Sementes de saudade

Saudade palavra má
Que não devia existir
Para aquele que anda cá
É que a fica a sentir.

Saudade do que era bom
Não do que nos faz sofrer
Acentua-se o seu tom
No que fica por dizer.

A saudade é tão ardente
Se o amor a trespassa
É maior pelo ausente
E pesada p'la desgraça.

Mas a saudade para mim
Relembra-me o que não fiz
Saudade que vem no fim
E o fim nada nos diz.

31/10/2016
Rosa Silva ("Azoriana")


 


Nota: O mês de outubro deu-me sementes de saudade... dois dias tristes.

Ilha feliz

É um pedaço de nós
Um regaço de amor
Onde ecoa a nossa voz
Ilha de Nosso Senhor.

Canto a ilha que nasci
No regaço da manhã
Chuva e sol também já vi
E a brisa da Fajã.

Ó minha ilha adorada
Tens forma de coração
Por tantos és visitada
És forte recordação
Cada festa uma tourada
Cada verso uma oração.

Ilha de bravos costumes
Porque bravo é nosso mato
Seja em vales ou em cumes
Também é de fino trato.

Um pulmão da natureza
Pôr-do-sol encantador
E sempre tive a certeza
De que és berço de amor.

2016/10/30
Rosa Silva ("Azoriana")

Maria do Carmo Fortuna

Sempre foi grande guerreira,
Franzina e trabalhadora,
Uma mulher de primeira
Para tantos protetora.

Viúva mas sem fronteira
À Virgem tão zeladora,
Maria a vida inteira
Do Carmo a seguidora.

Suas mãos nas minhas tive
E a palavra que sobrevive
Além da eternidade.

Fortuna de sobrenome
E mais forte foi seu nome
Que, aos seus, deixa Saudade.

Sua nora
Rosa Silva ("Azoriana")

Matilde Rosa

Eu te peço num clamor
Que nasce do coração:
Ajuda com teu Amor
Minha triste estação.

Meu verso é um sofredor
De saudade e de emoção;
Quanto mais é forte a dor
Mais se entra em comoção.

Mãe Matilde, também Rosa,
Porque Rosa também sou
Que o teu ventre me gerou...

Mãe Matilde, flor formosa,
Desta terra tua e minha...
Hoje és pétala rainha!


2016/10/28 sexta-feira - 13° aniversário do falecimento da mãe que sofria de esclerose múltipla, uma doença do sistema nervoso central.

Já vi tanto sofrimento
Nesta minha existência
Quem sofre tem o momento
Na divina Providência
Que lhe dá contentamento
Maior que qualquer ciência.

Rosa Silva ("Azoriana")

Dia 23

Carlos Andrade "Santa Maria", faleceu a 23 de fevereiro de 2016. Carlos Nunes "São Mateus", faleceu a 23 de outubro de 2016.

Um intervalo de oito meses. Mesmo nome e alcunhas relacionadas com lugares de nascença fazem com que a Cantoria Açoriana seja também um historial de coincidências ou dias memoráveis.

O primeiro parte e fica sepultado na freguesia dos Biscoitos, concelho da Praia da Vitória, ilha Terceira. O segundo esteve na sua terra natal em 2015, partiu e fica sepultado nos Estados Unidos da América.

Nenhum voltou à terra de nascença para a sepultura mas ficarão sempre na mente e coração dos açorianos, sobretudo dos que partilharam o palco ou o terreiro das cantigas, como improvisadores.



*****
Atente-se na coincidência
Do dia em duas partidas;
Não são coisas da ciência
Mas lembrete de duas vidas.

Duas vidas que cantaram
Com a força de um dom,
Que em 2016 deixaram
Eternizado o seu tom.

Vinte e três está na memória
De quem os dois conheceu:
"Santa Maria" teve glória,
"São Mateus" o mesmo se deu.
Carlos Nunes 20153+2 igual a cinco
É a conta que eu somo;
Dois cantadores com afinco
Que nos deixam nem sei como.

24/10/2016
Rosa Silva ("Azoriana")

Queria ser...

Queria ser o pôr-do-sol
Da minha pele
Desnuda
No teu horizonte.
Fixar a âncora
No teu peito
De mar brando
E amar
....
Olhando a imagem
Ao relento
De nós.

