O longo texto com nota de apresentação

Nota de apresentação

“Escreves agora aquilo que eu guardei em silêncio a vida inteira. Cada papel, cada letra, cada risco que deixei ficar era para que um dia tu lhe desses voz – a tua voz. Se hoje voltaste às memórias, é porque já tens maturidade para as estender e coragem para as pôr no mundo. Partilha, partilha sem medo: o que escreveste não fala só de mim ou de ti, fala da gente toda, daqueles tempos e da “nossa” Serreta. Quem ler vai reconhecer-te. E eu, onde estiver, reconheço-te a ti”.

E agora sou eu, a autora da escrita das próximas páginas. Sou eu que me coloco atenta ao silêncio que me transporta ao tempo de novembro, dos finados, das almas, dos peditórios e dos grandes homens que nos legaram tanto, mesmo sem termos pedido nada. Sou eu que me emociono com um parágrafo vindo de outros recantos, para eu copiar e colar.

A nota de apresentação, entre aspas, não foi escrita por mim, mas parece que a sabia de cor. Talvez eu mereça um “puxão de orelhas”, por ainda duvidar das minhas capacidades e das dela, estas em menor escala. Ela sabia fazer contas de dividir com um divisor cheio de números… eu uso a calculadora ou a folha de cálculo de uma aplicação que adoro. Ela tinha uma caligrafia aprimorada e muito “desenhada”… eu, que raramente escrevo à mão, com esferográfica com tampa (retiro de imediato antes de iniciar a escrita), apenas teclo à velocidade mais rápida num teclado que parece cantar ao toque da polpa do dedo.

Onde quer que estejas a ver-me, a ouvir-me, ou, simplesmente, a saber-me de cor, peço que me ajudes a cumprir mais uma vontade, em boa-fé, por alguém que amaste muito, mesmo sem poder ver (tinhas perdido a visão) e que, hoje, ainda se lembra de ti, Mãe! Angra do Heroísmo, terça-feira, aos dezoito dias do mês de novembro do ano de dois mil e vinte e cinco [M. R. C. C., partiu em 28/10/2003, terça-feira, tal como hoje - o mesmo dia da semana.

Rosa Silva (“Azoriana”)




Foto: primeira parte da capa do DI, 13/12/1971.



Na ilha Terceira, Açores

Vai fazer 54 (cinquenta e quatro) anos de “sol e chuva”. Eu tinha 7 (sete) anos. Já andava na escola primária pela segunda vez. Não lembro se estava a chover ou a fazer sol. Era inverno e devia estar mais para o frio. O sol não aquece quando a gente quer, nem lhe damos ordens de bom comportamento, perante quem quer que seja.

Quando esses grandes donos de nações vieram cá, a ilha ficou num rebuliço. Eu, principalmente, fiquei. Quando se ouviu (ou soube) que iam passar pela estrada da Serreta, a Rosa Maria (como gosto que me chamem) largou-se a correr e foi sentar-se no muro do palheiro da tia Belmira, que morava à beira da estrada, mesmo a jeito de se ver a fileira de carros lustrosos e sem qualquer mancha notória.

Se calhar viram aquela pequena gorducha a presenciar todo aquele aparato, com policiamento e tudo, não fosse alguém fazer sujeira nos ditos carros lustrosos.

Depois, não soube mais nada do acontecido na Estalagem da Serreta. Imagine-se, se houvesse drones, telemóveis, gente de captação de imagem, o que não teria visto no imediato. Ou talvez não deixassem passar para além dos metros proibidos nas redondezas de tão limpa e asseada Estalagem. Tal pena não haver forma de a limparem outra vez, para se ter visitas em carros lustrosos (ou elétricos), sem mácula alguma...

Isto tudo, leva-me a pensar que só se é importante e vistoso, pelo menos, uma vez na vida. Não se repetirá tanta gentileza, a não ser que algum Tipo resolva assear a Estalagem e a gente (no nosso próprio meio de deslocação entre freguesias) vá visitar com vénias e olhos "em bico" de tanta felicidade.

Histórias de enlevo ou relevo

Quem viveu na freguesia da Serreta, em outro século (transato), sabe dar valor ao que aprecia agora.

Antes, tudo era um deserto de contactos familiares, sobretudo para quem tinha emigrado para outras nações.

