Após um comentário recebido no artigo sobre o "Pezinho de Nossa Senhora", resolvi ir à Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo.
A minha vontade era recolher dados sobre a "Lenda de Nossa Senhora da Ajuda", e consegui, pese embora não ter tido muito tempo disponível. Entretanto, encontrei outros dados interessantes no livro do Doutor Gaspar Frutuoso (1522-1591) - Saudades da Terra - Livro VI - Ponta Delgada, 2005, na página 16, referindo o seguinte:
(...) Nesta freiguesia de Santa Bárbora, ao longo do mar, está a dita ermida de Nossa Senhora da Ajuda onde dizem que ela apareceu, e ambas são de muita romagem, e, pela estrada adiante um quarto de légua está outra ermida de São Jorge.
Corre a costa brava daqui por diante até à Serreta espaço de uma légua de rochas altas e sem caminhos, e pela Terra dentro se colhe trigo e pastel e há muitas criações. Chama-se ali a Serreta por ser o topo daquela terra mais alto que a outra costa, que também por mar se chama ponta da Baleia, como por terra é chamada a ponta da Serreta.
O texto anterior, tal qual o original (hoje escreve-se freguesia de Santa Bárbara), foi retirado do "Capítulo Terceiro (Da descrição da nobre e populosa cidade de Angra, cabeça do bispado de todas as ilhas dos Açores, e, daí por diante, da costa da ilha da banda sul, até à Serreta, cabo ocidental dela."

Zona costeira das Cinco Ribeiras rumo a Santa Bárbara

No livro "Açores - Lendas e outras histórias", com recolha e arranjo de texto de Ângela Furtado Bum - 1994, na página 126, encontrei aLenda de Nossa Senhora da Ajuda que passo a transcrever:
No início do povoamento da Terceira, pelos princípios do século dezasseis, um certo dia, passavam algumas pessoas pela Ribeira das Sete, quando viram sobre a água a Virgem Nossa Senhora que lhes disse:
- Estai atentos, aqui próximo, no mar, há-de aparecer uma imagem minha.
Ao afirmar isto, pôs o pé na rocha e desapareceu deixando marcada uma pegada.
As pessoas ficaram alvoraçadas e a pensar no que tinha acontecido. Mais admiradas ficaram ainda, quando, passados dias, um caixote de madeira foi arrojado à costa, ficando depositado no fundo de um poço e ao ser aberto depararam-se com uma imagem de Nossa Senhora da Ajuda.
Trouxeram-na para a igreja paroquial, pensando até dedicar-lhe um altar. De noite ela mudava-se para uma furninha que ficava na rocha, onde tinha aparecido, sem que ninguém lhe tivesse tocado.
Uma mulher do lugar viu, numa dessas noites, a imagem passar na sua viagem da igreja para a lapinha, transportada por anjos.
Num certo dia o padre e alguns homens tentaram pegar na imagem para a trazer de volta à igreja, mas, inesperadamente, ela tornou-se tão pesada que não foi possível deslocá-la dali, apesar da força dos homens.
Então o povo apercebeu-se que a Senhora da Ajuda queria ficar naquele lugar, junto ao mar, e edificaram-lhe uma ermidinha onde colocaram a imagem de pedra.
A essa ermida, edificada perto do mar, na freguesia de Santa Bárbara, a poucos quilómetros da cidade de Angra, passaram a acorrer muitos fiéis e a Senhora da Ajuda fez muitos milagres àqueles que lhe eram devotos.

Mas não foi só isto que li. No livro intitulado "As 18 paróquias de Angra - Sumário histórico" - 1974, de Pedro de Merelim, na página 213, lê-se:
Santa Bárbara
A cerca de três léguas de Angra, lado oeste, após itinerário aliciante, encontra-se a freguesia de Santa Bárbara das Nove Ribeiras(...) Considerável número de montanhas bordam os seus campos: Serra Gorda ou de Santa Bárbara - 1.081 m. acima do nível do mar, a mais elevada da ilha, Pico das Dez, o Pico Agudo, o Pico Catarina Vieira, o dos Porcos, o das Serretas, o do Vale Verde, o do Brandão, o do Enes, o do Miradouro, o da Vígia e o dos Constantinos - para referir apenas os mais notáveis. Uma série de ribeiras ilustra a freguesia: a das Nove, da Oito, das Sete, das Seis e a de Manuel Vieira, além da do Hospital ou da Canada da Praia, que divide a freguesia com a de Nossa Senhora do Pilar.
Além do Templo principal, de que Santa Bárbara é orago, conta-se a ermida da Nossa Senhora da Ajuda, que antes de 1545 existe. Uma lenda maravilhosa perfuma e radica a origem da imagem que ali se venera.
Dedico este artigo ao autor do blog "Arqueólogo-Moura" e ao de "Dispersamente..." (aproveito para, de novo, lhe mandar os Parabéns pelo aniversário da sua filha).
Azoriana