneidade.

O espírito serviçal fazia até com que se expusesse aos superiores hierárquicos só para atender à especificidade de cada caso.

Não poucas vezes, alguns dos cantadores que aqui marcam presença necessitaram de sair de uma lista de espera para a de passageiros confirmados em determinados voos.

E Luís quase sempre resolvia o que parecia ser irresolúvel.

Noutras ocasiões, era solicitado um olhar complacente para o excesso de peso de malas a abarrotarem.

A todos esses pedidos de ajuda, Luís atendia com afeto e resolvia com a eficácia possível em face da circunstância e dentro daquilo que as suas competências permitiam.

Ser simultaneamente divertido, cortês e resoluto valeu-lhe vários encómios até de transeuntes oriundos de outras paragens que pela tendência da generalização levaram uma imagem muito positiva das gentes desta ilha.

O cosmopolitismo associado aos aeroportos não condicionou o seu sotaque genuinamente terceirense.

A pronúncia bem fincada, falada por vezes a um ritmo matraqueado, dá um toque alarachado e divertido ao seu discurso.

A sua passagem pela política pode considerar-se relativamente efémera, mas marcante, na antiga Direção Geral dos Desportos, em período revolucionário.

A sua ação foi norteada por um espírito de missão, raro nos tempos que correm, que o fez colocar o interesse coletivo bem acima do individual.

Numa época de enorme agitação social e discussões ideológicas quase milicianas, soube transpor obstáculos políticos, conciliar antagonistas, aglutinar vontades, mobilizar jovens e vitalizar instituições.

Com poucas verbas ao dispor, conseguiu, graças a uma notável criatividade, generalizar a prática desportiva e ativar modalidades.

Luís Bretão foi empreendedor e parcimonioso na gestão de recursos, virtudes que fizeram dele um marco indelével no dirigismo desportivo dos Açores.

Enriqueceu o seu currículo com passagens por equipas dirigentes e pela cadeira presidencial do seu clube do coração, o Sport Clube Lusitânia.

Mas, se perpassarmos pela biografia do Luís, uma das efemérides com maior quota de responsabilidade por estarmos aqui hoje nesta homenagem é quando a família Bretão decide fixar residência em São Carlos.

Este lugar, de casas solarengas, palacetes e quintas de grande imponência e harmonia arquitetónica, que encantaram a Rainha D. Amélia aquando da visita régia em 1901, é dormitório duma grande parte da elite angrense.

Nesse sítio aprazível celebra-se todos os anos a festa em honra do Divino Espírito Santo no terceiro domingo de setembro.

Imbuído de sensibilidade para as tradições populares, depressa Luís Bretão se tornou um dos principais benfeitores do império.

Na 5.ª feira da festa de São Carlos é quase de lei a realização do pezinho vespertino e da cantoria noturna.

Na tarde desse dia, as estradas, canadas e caminhos ganham vida com a passagem dos músicos filarmónicos a tocarem a doce melodia do pezinho, as moradias escancaram-se, as mesas ficam lautas, o benfeitor espera ansiosamente o cortejo junto à porta nobre da casa, os arpejos das violas são silenciadores dos acompanhantes, os mordomos esmeram-se por dar informações profícuas aos cantadores que, perfilados, improvisam em conformidade.

A moda cantada tende a suscitar reações diametralmente opostas, como sejam o choro e o riso.

Emociona quando são abordados temas do foro sentimental e diverte quando há motejos adequados à pessoa visitada ou à própria circunstância.

Agradecimentos e elogios aos donos da casa são incumbências obrigatórias dos poetas populares, de modo a que o anfitrião sinta a gratidão da comissão das festas.

Findo o cantarejo, e de novo ao som dos harmoniosos sopros musicantes, a comitiva é convidada a saborear os pitéus selecionados para a ocasião.

Toda esta praxe encanta Luís Bretão.

A sua residência passou a ser franqueada às romarias dos pezinhos de São Carlos.

Nasce, então, a admiração pelos cantadores como trampolim para a formação de laços de amizade que perduraram até hoje.

Ele olha-nos, não com altivez, mas com humildade; fala-nos não com aspereza, mas com meiguice; incentiva-nos não com hipocrisia, mas com sinceridade; critica-nos não com insolência, mas com respeito; escuta-nos não com sacrifício, mas com deleite, abraça-nos não com cinismo, mas com a mesma estima com que hoje o homenageamos.

A poucos metros do alçado tardoz da sua vivenda construiu um alpendre retangular destinado a reuniões de família, convívios, tertúlias, festas comemorativas e encontros gastronómicos.

Quem teve e tem a sorte de participar nesses eventos privados, deles sai com o estômago atestado e com o ego fortalecido pelos sorrisos límpidos e gestos acolhedores do Luís e da Luísa.

Realce para ela, esposa que preza as decisões do marido, acompanhando-o, auxiliando-o e assumindo alegremente o papel de provedora de mantimentos.

