Tingo-me de silêncio. Um rio de lágrimas humedece o teclado da saudade paralisada no tempo bondoso. As palavras fogem para o abrigo da mente que se quer animada na canção de embalar. Os olhos quedam-se numa visão de sonho com alma. E a rima?! Onde está a gentil rima que adoça o turbilhão de escritos pausados?! Se porventura a rima der lugar à pacífica prosa moldada pelo requinte de letras num amontoado de emoções, pois que venha ela vestir-me da novidade que avista um alargamento do conforto textual.
Tingo-me de carateres mundanos e profanos com um sentimento novo como que esperançoso de alegria interna. E os políticos teimam em aumentar o imposto vadio em detrimento do aumento do salário-nosso-de-cada-dia. E como ficamos?! Com a saca vazia dos ingredientes do bem-estar, famintos e sequiosos do resplandecer dos dias futuros. Que serão dos nossos filhos e netos?! Saberão recuperar a luz de petróleo? A griseta? A panela de ferro fundido? A sertã da faceira do suíno deposto no banco de madeira à mercê do tratamento manual de limpeza para que, finalmente, seja pendurado no tirante de um recinto à prova de cheiros e sabores (biscoitos de manteiga feita em casa, aguardente, anis traçado, licor de amora e de casca de laranja, suspiros, figos passados). Saberão os nossos filhos lavar a roupa na pia cheia de águas trazidas nos baldes à anca, posta a corar num verde aveludado do terreno sobranceiro à casa da chaminé de mãos-postas?! Saberão os nossos filhos amassar farinha, fermento, água, leite, ovos, açúcar, sal, ao ponto de se deliciarem com o forno escaldante de labaredas felizes com a devolução de um pão sovado a gosto cujo paladar sai airoso numa recomendação plural?!
Tingo-me absorta em pensamentos que me trazem lembranças passadas e que não gostaria que voltassem. Abro a torneira da alma e, gota-a-gota, encho o copo da ternura numa ovação a tantos e tantas que sentiram na pele todo o trabalho que ninguém quer viver no presente. Bem-haja quem nos gerou, criou e legou o melhor que tinha. E hoje o que iremos legar?! Um amontoado de carateres tingidos de ironia e silêncios partilhados num novel mundo, sem cheiro nem sabor, onde ainda se pode cultivar a palavra AMOR.
Rosa Silva (“Azoriana”)
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SAUDADES DO PASSADO
ResponderEliminarAté me da vontade de rir
A lamentacao da nossa Rosa
Anda sempre aos santos a pedir
Mas nao tem muita fé religiosa
Agora esta confundida
Ja nao sabe o que fazer
Lamenta-se com a vida
O que sera que vai acontecer
Tem medo de voltar ao passado
Aos tempos que ja la vao
Mas eu nao ficava preocupado
Se eu defende-se a tradicao
Aquilo que tu descreves
Nesta tua redacao
Nao sei como te atreves
A defender a tradicao
Se voltarmos ao passado
Espero que isto nao aconteca
Mas quem esta mal acostumado
Vai ficar maluco da cabeca
Mas isto vai ficar pior ainda
Quando o jantar servir de ceia
Quem diz que a tradicao é linda
Entao vai ver como ela é feia
Eu nao me lembro agora
Mas sei que alguem ja cantou
Que o passado foi-se embora
E que nunca mais ele voltou
Isto nos da uma esperanca
E esta ideia eu nao sencure
Vamos depositar confianca
Em quem pertence o futuro
De um modo bem discreto
Mencione eu com confianca
Num Salmo que Deus promete
Que vai haver superabundancia
Salmo 72-16