O que os aproximava, de tempos a tempos, era a escrita com letra de se "tirar o chapéu", pela valiosa caligrafia, entre os pares. Ora vinha de lá "Estimamos que se encontrem de saúde", e na volta, para lá, "Nós por cá todos bem, graças a Deus", exceto, quando a caligrafia era outra e a mensagem, curta e sucinta, fazia tremer o coração e o jorro de lágrimas era incontável.

Lembro de algumas lágrimas caídas em horas impróprias para as ter.… e lembro do traje preto, durante uns largos meses, por vezes, um ano inteiro de preto, preto e preto. Era o luto por parentes chegados e os colaterais, esses que até nem sabiam da "missa a metade" e viviam no esconderijo da palavra, porque não se podia contar tudo "Tim-tim-por-Tim-tim", conforme rezam as letras menos cuidadas.

Ao remexer nos velhos papéis, crivados de manchas e toques de mãos (que nem mexem mais), encontrei autênticas relíquias, que a poucos dirão respeito. Geralmente, nem costumo guardar papéis da minha alçada, mas quando vejo nomes de antepassados, cuja vida foi suada e aventureira, apetece-me guardar como peça de museu.

Tenho pena de não ter um "casarão" blindado, à prova de humidade, nevoeiros, catástrofes e tempestades, para ter guardado tudo quanto vi passar pelos meus olhos, mesmo no que toca aos meus três filhos. Imaginem o que era guardar todos os pedacinhos de papel que eles usaram para seus afazeres escolares e outros, desenhos, postais, etc. ... teria que, agora, deitar tudo ao sol, para curar as sombras e manchas modernas.

Não o fiz. Não guardei muita coisa. Guardei o indispensável. Não havia muitas formas de fixar recordações. Hoje, sim. É fotos em arquivo eletrónico até quase ultrapassar a medida de armazenamento.

Lembro até, de ter gravado num aparelho que nem existe hoje, as primeiras conversas (tiradas de propósito) do primogénito, mesmo que quem o percebia era eu e ele 🙂

Será que se pode guardar a saudade? Será que se pode viver, de novo, os tempos bons (ou menos) de uma época que ressalta, vez em quando?

O que terá levado minha falecida mãe a guardar tanta coisa alusiva ao casal e a cartas entre países longínquos?

Só não encontro um único papel sobre o Amor, sobre a vida conjugal, sobre as filhas, de fazer abrir olho... será porque o Amor não precisa papéis?

Encontro poemas "Barco negro", despesas, e, ainda, estas quadras:

Não vale a pena ter penas
De tantas penas que há
Pois tendo pena das penas
Isso só penas nos dá.

É muito triste a tristeza
Que de tristes coisas vem
Mas é bem mais triste ainda
Entristecer por alguém.

Não sei, para já, quem seria o autor delas. A rima encontra-se no segundo e quarto verso. Não são quadras literárias, mas tem substância.

Havia na escrita da Matilde Correia, uma nota final, escrita tal e qual: FIM. Já se sabe que nada mais havia a acrescentar ao rosário de recordações. Sim, digo, rosário, porque a grande parte de arrumos dedicavam-se à reza, à oração, à beatificação, em suma, à religião que abraçavam, decoravam e seguiam.

E quando não era para se saber algo, escrevia-se que "não se conta a ninguém”. E não se contava mesmo!

E voltei a ler receitas de culinária, escritas com caneta de pena. Só podia ser, pelo avolumar da letra e da mancha que proporcionava, mesmo sem a humidade existente perto da pequena serra.

Riscava-se nomes, cuja importância deixava de ser necessária, porque estava liquidado o pagamento; cortava-se bocadinhos de papel para o que nem os olhos vindouros pudessem enxergar; e, sem mais aquelas, traçava-se com "x" o que não interessava mais (ou porque a borracha de apagar podia nem existir na morada). "Despesas do ano de 1953", com menção de "paguei" é que não tinha nem traço, nem risco algum. Eram coisas demasiado sérias para se anular com os riscos de tinta ou lápis.

