Nota: Antes de escrever este artigo estava em estado normal. Não me apetecia rir nem chorar. À medida que o fui escrevendo apoderou-se de mim uma tristeza avassaladora ao ponto de o terminar abraçada às lágrimas que teimavam em fazer-se notar.
Fui à baixa citadina
Hora de almoço. Raramente a usufruo na plenitude. Hoje foi diferente. Tinha que ir por força da obrigação. Há “mandaletes” que não se podem mandar por ninguém. Temos que ir nós mesmos, mesmo que a vontade não seja cúmplice. Fui à baixa citadina, à nossa mui nobre e leal cidade de Angra do Heroísmo. Como é bonito pronunciar esta expressão dourada pelos anos que já se conta. Fui e voltei muito nas calmas, saboreando a rua, ora por um lado, ora por outro. Fui por uma e voltei pela outra e deu tudo no mesmo: a meta, o destino.
Apreciei os transeuntes, apreciei as montras e até entrei numa loja que sempre gostei de dar a volta e sair, mesmo que não chegue a adquirir seja o que for. Ouço apenas a música ambiente que é um alívio para a alma. Desta feita já é música natalícia… Trauteei em surdina, não fossem ficar pasmados a olhar para o meu rumor musical. Saí da dita loja e fui até à montra de outra. Pasme-se! Tinha precisamente um vistoso e lindo presépio com todas as peças: São José, Nossa Senhora, o Menino Jesus numa manjedoura e… que mais?! Será que ainda posso escrever?! Claro que ainda lá está, disponível para quem quiser adquirir, um BURRO e uma VACA. Gracejei com a cena junto de uma pessoa anónima e ouvi resposta adequada que nem me atrevo a repetir. Só sei que essa resposta ficou-me na mente e jamais a esquecerei… Não sabia o que fazer: se ria ou chorava. Ri todo o caminho de volta e nem me importei com quem olhasse para mim, mas por dentro chorava convulsivamente… Tive pena de neste dia precisamente ter perdido o meu oásis infantil, o meu Natal. Que lindo que era o meu Natal de menina inocente. Um recanto da sala todo preenchido com verdes e musgos, pedras e “bonecos da igreja”, parafraseando uma pessoa que conheço muito bem. Talvez agora lhe dê razão… Tenho muita pena que ela esteja certa… Que tenha nascido num tempo mais avançado que o meu… Que pena o meu presépio de criança ter que afastar um BURRO e uma VACA, agora.
Que importância tem isso? Podem perguntar à vontade e até podem responder-me com todas as frases galantes e certificadas com as leis do Divino… Mas não podem fazer ressuscitar o meu presépio da infância, tão linda e tão mágica que jamais terei ou algum ser meu familiar voltará a ter…
Vejo um futuro incerto
Vejo a tela descambar |
Vejo cruzes mais de mil
Vejo tédio, vejo dores, |
P.S. Há coisas que preferia não saber e muito menos vindas da mente do clero supremo. Ámen!
Rosa Silva (“Azoriana”)
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