Rosa Silva ("Azoriana")

Carta aberta de saudades

Saudades da Serreta
Dos passeios que fizemos
Da ida à Lagoínha
Das pedrinhas no cestinho
De dormir colchão no chão
De ouvir os passarinhos
De ver o mar inteiro
E a serra sem nevoeiro
Da azáfama da Festa
Das horas bem preenchidas
Das idas à Sociedade
Dos campos em pacatez
Até de varrer o caminho
De lavar chão e janelas
Portas, mesas e tanto mais
Saudades da Virgem Mãe
E de visitar meus pais
Os que cá já não estão
Mas que me fizeram crente
No meio de tanta gente
Que andou na Procissão
E de tanto que os foguetes
No trabalho divertido
Daquele povo unido...
Saudades de estar onde não estou
De ficar no que deixei
E quem sabe se hei de ir
Outro dia e outra hora
Sorrir a Nossa Senhora.
E saudades se tiveres
Escreve delas se puderes...

Rosa Silva ("Azoriana")

Maria, ó Mãe dos crentes

04 N.S. Fátima no Santuário da Serreta 2016

Maria, ó Mãe dos crentes,
Que percorrem os caminhos,
Em grupo e ou sozinhos,
No fundo, são como enchentes.

Maria dos inocentes,
Dos pobres e sem carinhos,
Dos versos em pergaminhos
Que voam em tantas frentes.

Maria dos teus avós,
Dos meus e de tantos mais,
Onde incluo os meus pais.

Maria, rogais por nós!
É feliz aquele que chama
Pela Mãe que mais o ama…

2016/09/02
Rosa Silva (“Azoriana”)

Delícia

Tortura-me de risos
Se puderes
Não deixes por dizer
O que não é dito
Fita-me o olhar
Na boca do mar
E salva-me
De afogar-me
Em ternura.

Rosa Silva ("Azoriana")

Sorriso

Gotejam palavras de abundância
Na sirene das letras luminosas
E o sorriso teu
Resplandecente
Tinge-me
De dourado
Na rua
De outras prosas.

2016/10/12
Rosa Silva ("Azoriana")

Olhares

olhares


O que fui na meninice
Já não sou na outra idade;
No deserto da saudade
Ando eu, já alguém disse.

Houve um olhar de meiguice
E outro que jamais há de
Voltar a ser a metade
Do que foi a criancice.

Transfiguram-se os ares,
Multiplicam-se os olhares,
Na mudança que se tem...

Há olhares que naturais
Têm a doçura dos pais
Num berço chamado... Mãe!

Rosa Silva ("Azoriana")

Noites de Outono

Cenário de pré-inverno
Traz aconchego ao lar
Apetece a descansar
Do tempero de inferno.

Um termo longe de terno
Que evito pronunciar;
Quero ver o sol raiar
No lírio do verso eterno.

E é tão meiga esta visão
De um lar aconchegante
Contigo no meu semblante.

Difícil a previsão
Do que possa acontecer
No cenário por tecer.

2016/10/11
Rosa Silva (“Azoriana”)

Escrita

Debulhei versos como quem canta
E agora calada me manifesto
Saciei-me de tudo e no resto
Nenhum verso ecoa e me espanta.

Aquela aragem já não se levanta
Na boa rima que à sede empresto
E mesmo assim o verso é tão lesto
Na ventania que adoça a garganta.

Preza-me o dom que ainda tenho
Doado para me dar mais prazer
Em tudo o que escrevo com empenho.

Fica a relíquia - sem despedida:
Escrita não se pode desfazer
Ela vive para além da vida.

Rosa Silva ("Azoriana")

Pensamento

Na hora que se precisa
Vemos quem é nosso amigo;
Na hora mais indecisa
Me socorro do artigo.

Um artigo que vos avisa
Da vida que é um castigo:
Se a morte é a divisa
Para o doente em perigo.

Há anos que numa cama
Uma senhora reclama
Por ter uma vida boa.

Em luta contra a doença
Pode ter melhor sentença
Na hora que mais magoa.

Rosa Silva ("Azoriana")

Corvo, a ilha



Numa ponta bem corvina
Reside a população
Com a patrona divina
Dos Milagres por ação.

Esta ilha nos ensina
Com maior satisfação
A viver a boa sina
Do que eles todos são.

São da paz e da harmonia
Do presépio da alegria
Da virtude paciente.

São da ilha mais pequena
Da pacatez tão serena
Um exemplo para a gente.

Rosa Silva ("Azoriana")