Não me travem as loucuras
Nem as peças turbulentas
Porque das loucas ranhuras
Preencho minhas sebentas.
Sebentas que vão no ar
À rédea solta então
E me fazem mergulhar
Cá dentro do coração.
Não me travem os assentos
Que raramente acerto,
Nem me caçem os cinzentos
Que deixo a descoberto.
Descoberta intempestiva
No fulgor da noite escura
Que insiste em manter viva
A cor de uma moldura.
Moldura d'Azoriana
Que se quer à rédea solta
Canta a lira sem tirana
E o que vê à sua volta.
Canta versos amiúde
Sem nexo ou perfeição:
Enquanto houver saúde
Tira dela o teu quinhão.
Se te vês em escuridão
Com moscas à tua volta
Tens decerto algum senão
Ou a chuva te escolta.
Neste dia violento
De sombras e nevoeiros
Esbaforida p'lo vento
Meus versos vão sorrateiros.
Sorrateira é a vida
Que não pode ser parada
Quanto mais ela é comprida
Melhor tem de ser levada.
Deus quer nossa alegria,
Com cantigas mui felizes
Nossa passagem é esguia
Traz o selo das raízes.
Minha ilha é divertida,
Canta e glosa sem parar,
Por isso é mais querida
E por cá gostam de estar.
Há o mar que nos cativa,
Há a terra que nos ama,
Há uma flor sempre viva
Que por um olhar reclama.
Há um pé de amor-perfeito
Que dança rente ao luar;
E há festa sempre a eito
Em frente a cada altar.
No altar da Virgem pura
Cantam-se as Avé-Marias
Para nos dar a ternura
Que preenche nossos dias.
Canta, canta minha gente,
Até que a hora se cale,
Deixa a tristeza ausente
Mesmo que a dor te embale.
Chamem de louca então
A cantiga predilecta,
Devo tudo ao meu torrão
Que tem por nome - Serreta!
Rosa Silva ("Azoriana")
Angra do Heroísmo
4 de Agosto de 2008
À rédea solta
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