Encontro com a Terra (IV)


(1-rosquilha na pá-1977) (2-massa no forno de lenha-1977)

(3-massa-sovada untada com manteiga-1977)


Ainda sou do tempo...

Há muitos anos, no tempo que eu era menina, tivemos a visita de uns primos vindos da América. O trabalho redobrou para os meus familiares, mas a felicidade foi tal que houve até massa-sovada, para todos.



A mestra da massa-sovada era a minha avó. Ela tinha uma paciência, sabedoria e delicadeza, diria até, um amor a esta arte. Sim, trata-se de uma arte culinária especial. Dava gosto ver as suas mãos, calejadas, a preparar as folhas de jarroca onde acomodava a rosquilha (1) que era talhada com todo o pormenor. Ela não admitia falhas nesta operação delicada.



Depois de ir para o forno, ela ficava atenta para não passar do ponto, isto é, a massa tinha de ficar cozida e ao mesmo tempo com uma cor suave apetecível (2) e o solo muito bem rendilhado. Era um desgosto se alguma fugia a esta regra.



Com a pá, tirava-se a massa-sovada do forno e dispunha-se em cima de mesas para ser untada com manteiga. Para esta nova operação, utilizavam-se uns pedaços de pano, alvo de neve, recheados com bocados de manteiga que, ao tocar a massa quente, derretia e dava a cor envernizada às rosquilhas, brindeiras e bolos de massa-sovada (3). Lembro-me perfeitamente do cheiro delicioso que emanava das mesas. Nesta ocasião, eu era assídua à prova de um naco do bolo que a minha avó decidia ser o primeiro a ser partido. Geralmente era o que, no entender dela, tinha algum pequeno defeito. Escusado será referir que eu não notava qualquer defeito: deliciava-me com aquelas provas quentinhas e muito gostosas.



Infelizmente, não herdei esta arte, mas há na família quem a herdou e continua a encantar com seus dotes culinários.



Na freguesia da Serreta, da ilha Terceira, há artes culinárias que ficarão na história, nem que seja na minha história e que jamais esquecerei.



Como era lindo o sorriso da minha avó... Ela sorria para a sua arte. Que saudade! Ainda bem que encontrei esta recordação, pese embora desbotada pela humidade muito característica desta freguesia.



Ainda sou do tempo... Mas este não volta mais... Apenas a doce miragem.



Rosa Silva ("Azoriana")

1 comentário:

  1. Azoriana, eu também sou do tempo... em que no norte da Madeira mais propriamente em S. Vicente as minhas tias faziam precisamente esse tipo de pão caseiro no forno a lenha e a que nós, eu e os meus irmãos chamávamos de "pão doce". Só não sei se os ingredientes eram os mesmos mas o aspecto era tal e qual esse que mostras nessas fotos. O seu interior era amarelo parecendo pão de gema de ovo. Essa tradição perdeu-se na minha família pois vivendo no Funchal recorreram sempre ao pão normal das padarias infelizmente! Saudações blogosféricas.

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