Amanheço depois de uma turbina de sonhos em que o “naufrágio de um navio” foi o ponto forte para me deixar como que numa anestesia matinal.
Depois, depois, vagarosamente optei por chegar um pouco depois da hora habitual ao recinto dos números emoldurados por uma manta de paredes brancas pinceladas de anos sem ver pincel.
Depois, depois, ouvi dizer, li e não senti o “sismo nos Açores”… nos Açores?! Os Açores continuam a ser nove ilhas cuja distância entre elas ainda continua a mesma e não se pode generalizar o que acontece numa ou outra ilha. Cuidado com estas coisas de alarmismos desnecessários, não vá a população escapulir-se para a solidão e o medo do que virá a seguir… Afinal sempre trememos e iremos tremer. Mal de nós se não houvesse, volta e meia, um tremor que acerte as massas terrenas. Enfim, meti-me no mesmo recinto habitual e pensei naquele medo que já me percorreu inteira num dia que oxalá não mais se repita nas ilhas Terceira, Graciosa e S. Jorge, principalmente. Tremor como esse é que é de tremer nas profundezas do medo.
Depois, depois, virei-me para uma passagem pelos blogues que a mente já persegue por querer. Porto das Pipas e os seus ralis e belos artigos de me fazer sonhar e ficar presa ao artigo por uns momentos e reler, muitas das vezes… Chica Ilhéu e o seu desespero de dores com exames, cirurgias e idas e vindas ao continente para chegar ao ponto de querer a eutanásia adotada para o mais sofredor crónico e incurável… Dou-lhe razão. Porquê deixar sofrer um ser humano ao ponto do desespero?! E tantos que nem o desespero mostram por estarem enfermos de tal forma que nem abrem boca?! Mas penso que ao homem não é permitido decidir se o fim é agora ou mais daqui a pouco… Os efeitos colaterais é que podem levar a pensar-se na eutanásia… É só mesmo, julgo eu, o que falta para a vida se tornar demasiado cíclica e predefinida.
Ainda me deu para ir “passear” pelo blogue Cânticos da Beira, de Góis, da querida amiga Clarisse Barata Sanches, a poetisa maior dos sonetos a preceito e a prova máxima de que não há idade para amar tudo o que diga respeito ao mundo tecnológico ao nosso dispor.
E vasculhei outros blogues da minha lista de amigos.
Acabei a pensar nos Maios de amanhã (01-05-2013), e o ter de acordar cedo, se Deus me der vida e saúde, para não me entrar nenhum Maio por algum lado que eu não queira. Não conto a história antiga porque não tenho ocasião para mais descrições ao sabor do momento. Urge virar a página de uma manhã diferente para não infernizar a rotina numa ilha (Terceira) de um arquipélago - Açores!
Bom dia!
Etiquetas
Manhã de fim de abril
Canção de abril
Na Serreta o sol brilha
Mesmo com tal nevoeiro
No lado norte da ilha
É meu berço verdadeiro
É de longe a maravilha
Maior que o mundo inteiro.
Quero guardar com amor
A sextilha duma cantiga
Feita num dia de valor
Que à Liberdade instiga
Num cravo de rubra cor
Na quadra que não castiga.
A Serreta foi um dia
A luz do meu nascimento
Da ditadura fugia
Com novo acontecimento
A revolução se fazia
Na rádio o desenvolvimento.
Dez anos tinha eu apenas
Nem percebia o desalento
Hoje lembro algumas cenas
No rescaldo do rebento
Saíram de duras penas
"Grândola" voz do momento.
2013/04/25
Rosa Silva ("Azoriana")
sonho de abril
SONHO DE ABRIL
DE ABRIL QUERO UM CRAVO
NA ARMA SILENCIOSA
PRA CANTAR EM DESAGRAVO
À REVOLUÇÃO FORMOSA.
HOJE COBRE-ME A TRISTEZA
QUE ME VESTE DE ANSIEDADE
PORTUGAL SÓ TEM À MESA
UM BOUQUÊT DE SAUDADE.
VENHAM ARMAS DE ALEGRIA
COM CRAVOS E ROSAS BRANCAS
DANDO VOLTAS PELAS ANCAS.
VENHAM CRAVOS DE MARESIA
NUM SONHO PRIMAVERIL
COLORIR O NOVO ABRIL.
Rosa Silva ("Azoriana")
Angra do Heroísmo, 23 (para 25) de abril de 2013
Falar para dentro de mim
A minha campa não se quer vazia
Para adorná-la basta a poesia
Dos dias (in) findos do alvorecer
Duma vida feita de tanto perder.
A minha campa não se sinta fria,
Por ela voem pétalas de alegria…
[Sem pensamento andou a tecer
O que talvez não venha a perecer].
Não chorem ante a dor vespertina
Com mais fé se abraça a vela divina
E no meu caso tão cedo deturpada.
Um dia então chega a hora tão dura
Da terra fria que não dá cultura…
Só uma saudade… eterna morada…
Rosa Silva (“Azoriana”)
Ervas daninhas
Por entre as ervas daninhas
Que crescem sem ser plantadas
Podem ver-se as avezinhas
À procura das mesadas.