Até o Duarte, descendência única do casal, quando em tempo de solteiro, não se limitava a ser comparsa, mas elemento festeiro ativo, trazendo à evidência o aforismo: “tal pai, tal filho”.

Foi, então, no telheiro do Luís, onde se podia e pode provar a maior variedade de queijos curados, que os cantadores se tornaram presença frequente como animadores de serão.

Muita da classe citadina aprendeu a valorizar os improvisadores precisamente na casa do Luís Bretão.

Ele faz questão de brindar os seus convidados, em momentos considerados especiais, com cantigas ao desafio que acabam por divertir à conta dos motes específicos que são fornecidos.

Para o Luís, não há nomes mais ou menos sonantes entre os cantadores.

Trata todos com igual deferência.

O nosso homenageado orienta a sua vida por princípios morais nobres, além de ser prestável, caridoso, solícito, compreensivo e bondoso.

Talvez por isso, São Pedro lhe tenha entreaberto a porta do céu para que este se enriquecesse com a entrada de uma alma sã.

Parecia ser essa a consequência de um acidente vascular cerebral que o deixou vários dias fora do mundo, embora vivo.

Mas Deus foi sensível aos prantos e orações que continuamente saíam da Terra e revogou a decisão do seu apóstolo.

O Omnipotente insuflou o divino sopro revitalizador no corpo do Luís, para júbilo dos seus familiares, amigos e conhecidos.

Reabertas as pálpebras, voltou a São Carlos para iniciar uma nova fase da sua vida.

Perdeu pujança física, diminuiu muito a agilidade dos membros canhotos, mas manteve a lucidez e uma impressionante longanimidade.

Mesmo limitado nos seus movimentos, o que originou inevitavelmente dependência, continuou a organizar festins, a receber pezinhos e a dinamizar iniciativas de índole cultural.

Com mais tempo livre, aprofundou conhecimentos sobre as cantigas ao desafio, estudou as características dos repentistas e compreendeu melhor o glossário do vernáculo popular.

Foi mentor de algumas homenagens a cantadores e tocadores, bem como orador em outras cerimónias de agraciamento.

Recolhe textos e depoimentos sobre tradições terceirenses, figuras marcantes e típicas do povo, improvisadores, violistas e até sobre momentos de culto, compilando-os em pequenos opúsculos.

Estas publicações oficiosas, chamemos-lhe assim, são juntadas a material diverso de publicidade nos famosos “sacos do Luís Bretão”, que são oferecidos, em acto público, aos cantadores e tocadores presentes no pezinho de São Carlos.

Meus caros colegas, o Luís Bretão nutre carinho por nós, mas esse sentimento é recíproco.

Ele ajudou a quebrar barreiras preconceituosas e a desfazer a ideia de obtusão associada aos cantadores ao desafio por alguns aristocratas.

Trata todos os elementos da classe com igual afabilidade independentemente do traquejo ou capacidade poética.

Na mesma medida incentiva e promove os principiantes, como eleva o seu preito aos veteranos da velha guarda.

Faz da sua casa ponto de encontro e de divulgação desta arte de que nós somos intérpretes.

Luís é conselheiro, conciliador, altruísta, cordial, sincero, alegre e amigo.

Pessoalmente, aproveito esta oportunidade que me é dada para publicamente mostrar a mais profunda gratidão pela amizade que o Luís me tem dispensado.

Demos-lhe um abraço de felicitações pelo seu sexagésimo oitavo aniversário com o desejo de que viva muitos mais anos na nossa companhia para que nos contagiemos pela sua boa disposição e nos orientemos pelo seu exemplo de vida.

É, portanto, com regozijo e com a sensação de dever cumprido, que os cantadores e tocadores terceirenses prestam esta singela e justíssima homenagem a um dos maiores dinamizadores culturais da ilha Terceira.

A melhor conclusão que descobri para esta oratória é uma exclamação que expressa o que verdadeiramente sentimos: “Luís, és um dos nossos!”

Disse


José Eliseu Costa.

Nota: Discurso proferido pelo orador convidado, nosso brilhante cantador terceirense, durante a cerimónia de homenagem a Luís Bretão, PEZINHO “PERCURSO DE UMA VIDA”, no salão da Sociedade Musical da Terra-Chã, no dia 31-05-2013.

Apetece-me exclamar bem alto: Que maravilha de discurso! Que maravilha de orador, cantador e gentil amigo da ilha, da Região e de outros continentes, que soube dizer tudo excelentemente sobre o seu fiel amigo Luís Carlos de Noronha Bretão.

Bem-haja e parabéns!

A cultura popular no role das tradições açorianas

Vem este título a propósito de outro que se seguirá um dia destes, espero. Em tempos idos, já alguém dizia: hei de cantar até que a voz me doa. E quando dói toma-se uns rebuçadinhos a ver se as cordas vocais afinam, caso contrário, vai-se ao médico para tecnicamente as salvar.

