Azoriana: 500 palavras, em verso, para a Fábrica de Histórias

Dois lados de mim



O da prosa e o da rima,

O da noite e o do dia;

O de baixo e de cima,

Da tristeza e da alegria.



Também há sol e a lua,

O claro e o escuro;

O atalho e a rua,

O certo e o inseguro.



Há a dor e o prazer,

A verdade, sem mentira;

O coração a doer,

Quando alguém de mim te tira.



Há um lado mais feliz,

Outro que me faz chorar;

Há o topo e a raiz,

Que nada pode quebrar.



Há o novo e o velho,

Há o bem e há o mal;

Quando me vejo ao espelho

Encontro o lado mortal.



Porque a vida e a morte,

São apenas um só lado;

Há o fraco e o forte

Há o peso do pecado.



E das cores que mais gosto,

Juntam o mar e o céu:

É no azul que aposto,

Da ilhoa e do ilhéu.



É de rimas que me faço,

E de versos numa estrofe;

E na prosa me desfaço,

Quando me mexe o bofe.



Há o doce e o amargo,

Numa mistura frequente;

E do teu amor não largo,

Enquanto a gente for gente.



Há o mito e o real,

O simples e o complexo;

O quadrado e o oval,

O côncavo e o convexo.



O brilhante e o opaco,

O singelo e o apurado;

O partido faz-se em caco,

E o inteiro bem formado.



Há a fome e a fartura,

O largo e o apertado:

Há também a curvatura

Quando o corpo não é delgado.



Há o pico e há o vale,

Há o mar rodando a terra;

E que a voz se me não cale

Faça paz em vez de guerra.



Contra o ódio, o amor,

Contra a preguiça, o trabalho;

Tenho fé em Nosso Senhor

Que me acode quando ralho.



A aurora e o luar,

Que vestem o dia e a noite,

E me podem inspirar

E o verso ser mais afoite.



Mesmo que não venha a nu

  O pior lado de mim:

  Importa que não és tu

Que me fazes ser assim.



Sou jardim e sou deserto,

Sou Silva com algum espinho;

Tenho o meu peito aberto

P’ra nunca ficar sozinho.



E do lado do amor,

Desenho um coração,

Para quando eu me for,

Ele ficar na tua mão.



E se ódio encontrares,

No desenho que te deixo,

É melhor não lhe ligares

Não é de ti que me queixo.



O melhor dos meus escritos,

É o que fica em herança;

Nestes versos foram ditos

Os temperos da lembrança.



Abandonei o passado,

Assentei-me no presente,

Tenho o humor de lado,

Sem saber se vem p’la frente.



O desejo e a vontade,

Outros dois lados de mim,

Mas para falar verdade

Um dia chegam ao fim.



Como vão chegar ao fim,

Estes versos fabricados,

Como o doce de alfenim

Nos lábios adocicados.



Por lembrar da doçaria

Que é típica da nossa ilha:

Tudo de bom eu queria,

Como uma mãe quer à filha.



Rosa Silva (“Azoriana”)

2 comentários:

  1. Depois de algum tempo de ausência não podia ficar indiferente a este novo trabalho poético da minha querida amiga, "ROSINHA"...!
    Obviamente que não tenho palavras para comentar estas rimas maravilhosas, carregadas de verdade, de sentimento, e de grnde sabedoria popular.
    Mas, quem conhece esta "azoriana" outra coisa não é de esperar.
    Minha querida; para quando a publicação dos seus trabalhos?
    Os computadores avariam e todo este trabalho se esvai...
    As obras, as nossas obras serão eternas, se publicadas em livro.
    Um grande abraço.
    Teixeira da Silva

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  2. Um grande abraço e obrigada pelas suas palavras sempre amistosas e valiosas.

    O artigo seguinte contém um destaque ao seu comentário.

    Volte sempre!

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