Um jardim no Céu

Quantas e quantas vezes nas nossas vidas já tivemos momentos de aflicção?
Quantas vezes fomos ao serviço de urgência e fomos mal atendidos?
Quantas vezes já recorremos do serviço de urgência do Hospital de Angra do Heroísmo sem ser realmente uma URGÊNCIA?
Quantas vezes o desespero por ver algum familiar às portas da morte nos fez tomar atitudes menos correctas?
Quantas vezes já elogiámos o trabalho de seres humanos que diariamente estão presentes atrás de uma secretária para nos dar alento para a vida?
Quantas vezes já páramos para pensar que em vez de recorrermos à urgência de um hospital devíamos prevenir certas doenças?
Isto tudo a propósito de uma notícia que li pela primeira vez no jornal "Correio dos Açores", estava eu no aeroporto de Ponta Delgada, à espera da saída do voo 406 - PDL/TER.
A notícia sobre a jovem que morreu faz hoje oito dias, no Hospital de Angra do Heroísmo. Este é, sem dúvida, um assunto muito delicado e da forma que está escrito no jornal ainda se torna mais delicado. Há títulos que chamam a atenção e neste caso "Jovem morta na Terceira esteve em países com gripe das aves" para depois, na página interior ser apaziguado com "Jovem que morreu no Hospital de Angra esteve na Roménia e Alemanha" e em letras "gordas" vinha logo abaixo: "Gripe das aves é hipótese".
Na altura que li pensei:
Que grande dor para os pais desta jovem, a quem envio os meus sentidos pêsames;
Que notícia para deixar no ar o "alvoroço";
De certeza que este jornal andará por muitas mãos nem que seja pelo título.

No fim da notícia vinha um sub-título: "Marcha contra o Hospital".

Estimados leitores, não tenho nada contra o Hospital de Angra do Heroísmo na situação de cidadã comum e utente daquele serviço. Por várias vezes já passei naquele corredor e naqueles quartos do serviço de urgência, quer por situações pessoais quer para acompanhamento de familiares. Não tenho razões de queixa.
Compreendo que os médicos são seres humanos sujeitos a ficarem cansados, são humanos, também precisam que sejam compreendidos. Há coisas que os ultrapassam. Eles não são Deus. Deus é que pode tudo. Nós não somos nada. Recorremos aos médicos porque eles estudaram mais que nós e tem vocação (DEVEM TER) para exercer aquele tipo de serviço.
Eles são responsáveis pelos seus actos. Certo?
Eu vi minha avó acabar os seus dias no Hospital, o meu pai idem, a minha mãe ibidem, meu primogénito também usufruiu várias vezes deste serviço e minha filha, quando foi atropelada, recebeu os melhores cuidados que podia receber neste hospital. Eu já perdi a conta das vezes que já passei por lá. Umas vezes sou melhor atendida que outras mas nunca fui maltratada.
Eu não faria uma marcha contra o Hospital. Eu faria uma marcha ao cemitério das Quatro Ribeiras e levaria uma flor para que esta jovem fosse para o céu com muitas flores.
Neste momento, choro... porque sou sensível e vocês que me lêem já o devem ter percebido há muito... e digo-vos mais... num funeral costumo chorar muito, mesmo que a pessoa que vai no caixão não seja minha parente... sei que neste funeral eu teria chorado imenso... mas não faria uma marcha contra o Hospital...
"Lembra-te homem que és pó" - Estamos a entrar na Semana Santa e fazer uma marcha contra o Hospital não me parece ser um acto CRISTÃO.
Digam-me, estou enganada?
Se estiver que me atirem a primeira pedra.
Se alguém que ler este texto me puder dar boleia até às Quatro Ribeiras... aí sim, eu levo uma flor para colocar na campa da jovem, que eu não conhecia, mas de certeza já está à beira do Pai do Céu. Eu penso que quando morre uma criança ou um jovem é Deus que acolhe directamente no seu Jardim. Por isso vamos dar SIM uma FLOR ao "Jardim das Quatro Ribeiras".
Deixem as manifestações para os textos dos jornais. Eu não faria uma manifestação se a minha filha tivesse morrido no dia que entrou no serviço de urgência e me deram 30 minutos para saber o seu futuro... Jamais! (Eu vi no olhar dos médicos que se abeiraram de mim... um olhar de consternação... Bem hajam os médicos do Hospital de Angra do Heroísmo porque são seres humanos que passam horas e horas para cuidar de nós... mas nem sempre são milagrosos).
Digam-me, estou enganada?!
Desculpem se feri alguém, se mostrei um outro lado de mim, mas uma marcha contra o Hospital... Não!
Que Deus tenha a jovem de 17 anos à sua beira e que peça por todos nós. Todos temos o nosso dia... ele deve estar próximo... nem vai adiantar qualquer marcha...
Haverá alguma marcha que evite que o nosso Deus seja novamente pregado na Cruz?!

1 comentário:

  1. Cara amiga
    permite-me discordar de ti... apesar de perceber as razões que te levam a discordar da marcha.
    em primeiro lugar a marcha não é contra o hospital é contra o serviço de urgencia. Quantas vezes vamos lá com sintomas gripais e quando entramos no gabinete médico a receita está quase passada? Já me aconteceu...
    Quantas vezes a falta de humanidade em nos vir dizer o estado do nosso familiar acontece? Já esperei dez horas... Para me dizerem o estado em que a minha mãe se encontrava... Nesse dia passei frio, fome e sei lá que mais... Os senhores doutores e enfermeiros durante a noite vão-se entretendo ,com tv, e quiçá com uns cobertores quentinhos, enquanto os familiares aguardam numa angustia indiscritivel por uma noticia... è por isto que aprovo a marcha. A jovem morreu, não sei se por desleixo, errar é humano é verdade, mas se houvesse mais cuidado no nosso atendimento nada disto se passaria. Tenho muita dor acumulada e muita revolta porque já senti nos ossos um bocadinho disto tudo... Amanhã , oxalá esteja bom tempo, lá estarei...
    quanto à flor no cemitério seria bem empregue que os pais da miuda lecassem todas as que chegarem à marcha e em nome de nós todos as levem até à filha e lhe digam que este é um beijo solidário da ilha terceira.
    abraços

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