Julho de
2009.
Verão com uma tarde de sol risonha.
Uma
caminhada longa, sem pressas. Três pessoas, sendo duas adultas e um
jovem, seguiam despreocupadamente olhando as surpresas das ruas por
onde se avista, de frente, o mar que convida a um mergulho, não fossem
as caravelas e as águas-vivas, que nem os nadadores-salvadores
conseguem controlar porque são muitas. Pelo trajecto vêem-se casas
bonitas, animais de estimação e/ou protecção que cumprimentam os
transeuntes com algum alvoroço; flores que matizam paredes e jardins;
carros que circulam obedecendo à ordem do semáforo novo; um céu que
beija o mar no horizonte; pessoas que trabalham na via pública numa
ilha encantada; olhares que se cruzam; um barco ao longe fumegando
saudades; gente que embeleza a fachada da sua mansão com a cor
favorita, enquanto que outras moradias deixam transparecer um quase
abandono ou um enorme desleixo, porventura motivado por uma ocupação
temporária e/ou de outrem.
Já quase atingindo o destino a que
esta família se propunha de início, estancaram o passo perante um
choro insistente vindo da parte de trás de um muro baixo e sem portão.
Era uma criança esfregando nos olhos ao ponto de já estarem
avermelhados. Os cabelos tão lindos com uns caracóis que o tempo
deixara intactos. Estava numa dessas moradias descuidadas que se
olharmos bem até parece que nem mora gente. A criança, com menos de
dez anos, apenas balbuciava com soluços: "- Eu quero a minha
mãe!". Impossível seguir viagem. Aproximaram-se dele e após uma
série calma de perguntas e respostas, estas sempre nuns soluços, a
criança abandonando o choro ficava, pouco a pouco, mais tranquila.
Deram-lhe a mão e aquela mão aconchegava-se na outra que estava
perplexa.
Ficaram a saber que os pais tinham saído mas o motivo
não veio à baila e que o filho aguardava a sua volta. Como ficara
receoso viera para o portão, chorando, esfregando os olhos indefeso,
ao ponto de quem passava se aperceber que algo estranho estava
acontecendo. Impossível continuar a caminhada, sobretudo a quem é
sensível a choros...
Sem choro e levado pela mão amiga reentrou
na moradia pela porta contrária ao cão que até deu um ar de sua vigia.
No interior, uma conversa tranquila e apropriada à idade da criança
fez o milagre dela não voltar a chorar, nem vir para o exterior,
enquanto a mãe não chegasse: "- Prometes?" Ele respondeu
acenando afirmativamente com aquele lindo rostinho apaziguado e o
olhar enxuto de lágrimas e lavado conforme lhe haviam
recomendado.
Os "anjos" que ajudaram esta criança
saíram da moradia cabisbaixos e pensativos. Aguardaram ainda no lado
de fora, não fosse a criança ter novo receio e sair para o exterior.
Nada. Tudo calmo. Continuaram, então, a sua caminhada. O pensamento e
os diálogos seguintes insistiam no mesmo assunto: "- Onde
estariam os pais daquela criança?; Porque será que esta criança ficara
só numa mansão daquelas?; A televisão era a companhia com desenho
animados de um canal propício para manter as crianças sem arredar pé
de casa, mas porque com aquela não fizera grande efeito?".
Questões vinham e iam, sem resposta.
No regresso a casa, as
três pessoas escolheram passar, de novo, pela frente daquela mansão.
Pararam, olharam, escutaram. Não perceberam qualquer ruído. Tudo
calmo. Avistaram uma viatura estacionada na entrada, numa espécie de
parque de ervas daninhas. Talvez fossem os pais ou a mãe da criança
que havia voltado. Não ousaram levantar poeira ou assustar a criança.
Seguiram o seu norte mas sempre falando no mesmo (ainda hoje se
lembram de tudo).
Um dia, haviam de voltar a passar naquele
lugar para saber se o bilhete deixado num papel encontrado teria
provocado algum efeito benéfico.
Até hoje, continua no
pensamento aquela expressão agoniante: "Eu quero a minha
mãe!".
Será este um «caso isolado ou não?». Talvez não. A
diferença está no choro, na idade e na expressão repetitiva: "Eu
quero a minha mãe!".
Questões para
reflexão:
- O que fazer com as crianças menores de doze
anos, por exemplo, sozinhas em casa, filhos de famílias que não têm
meios de ter alguém a tomar conta ou colocar nalgum sítio que tenha
essa possibilidade mediante pagamento de honorários?
- Há crianças
que até são avançadas para a idade e tem esperteza suficiente para
saberem se comportar num caso de estarem sozinhas em casa... Mas e
aquelas que têm medos? O que fazer?
- E se ambos os pais trabalham
fora e não tem familiares que os ajudem nesses cuidados?
Rosa
Silva ("Azoriana")
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Parte I - Casos isolados ou não: "Eu quero a minha mãe!"
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Querida amiga, primeiro de tudo deixa-me dar-te as boas vindas a blogosfera, já que te encontras de volta depois do descanso (da guerreira ) merecido. Depois deixa-me dar-te os parabéns pela tua prosa que esta muito bem escrita e capta a atenção de quem a lê (tu, e prosa e rima e o que vier!!).
ResponderEliminarE agora o meu comentário propriamente dito. Nesses casos eu sou muito radical... Tanto quanto sei e ilegal deixar uma criança menor de 12 anos em casa sozinha. E negligencia! Se tivesse sido eu a deparar-me com um casos destes, nem tinha pensado duas vezes e tinha logo telefonado para a policia. Não me importa se a mãe tinha ido "a venda", ou só num saltinho a casa de uma vizinha... Eu não pactuo com casos desses! Nos dias de hoje, mesmo quem não tem meios financeiros para os fazer, já tem informação suficiente para saber que pode obter ajuda das entidades competentes para resolver a situacao e não "ter" de deixar uma criança sozinha em casa, entregue a sua sorte. E se se procurar, ha sempre um familiar, um vizinho ou um amigo que pode tambem ajudar nesses casos. As vezes opta por isso, porque ser solucao mais facil. E depois as coisas acontecem e entao poem-se as maos a cabeca, e arranjam-se desculpas esfarrapadas (e toda a gente tem muita pena). Ha que mudar as mentalidades e ha sobretudo que proteger as criancas! Esta e a minha opiniao.
Bj da Jo