Artigo de Liduino Borba sobre o Livro de Mário Pereira da Costa

Leitura tardia de um livro


 


AURORA E SOL NASCENTE – Turlu e Charrua, Confidências”, de Mário Pereira da Costa.


 


Liduino Borba


 


Em Abril de 2008, quando foi lançado o livro “João Ângelo – O Mestre das Cantorias”, fiz algumas referências ao livro do meu amigo Mário Pereira da Costa, “Aurora e Sol Nascente – Turlu e Charrua, Confidências”, que viria a ser lançado no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra, a 13 de Junho, numa digna e sentida cerimónia.


 


Tinha tido o privilégio de ver o “livro em bruto” aquando das correções e provas, efectuadas na ilha Terceira. Mas não o li.


 


Há alguns anos que tenho pensado iniciar uma coleção de livros – Improvisadores – e faria todo o sentido que o primeiro fosse com a “biografia” do Mestre Charrua. Daqui a razão de ter adiado a leitura, para o não fazer por duas vezes. O que perdi…


 


Já agora, o livro está adiantado, trata na sua maioria o centenário do nascimento e tem o título “CHARRUA 1910 – 2010”. O número 2 da coleção, intitulado “Adelino Toledo – Uma Voz na Diáspora”, será lançado em Junho nas Fontinhas e em Agosto em Turlock, Califórnia.


 


Gostaria de dar os meus sinceros parabéns ao Mário Costa pela excelente obra que escreveu, numa linguagem muito clara e precisa, descrevendo os acontecimentos de tal forma que nos sentimos dentro deles.


 


Gostava ainda de salientar três pontos deste livro:


 


1 – O amor e paixão entre Turlu e Charrua.


Não é nada fácil viver, cerca de 50 anos, com uma paixão tão ardente e reprimida por tantos anos. Só os grandes intelectos sabem suportar essa dor. Este amor correspondido só teve o selo legal a 8 de Dezembro de 1973, na minha paroquial de São Mateus da Calheta. Os dois souberam respeitar os compromissos perante os seus pares e a sociedade que os rodeava. A Turlu certo dia disse “No amor da alma não há traição”.


 


2 – A primeira viagem de Turlu à América.


Entre os nossos emigrantes, que tanto bem nos sabem receber, a Turlu foi cair nas mãos de quatro “empresários” vigaristas que envergonharam toda a nossa comunidade de então. Lamentáveis cenas do “Far West” envolveram os primeiros tempos da presença dela na diáspora. Felizmente, alguém de bom censo ajudou a Turlu a seguir o caminho que tinha direito, e a grande improvisadora e poetisa percorreu e saiu da América como uma rainha.


 


3 – Grandes poetas populares.


Toda a recolha e publicação de versos de Turlu e Charrua só vêm confirmar tudo quando se disse, e escreveu, sobre eles. Foram os dois maiores improvisadores dos Açores. Mário Costa publica muitos e bons versos, mas os da página 101 e 102, cantados em 1931, em São João de Deus, sobre a defesa e distinção dos sexos, são dignos de registo:


 


Charrua


O Rei é mais do que a Rainha;


O pálio mais do que a umbela,


O sino mais que a campainha;


O círio mais do que a vela.


 


Turlu


A hóstia é mais do que o sacrário;


A pomba mais que o estorninho;


A cruz mais que o calvário;


A água mais que o vinho.


 


Charrua


O perdão mais do que maldade;


O dia mais do que a hora;


O amor mais que a amizade;


Deus mais que Nossa Senhora.


 


Turlu


A seda é mais do que o linho.


A sorte mais que o dinheiro.


A praça mais que o caminho,


A casa mais que o palheiro.


 


Charrua


O cheque é mais do que a nota;


O garfo mais que a colher;


O sapato mais que a bota;


O homem mais que a mulher.


 


Turlu


A lã é mais que o algodão;


A mala mais que o baú


A alma mais que o coração


E eu mais do que tu.


 


Só os grandes mestres do improviso cantam assim. Feliz ilha que tem filhos destes. Felizes freguesias – São Mateus e Cinco Ribeiras – que viram nascer gente assim.


 


Só faltam duas coisas para completar este ciclo: trazer os restos mortais da Turlu de Toronto, Canadá, para São Mateus; e, a Junta de Freguesia das Cinco Ribeiras identificar, assinalar e dignificar a sepultura onde foi enterrado o Charrua.


 


Casa da Terra Alta, 17 de Março de 2011.

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