Senhora dos Milagres do Corvo

[Lenda em verso *]



Pelo século dezasseis
Num dia de manso mar
Uma lenda que sabeis
Quis a Santinha legar.

Pelos calhaus do Porto Casa
Homens andavam ao peixe,
Restos de madeira que à rasa
Também ataram em feixe.

De repente, um caixote
À beira d’água aparece,
Aberto àquele malote
D´alegria transparece.

A Senhora do Rosário
Era a Santinha surgida
E da nota-escapulário
Uma tese era lida.

“No lugar onde eu sair
Façam-me uma ermida”
O povo o fez cumprir
No Alto da Rocha erguida.

A notícia de tal feito
Foi seguindo além-mar
Na verdade e com efeito
Outros a quiseram levar.


 

Revoltados os Corvinos
Nada puderam evitar
Mas por desígnios divinos
Voltaria ao seu lugar.

Assim era, sua imagem
Pela noite então seguia,
No altar a dita imagem
Molhada p’ra quem a via.

Um dos padres decidiu
“Esta Santa não se quer aqui!
Tem de ir onde surgiu
P’ro Corvo e sair dali.

Nem todos assim o queriam
Mas a Santa sabe a sorte;
Uma Ermida erigiam
Porto da Casa é seu forte.

Dos Corvinos protetora,
E a quem mais lhe consagres
Novo atributo detentora:
É Senhora dos Milagres!
***
Fazei um milagre a mim
(E a quem te quiser ver)
Antes que chegue o meu fim
Teu Corvo quero conhecer.



* Rosa Silva (“Azoriana”)
Veja-se a imagem de Fernando António Fraga Pimentel

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