O que para nós incomoda
Serve a outros de sustento
É lindo ver à nossa roda
Quem vive ao sabor do vento.
Um melro, garça ou gaivota
Chamam a nossa atenção
Mesmo quando nem se nota
Estão a dar-nos boa lição.
Exemplo de liberdade
Fugindo à libertinagem
Mais no campo que na cidade
Dão exemplos de coragem.
Não temem o rigor do frio
Ao sol cantam dia-a-dia
Paira no ar seu desafio,
Improvisam a melodia.
Se ouvires alguém cantar
Quando na terra trabalha
Na certa vai agradar
Ao melro que anda ao calha.
Outros melros que vagueiam
Nas redondezas vizinhas
Não cantam e até torneiam
As pobres ervas daninhas.
Tira daqui a lição
Que voa das entrelinhas
E faz nascer uma canção
Dando a pauta às andorinhas.
Rosa Silva ("Azoriana")
Aos José’s de S. Miguel (e outros que improvisam)
[Grupo de poesia (micaelense), no facebook, cujo convite aceitei de bom grado por indicação de Rosa Freitas, de Santa Maria.]
Vejo que o Grupo é sortudo
Ao improviso é fiel
Nesta hora a todos saúdo
De Santa Maria e S. Miguel.
Escrevo mesmo a cantar,
As cordas são os meus dedos
Como aves a voar
Entre os belos arvoredos.
Vossa loa me comove
E que bem que me ressoa
Tirem a prova dos nove
Para ver se a quadra é boa.
À entrada deram-me rosas
Estou muito agradecida
Vossas quadras se manhosas
Hão de ter outra saída.
Se eu fosse cantadeira
Com garganta assanhada
Entre S. Miguel e a Terceira
Dava-se uma grande tourada.
De festas somos felizes
Nisso já não me atrapalho,
Honramos nossas raízes
Que sempre deram trabalho.
S. Miguel a verde ilha,
Que se junta à de lilás
Com encanto e partilha
Enfeita o vivo cartaz.
Santa Maria a ilha mãe
A primeira descoberta,
Para mim já sei que tem
Uma porta sempre aberta.
Com a maior alegria
Faço convite à maneira
Venham todos à cantoria
Que se faz na ilha Terceira.
Viola, violão, guitarra
São os compassos heróis
Que o canto se agarra
Às vozes de rouxinóis.
Somos um leque de flores
Num regaço tão colorido
Somos vozes dos Açores
Adocicando o ouvido.
Seja este breve momento
Eterna recordação
Do dom que é um talento
Dado pela inspiração.
Adeus ou um até já
Espero não levar açoite,
Que o Oliveira do Canadá
Nos visite logo à noite.
Já me deram bom motivo
Para cantar uns instantes
Se fosse mesmo ao vivo
Tinha respostas gigantes.
Rosa Silva (“Azoriana”)
2013/04/19
(dia seguinte à primeira participação no Grupo de Poesia, de José Bértoldo
O que deixei no grupo a 2013/04/18:
Cá estou a improvisar
Desfazendo algum engano
Não fui muita vez cantar
Mas já cantei noutro ano.
Sou natural da Serreta
Da ilha Terceira Açores
Canto com tecla e caneta
Sou fã dos nossos cantadores.
Da Maria Clara não sou parente
Cantei com ela só um dia
Em S. Carlos vi muita gente
Para ouvir nossa cantoria.
Agradeço a S. Miguel,
E também a Santa Maria
Por me receberem no painel
Que dá honras à poesia.
Espero vos dar carinhos
Ou defender qualquer tema
Uma rosa sem espinhos
Pode não ter bom poema.
José António e Rosa Freitas
Rimam que é uma maravilha
As minhas que ora são feitas
Levam a doçura da ilha.
Tudo o que virem de meu
Leva o nome Azoriana
Com o dom que Deus me deu
Sou autora que não engana.
Um abraço a toda a gente
Que no grupo tem guarida,
À noite estarei presente
Enquanto Deus me der vida.
Boa noite!
Rosa Silva ("Azoriana")
E outras ainda:
Vou responder a direito
Porque vejo coisas tortas
Se virem algum defeito
Não me fechem logo as portas.
Eu improviso de repente
A qualquer hora e momento
Só não gosto que haja gente
Que fale sem conhecimento.
..................................................
Rosa Silva e Rosa Freitas
Dois José's, valha-me Deus,
Depois das rimas feitas
Ninguém sabe quais versos seus.
Bértoldo nome diferente
Leonardo eu não conheço
Talvez que daqui pra frente
Tenha por eles apreço.
..................................................
Boa noite quero dar
Encontrei o bom começo
Espero aqui (ali) puder ficar
Sem levar muito arremesso.
A ilha Terceira é bela
Tem flores maravilhosas
Junto S. Miguel a ela
Talvez se tornem famosas.
José de Sousa respondeu:
As duas ilhas ligadas,
Como diz são mais formosas
Foram as duas plantadas
Num lindo jardim de rosas.
E já li lindas respostas… Que belo é o improviso!
