Ainda o sol não era nado, levantavam da cama e rezavam nem que fosse no íntimo de quatro paredes. Tomavam uma boa maquia de leite com pão de milho esmiolado e quiçá algum tónico para a viagem de uns rodados que cantavam pelo caminho um hino à natureza.
Primeiro tinham que colocar o carro nos eixos, cangar as vacas (ei vaca pra diênte...), a aguilhada em riste, o chapéu de palha, e ala que se faz tarde, mesmo que a manhã fosse aurora...
Chegavam ao cerrado e toca de arrancar o produto que a terra fizera graúdo e amontoar no carro, amarrando bem para nada se perder no regresso à eira. Eis que, na eira, se dispunha o feijão, o tremoço ou as favas, conforme a época, para depois se seguirem as operações ritmadas de um trabalho sempre igual e de sustento para muita gente.
Malhar com o mangual, tirar a palha já sem o grão, juntar para um monte, joeirar e/ou aventar para que o grão ficasse limpo de quaisquer impurezas nefastas. No fim, enchiam-se sacas de lona, baldes e outros utensílios que resguardassem o produto da terra até que fosse o dia de escolher, em cima da mesa, grão a grão, tirando ainda alguma impureza que o vento não levara.
Ainda me lembro de malhar, joeirar e escolher feijão amarelo (o que gosto mais) para depois ser servido. No caldeirão de ferro fundido, com um bom refogado, com tempero saudável, uns nacos de bacon e outros ingredientes de porco que permaneciam armazenados na salgadeira, linguiça em rodelas, e o sagrado feijão amarelo, que era de comer e chorar por mais... Tinha um sabor que ainda retenho no paladar acostumado ao tempero caseiro...
Não tenho esse dom de boa cozinheira mas ainda lembro o cheiro que pairava no lar de uma chaminé que não consentia em segredos: pelos oríficos voltados ao céu, saíam fumos e cheiros inconfundíveis que percorriam os ares até se juntarem com outros das vizinhanças quase iguais, dependendo da mão que os temperava.
Ao escrever estas lembranças não muito longínquas, fico pasmada no tempo que isto era o feijão-nosso-de-cada-dia e, na altura, não me causava tanto espanto... Hoje, ao ver as relíquias em imagem desbotada pela neblina de gavetas, fico como que numa saudade... Não tanto do feijão (o amarelo!!) mas daqueles cujas mãos ficavam grosseiras e santas por salvarem a vida da família com a sua produção, sem taxas ou impostos...
Por tudo isto, louvo, do fundo do coração, todos os antepassados que não mediram esforços e zelaram pela terra que Deus lhes destinou e jamais a desprezaram, para bem de todos os descendentes.
O Chico e o Manuel Raimundo, a Belmira, a Maria e a Alexandrina Raimundo, o Carlos "picaroto", a Matilde (mesmo doente), a Alexandrina Cota, o meu avô Manuel Gonçalves (que morreu tinha eu 2 meses), todos já falecidos mas jamais esquecidos por esta que se assina de
Rosa Silva ("Azoriana")
2012/08/12
O DIA DE APANHAR O MILHO
ResponderEliminarPara falar de coisas antigas
Nao ha por onde comecar
Mas tirando as silvas e ortigas
Eu sei que nao me hei de picar
Eu vou falar so de uma coisa
E do assunto nao me desviar
Minhas maos no teclado poisa
Ja posso a historia comecar
Naquele tempo que ja la vai
No dia de apanhar o milho
Cedo se levantava a mae o pai
E iam acordar tambem o filho
Se tinham mais do que um
Isto é que era uma beleza
Nao pagavam a nenhum
Nao faziam muita despeza
Se outros tivesse de contratar
O que muitas vezes acontecia
O jantar tinha que lhes dar
Alem de lhes pagar o dia
Mas la iam todos contentes
De manha pela fresquinha
Mas por dentro estavam quentes
Tinham bebido uma pinguinha
Pode talvez nao ter muita graca
E nao vou fazer nenhuma troca
Mas paresse que um copo de cachaca
Lhes dava a eles muito mais forca
Comecando todos a trabalhar
Antes pudesse nascer o sol
Todos iam milho apanhar
Até encher o primeiro lencol
As vezes se faziam apostas
De maneira bem sentimental
Para por o lencol as costas
Sem a ajuda do pessoal
Certamente so se fazia isso
Quando tinha la raparigas
Alguem até ja me disse
Que chegava a haver brigas
Certos terrenos faziam combro
Com alguma estrada principal
O milho era carretado ao ombro
Para que ficasse perto do portal
Podia vir um carro de bois
Ou até mesmo um camiao
Carregava-se eles os dois
E era tudo carregado a mao
Trazia-se o milho para casa
Se punha num cafugao
A noite se acendia a brasa
Para torrar favas para o serao
Vinha entao a visinhanca
Vinha o pai e vinha o filho
Vinha o velho e a crianca
Todos para o serao do milho
Nao havia radio nem televisao
Nao se pensava em tais glorias
Mas passava-se um lindo serao
Cantando e houvindo historias
Vai ser melhor parar por aqui
Isto é uma historia muito grande
Agora vou dar a vez tambem ati
Espero que isto para a frente ande
Mas estas coisas eu nao esqueci
nem esqueco mesmo que me mande