A saudade é um gomo
Da fruta na cor mais fresca,
Um apetite, um desabafo,
Um cálice, árvore dantesca.
Um muro de mil palavras,
Um sonho pla noite dentro,
Um véu de mil grinaldas,
Suspiro fundo do centro.
Saudade é luto do verbo
Da carne que já não é,
Daquele vazio enorme
Que derruba tudo ao pé.
Saudade é tanto triste,
Um fogo que se apagou,
Um luar denso, sem lua,
Que nossa boca beijou.
Um adeus à terra crua,
Um choro nu e oculto
Um adeus noutros abraços
À Palavra se une o Culto.
Saudade é um terreiro
De frases, basalto chão,
Batalhas de armas caladas
Pulsando no coração.
Saudade de tanta gente
Que parte numa saudade:
Um olhar, um passo lento
Até à eternidade.
Adeus ó alma boa,
Os sinos te acompanharam
Foste num fim-de-semana
E os Anjos, por ti, cantaram.
2010/03/13
Rosa Silva ("Azoriana")
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