Canta-me a felicidade... num dia mais-que-cinzento

O dia está triste que mete dó. Há bolor cinzento por todas as juntas dos segundos, minutos e horas. Custa muito esta passagem monótona, azeda e com umas trombas que até dá uma agonia de insatisfação. “O mundo nos vê, Deus é que nos conhece, ninguém é como parece”. Puxo pela prosa para não molestar a minha querida rima com esta tristeza aterradora. Gosto do silêncio mas não este. Este tem uma dose exagerada de cinzas.

Tragam-me figos da figueira, tragam-me laranjas da laranjeira, tragam-me pétalas rubras beijadas pelo sol, com alegria e com sorrisos francos. Assim, tal como está o dia, não! Apodreço neste mar tingido de silêncios manchados de cinzentismo. Há um tédio que amorna o ser, frio de um clima triste, pincelado de sombras.

Pelas portas atravessam gritos e uivos, no assobio dos ventos, que balbuciam os horrores da actualidade. De rompante, apetece mergulhar na escuridão da alma e abrir mão desta pacatez amaldiçoada de uma estadia insólita.

Fazes-me falta nas horas tristes de um dia monótono. Procuro por ti neste silêncio saliente mas não encontro o teu olhar lírico. Fico-me no isolamento do verso que não brota. É uma viagem parada no tempo que falta para voltar ao cheiro da terra, à relva salpicada de nevoeiro manso, ao jardim de pedra escolhida para amparar os olhares de quem entra e sai de um lar restaurado pela força do verso rimado…

Fazes-me falta neste cântico rude de letras sem nexo para outrem e, com todo o sentido, para a minha quietude estranha. Beija-me com a fortaleza das odes viris. Não me deixes só… Canta-me um verso luminoso. Canta-me a plenitude da vida...


 


Canta-me a felicidade

Canta-me a felicidade
Sai deste negrume triste
Revela-me a tua vontade
Enquanto a vida existe.

O teu silêncio me afoga
Neste verso sem tempero
Há, por certo, quem advoga
Que silêncio é desespero.

Há quem diga que Janeiro
Retalha todas as frentes
Produzindo o nevoeiro
Que ataca os dias correntes.

Que vai ser desta agonia?!
Que vai ser deste tormento?!
Amparo-me na maresia
Dum dia mais-que-cinzento…


 


Rosa Silva (“Azoriana”)


 


3 comentários:

  1. Olá bom dia! os teus dias cinzentos fazem lembras dos meus, o silencio  vai ser quebrado um dia! quando meu amor me aceitar como sou! gostei muito de seu poema! resto de um dia cinzento mas com calor no coração. Inté a  próxima fica bem!

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  2. Olá Rosa!
    Tenho SAUDADES tuas!
    Adorei ler ete teu texto, bem como o poema!

    já vi o outube, na barra lateral.
    Estás tão sorridente e feliz...um sonho tornado realidade!

    Congratulo-me contigo.
    Cá estou no nr. 125 de S. Pedro, eperando que me chamem para uma das duas cirurgias.

    Triste e amarga com a Vida!

    Meu telf. fixo: 295214370.

    Beijos
    Chicailheu

     

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