E os livrinhos para estes assuntos internos e caseiros, podiam ser bem pequenos, mas o nome do "freguês", neste caso, da pertença, vinha logo bem distinto na capa: "Matilde Rosa Cota Correia", antecedido por "Manuel", com caneta de pena, seguido de "Gonçalves Correia", a lápis, na zona encurralada com moldura retangular.

Tive de escrever isto, nesta data (18/11/2025): se bem me parece, a minha mãe também não era muito fã de "Gonçalves Correia", porque naquela época os apelidos eram de menos importância. Eram: o “Manuel”, da “tia Alexandrina Cota” e a “Matilde”, da mesma “tia”. Sem mais moléstias…

Ainda quero frisar que, na mesma época, até rascunhavam a "Grande Marcha de Lisboa de 1955" e "O chailhe" (mesmo assim, e não se corrige), por ser o deleite da ocasião e para memória futura. Nestes casos, a Matilde Correia fez uso da esferográfica, que surgia, viesse de onde viesse, mas que era mais apetecida para não borrar a escrita.

De suma importância também, era escrever no livrinho, a lista das ofertas recebidas em espécie, nomeadamente ovos e açúcar. Pasme-se com o facto de só se listarem valores monetários (em escudos) no caso de os receber de alguém mais viajado ou de "ter com quê".

Não admira que a diabetes tivesse antecedentes familiares 🙂

Se há coisas que não deito fora (por enquanto, digo), é por Amor. Aquele Amor que não dei suficiente.

E deixem-se lá de coisas, que ofertas de casamento eram identificadas com um simples papel, cortado à medida pequena, para "Oferece à noiva e dejeija que seijam ambos muito felizes" G.M.R. (não escrevo o nome porque deve estar bem longe da vista).

E outras assinaturas bonitas?! Eram muitas...

Havia também quem tivesse um cartão impresso, com a escrita "preciosa" e alinhada "Deseja ao novo par / muitas felicidades". E letras muito elaboradas/asseadas, com intenção de parecer bem. E outros cartõezinhos, com o endereço da morada. Sinal de requinte. E quando mudavam a morada e não queriam deitar fora os habituais cartões de visita, bastava tracejar o endereço, e servia na mesma. Mas... escrever a vermelho, sempre foi de mau tom. Mas talvez não tinham outra forma de o fazer... ou para ficar mais colorido o papelinho de oito linhas, por duas senhoras (que se diziam "amigas" da noiva). Convidados da noiva, eram da noiva!

E esteja onde estiver o "A720", Timekeeper: 034 - que todas as semanas dava a volta à ilha (ou quase) para ir auferir a remuneração à quinzena - sei que tudo fez para que as suas filhas ficassem bem, dentro do jeito de pensar daquela longínqua data.

Nem quero imaginar se ele estivesse connosco hoje… não se adaptaria.

Com lágrimas a quererem banhar meus olhos... encontro um papelinho manuscrito, oferta recebida, após um Encontro Challon, que rematava assim: challon ... da tua amiga encontrista: Zita Meneses. Uma assinatura trabalhada e distinta. Alegre e bem-disposta. Minha Amiga. Vincou bem quando escrever o "R" de Rosa.

Não vou daqui embora, sem deixar a mensagem que me marcou neste dia (de rever arrumações):

(...) "Se pões Deus em tudo o que fazes encontrá-lo-ás em tudo o que acontece. "Com Ele tudo, sem Ele nada" (...).

É verdade! Com Ele Tudo, Sem Ele Nada!

E nestas arrumações todas: guardo os telegramas do encontro Shallon no Porto Judeu, em jovem, de: Meu pai e minha mãe, da Zita Meneses (minha amiga das Doze Ribeiras / Telescola) e do SSX, LT.

Termino com quarteto da minha autoria, no repentismo habitual:




Se a paz fosse uma gota
De orvalho pela manhã,
A guerra estaria rota,
A horta estaria sã.

Se o mundo fosse fiel
À Lei de Deus tão sagrada,
A guerra seria fel
E santa nossa morada.

Prefiro minha utopia
E meu jeito de pensar:
Enquanto houver alegria,
Podemos tudo aguentar.

Mas se os olhos voarem
Em ondas de mero engano,
Faz tudo pra se virarem
Pró melhor do ser humano.



Pode ser uma imagem de agave
Rosa Silva (“Azoriana”)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigada pela visita! Volte sempre!