Por todo o lado há bons e menos bons cantores. Os primeiros recebem aplausos q.b., os segundos podem ser motivo de conversa num qualquer canto da ilha. Enfim, o que interessa nesta prosa é chamar a atenção dos leitores ocasionais de que nem sempre as vozes combinam com as melodias mas não seja por isso que se vire a cara ao que é genuíno e feito com gosto, o mesmo que dizer amor.

A nossa cultura popular semeada e produzida na ilha com direito até a sair-se dela continua a ser um atrativo a todos os níveis, quer interno quer com repercussões externas. Quer se afine bem a garganta, quer se fique pela mensagem alinhavada ao som das melodiosas cordas dedilhadas numa viola, guitarra ou violão, há que encarar as nossas cantigas rimadas do Pézinho e/ou da cantoria ao desafio, como um cartaz a ser apregoado nas festas de verão e nas festas locais conforme se tem visto ao longo do ano.

Não sei se alguém já pensou nisso (certamente que sim) mas se o Fado é património imaterial da humanidade, porque não o Pézinho e a Cantoria, nossas cantigas tradicionais de cariz popular não se fazem assentar ao lado de tão prestimosa classificação?!

O que é necessário para tal ser legislado?

Já existe uma Associação de Cantadores e Tocadores ao Desafio dos Açores, cuja presidência está a cargo de José Santos, coadjuvado por outros elementos sobejamente conhecidos e atuantes em matéria cultural açoriana;

Existem imensos cantadores no ativo, na lembrança e que ainda estão connosco em atuações menos abrangentes, e outros tantos quase no escurinho do café ou palco improvisado para qualquer cantoria de última hora.

Sugiro que se avance com cabeça, tronco e vozes para uma qualquer atitude que dê digno realce ao que é genuíno, tradicional e que nos faz ouvir discursos de se lhe tirar o chapéu em ocasiões que reúnem os amigos e os amigos dos amigos, os familiares e até representantes do Governo Regional.

Fica a dica!

Rosa Silva (“Azoriana”)

Nascer vs Morrer

São muitas horas amargas
Para aquele que nada tem
Para outros são mais largas
Conforme a cor do vintém.

Por entre fardos e cargas
Que de surpresa nos vem
Muitos caem das ilhargas
Do pobre que trata bem.

O futuro é tão incerto
Como a hora de nascer
Do menor ao mais discreto.

Mas eu tenho cá para mim
Que o mais certo é morrer
E aos dois não se vê fim.

Rosa Silva ("Azoriana")

No dia da Criança, uma carta da Terceira (para António Oliveira, no Canadá)

Carta da ilha Terceira

Querido e estimado amigo
Espero que estejas de saúde
Peço que esteja contigo
Quem nos dá boa virtude.

Escrevo a carta da Terceira
Pra dizer que estou feliz
Senti-me ontem cantadeira
A honrar nossa raiz.

Subi ao palco da emoção
Rodeada de cantadores
E a cantadeira em ação
A mais nova dos Açores.

Pelas ruas da cidade
Património mundial
Viu-se cordialidade
Num evento especial.

Uma festa de homenagem
Num dia de aniversário
Cada um deu a mensagem
Num verso extraordinário.

O Pezinho, assim se chama,
A moda em dedicatória
Feliz daquele que ama
O que honra nossa história.

Luís Bretão é um dos tais
Que abre a porta a toda a gente
E em todos os locais
Recebe um aplauso crente.

Amo tanto tudo isto
Que nem o sei expressar
Na ilha de Jesus Cristo
Fervilha o nosso cantar.

Amigo António Oliveira
Tive a prova que preciso
Pra vincar cá na Terceira
O meu bravo improviso.

Não tremi como tremia
Tinha a paz do coração
Pezinho mais que a cantoria
Faz voar minha ovação.

Um dia que cá vieres
Antes que a morte nos leve
Terás canto de mulheres
Nem que ele seja breve.

Rosa Silva e Maria Clara
Duas vozes, duas gerações,
Num palco é coisa rara
Dois quadros duas versões.

Agora vou terminar
Para não te dar cansaço
Assino quase a chorar
Com um forte e grande abraço.

S. Carlos, 1 de junho de 2013 (dia que a Criança está em cada um de nós)

"Percurso de uma vida" - o dia seguinte

Foto da autoria de Elvino Vieira

Foto da autoria de Elvino Vieira - Photo Vieira

 

Estava ali tão feliz
No meio de tantas flores
Que são como quem diz
Nossos queridos cantadores.

Digo com sinceridade
Não escondo a emoção
O Pezinho de verdade
É uma nobre tradição.

No dia de aniversário
Do amigo Luís Bretão
Foi evento extraordinário
Pra lembrar na Região.

Ramalhete de cantadores
Com a quadra e a sextilha
Com o som dos tocadores
Fizeram linda partilha.

Hoje e sempre sejam dadas
As devidas atenções
Aos que prezam as moradas
E o berço das tradições.

Duas mulheres a par
De tão ilustres senhores
Podem todos apostar
Que respeitam seus valores.

2013/06/01
Rosa Silva ("Azoriana")