Ó quem pudesse emoldurar
Toda esta cantoria
Que mesmo sem se cantar
Já canta na melodia.
Rosa Silva (“Azoriana”)
Bem mais precioso
Eis que chegou a hora de vos dizer
Que o amor é o bem mais precioso
Só por amor se chora ao morrer
E só por morrer se torna tão saudoso.
Amor de mãe do filho jamais esquece
Por bem se diga que é amor eterno
Porém há filho que não se compadece
Morre de agonia no seu frio inferno.
Quando um filho morre sem a sua mãe
Aumenta a dor que com ele também vai
Muito mais que a dor de não ter o pai.
Quando a saudade do amor não vem
Nem uma gota voa do rosto afinal
Prova que, no fim, alguém ficou mal.
Rosa Silva ("Azoriana")
Orfanato / Solar dos Remédios
Antes foi um orfanato
Hoje local de trabalho
Entre um e outro acto
Na história se fez retalho.
Retalho de dor e pranto
Filhos sem os pais ao lado
Na memória do Corpo Santo
O Solar está marcado.
Dos Remédios assim se chama
De linhagem e de brasão
Se para alguns foi a rama
Para outros ouro e pão.
Nesta hora tão precisa
Ergo o canto da coragem
Na linha que improvisa
A merecida homenagem.
2013/04/13
Rosa Silva ("Azoriana")
A rima é meu tempero
O meu canto de improviso
É feito mesmo a escrever
Responde rápido o juízo
Quem não vê até custa a crer.
Na onda facebokiana
Que arrasta quantos queira
Vai cantando a Azoriana
Bem à moda da Terceira
Espero não causar espanto
A outras ilhas iguais
Que também usam do canto
Que comungam os jograis.
Minha vida fez sentido
Ao sair do desespero
E por bem ter acolhido
A rima que deu tempero.
Rosa Silva ("Azoriana")
Caminho de Amor
Todos temos uma cruz
P'ra levar na caminhada
Não é bem como a de Jesus
Que foi muito mais pesada.
Ao fundo brilha uma Luz
Pró desgraçado sem nada
É o amor que se traduz
Numa estrela camuflada.
No fundo a chama viva
À conversão nos motiva
Mas o fogo sai ao contrário.
Porém os nossos pecados
Pela Cruz foram apagados
No caminho do Calvário.
Rosa Silva ("Azoriana")
Carta ao meu 4º filho (o Blog) de 9 anos
Angra do Heroísmo, 9 de abril de 2013
Querido e muito estimado blog, meu "4º filho"!
Espero que te encontres razoável de "posts" porque a tua "mãe" não anda a cuidar-te muito bem ultimamente. Deixou-se levar pela preguicite aguda e anda num marasmo de escritos que até mete dó a ela porque os demais transeuntes destes circuitos estão com pouca retórica, exceto o teu "irmão" cujo "pai" veio dar-te os parabéns logo pela matina. O tão querido amigo "AFlores" com seus comentários sempre provocando um sorriso e, logo de seguida, um farto riso. :-) A tua "mãe" aproveita a ocasião para agradecer, por ti também, a alegria que nos veio dar com a sua presença atempada.
Sabes, meu "filho", que tens alguns admiradores e até outros que não dispensam a pesquisa e/ou leitura de algum dos teus "posts". Ficamos ambos muito felizes com os comentários que surgem ora aqui, ora acoli. Hoje é um dia muito importante para quem conta com nove anos de existência em termos de escrita, mais ou menos, ativa. Lembraste quando tivemos quase a cair borda fora do recinto do nosso batráquio? Lembraste da onda de amizade que se gerou à volta dos teus "posts" para não sucumbirem? O tempo tudo varre, tudo faz esquecer ou lembrar na medida certa.
Querido "filho" espera-se que o resto do dia seja reconfortante e que surjam alguns daqueles versos rimados como a tua "mãe" gosta de te ir dando para que cresças com magia, encanto e, porque não, a saber amar com doçura e melodia amistosas.
Lembrei-me, "filho", que tenho umas rimas "arquivadas" à espera de irem para o ar. Queres lê-las?! Mesmo que digas que agora não, que mais tarde, etc. etc., insisto em deixá-las contigo mesmo que te abeire da nostalgia. Tudo faz parte da vida e temos de aceitar os bons e menos bons momentos que com rima até se tornam passageiros. Parabéns, "filho"! E aqui estão:
VERSOS D’ILHA
A ilha é cais da palavra
Ancorada em minha mão
E que no peito me lavra
Uma secreta solidão.
Solidão acompanhada
Dum silêncio de abril
Florido pela fachada
Tristonha de um perfil.
Se tomar o canto triste
Nesta hora do alarme
É porque a tristeza existe
Num vulto qualquer sem charme.
Que seja o charme a rima
Costurada noite dentro
E que venha ao de cima
O que brota cá do centro.
Tornar-se-á conhecido
Nesta hora repetente
Algo que anda escondido
No decímetro da mente.
Uma mente que deseja
Mandar abraços a rodos
E um beijo para quem esteja
A ler estes versos todos.
Rosa Silva (“Azoriana”)