Dois lados de mim
O da prosa e o da rima,
O da noite e o do dia;
O de baixo e de cima,
Da tristeza e da alegria.
Também há sol e a lua,
O claro e o escuro;
O atalho e a rua,
O certo e o inseguro.
Há a dor e o prazer,
A verdade, sem mentira;
O coração a doer,
Quando alguém de mim te tira.
Há um lado mais feliz,
Outro que me faz chorar;
Há o topo e a raiz,
Que nada pode quebrar.
Há o novo e o velho,
Há o bem e há o mal;
Quando me vejo ao espelho
Encontro o lado mortal.
Porque a vida e a morte,
São apenas um só lado;
Há o fraco e o forte
Há o peso do pecado.
E das cores que mais gosto,
Juntam o mar e o céu:
É no azul que aposto,
Da ilhoa e do ilhéu.
É de rimas que me faço,
E de versos numa estrofe;
E na prosa me desfaço,
Quando me mexe o bofe.
Há o doce e o amargo,
Numa mistura frequente;
E do teu amor não largo,
Enquanto a gente for gente.
Há o mito e o real,
O simples e o complexo;
O quadrado e o oval,
O côncavo e o convexo.
O brilhante e o opaco,
O singelo e o apurado;
O partido faz-se em caco,
E o inteiro bem formado.
Há a fome e a fartura,
O largo e o apertado:
Há também a curvatura
Quando o corpo não é delgado.
Há o pico e há o vale,
Há o mar rodando a terra;
E que a voz se me não cale
Faça paz em vez de guerra.
Contra o ódio, o amor,
Contra a preguiça, o trabalho;
Tenho fé em Nosso Senhor
Que me acode quando ralho.
A aurora e o luar,
Que vestem o dia e a noite,
E me podem inspirar
E o verso ser mais afoite.
Mesmo que não venha a nu
O pior lado de mim:
Importa que não és tu
Que me fazes ser assim.
Sou jardim e sou deserto,
Sou Silva com algum espinho;
Tenho o meu peito aberto
P’ra nunca ficar sozinho.
E do lado do amor,
Desenho um coração,
Para quando eu me for,
Ele ficar na tua mão.
E se ódio encontrares,
No desenho que te deixo,
É melhor não lhe ligares
Não é de ti que me queixo.
O melhor dos meus escritos,
É o que fica em herança;
Nestes versos foram ditos
Os temperos da lembrança.
Abandonei o passado,
Assentei-me no presente,
Tenho o humor de lado,
Sem saber se vem p’la frente.
O desejo e a vontade,
Outros dois lados de mim,
Mas para falar verdade
Um dia chegam ao fim.
Como vão chegar ao fim,
Estes versos fabricados,
Como o doce de alfenim
Nos lábios adocicados.
Por lembrar da doçaria
Que é típica da nossa ilha:
Tudo de bom eu queria,
Como uma mãe quer à filha.
Rosa Silva (“Azoriana”)
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Azoriana: 500 palavras, em verso, para a Fábrica de Histórias
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Depois de algum tempo de ausência não podia ficar indiferente a este novo trabalho poético da minha querida amiga, "ROSINHA"...!
ResponderEliminarObviamente que não tenho palavras para comentar estas rimas maravilhosas, carregadas de verdade, de sentimento, e de grnde sabedoria popular.
Mas, quem conhece esta "azoriana" outra coisa não é de esperar.
Minha querida; para quando a publicação dos seus trabalhos?
Os computadores avariam e todo este trabalho se esvai...
As obras, as nossas obras serão eternas, se publicadas em livro.
Um grande abraço.
Teixeira da Silva
Um grande abraço e obrigada pelas suas palavras sempre amistosas e valiosas.
ResponderEliminarO artigo seguinte contém um destaque ao seu comentário.
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