Julgo que não se levará a mal que se trabalhe pouco nos dias de Carnaval.
Logicamente, se o lema é divertir, que nos divirtamos, cada um à maneira que melhor lhe convier. Há quem se divirta cantando e dançando pelos palcos da ilha e, muito mais, nos ensaios preparativos das diversas atuações. Acredito que, após os ensaios e com tanta repetição das mesmas cantigas e enredos, acabe por se tornar rotineiro o que, inicialmente, seria motivo de largas risadas.
Afinal o que mantém o divertimento?
Não sendo eu perita em crítica carnavalesca, tenho a impressão que o que continua a fazer parte do divertimento contínuo, ao longo de sábado, domingo, segunda e terça-feira, são os esquecimentos momentâneos que dão lugar a novo improviso para que o público quase não perceba que houve uma pausa ou “falha” no discurso. O que, a meu ver, não pode pausar é o canto ou o pé de dança. Se a nota principal quebrar fará com que o grupo derrape para uma pausa difícil de recuperar. Para quem sabe tornear as situações, há sempre um jeito ou um gesto de recuperação imediata para que o bailinho ou a dança prossiga de forma a lançar um novo sorriso, ou mesmo, risada espetacular, quer entre os atuantes quer no público exigente. É sobretudo neste que está a crítica acentuada. De ano para ano, noto que estou mais criteriosa para as cantigas de saudação, de assunto e despedida. O “teatro” ou enredo surte melhores efeitos quando os atores têm perfil adequado ao papel.
Cantigas de saudação
Uma boa apresentação é, em parte, o que salva a fachada do bailinho ou dança. O guarda-roupa, os bailarinos, os instrumentos musicais, o amor à arte têm peso e medida mas, na minha simples opinião, as cantigas de saudação são o ponto de partida para todo o resto. Sabe tão bem aos nossos ouvidos o desfile de autênticos poemas coloridos pela magia de vozes e melodias de fazer arrepiar o coração. Não desprezando a diversidade de escritores/poetas que vão surgindo atualmente tenho a destacar um que já reconheço mesmo que esteja num cansaço momentâneo … o nosso poeta por excelência: Álamo de Oliveira! Ele preenche toda a categoria que se quer numa cantiga de saudação. O meu aplauso surge com vivacidade e maior alegria. É sublime a sua arte de poetar. Bravo! Bravo! É nosso, é ilhéu. O bailinho do Raminho disso foi prova, entre outros, com cantigas altaneiras.
O enredo
Depois da maravilha de cordas vocais e instrumentais, passa-se ao momento que tantos esperam: a crítica social, política ou de factos da atualidade coloridos de sátira estratégica para atingir objetivos concretos. Chamar a atenção para o que de pior (ou de melhor) se foi fazendo no antecedente ato real dos dias, meses e ano é comum. É como trazer a revisão do tempo que fomos passando. Sem dúvida que a crise, os impostos, os políticos são o prato forte para um manjar de risos que nos fazem iludir a atualidade numa fuga ao desânimo, à perda e à tristeza. Há quem crie verdadeiros pergaminhos dignos de preservar. Hélio Costa e João Mendonça continuam a ser os meus eleitos em matéria de mexer com risos e aplausos, entre outros que, porventura, vão dando notas altas ao teatro popular itinerante, que percorre praticamente todos os palcos da ilha onde se junta povo do nosso povo.
As transmissões audiovisuais
Sendo o Carnaval um tema universal que é lidado com diferentes máscaras há que salientar o Carnaval da ilha Terceira, sem dúvida alguma. Ao invés do que acontecia noutras décadas, agora é possível visionar qualquer atuação por via da captação in loco e transmissão direta pela rádio/internet, e, também, por via televisiva selecionada. Temo que, por via disso, alguns se fiquem pelo monitor ou pelo ecrã, mas é de louvar esta faceta que possibilita que todos possam alegrar-se portas para dentro com o que se faz a bem da saúde mental e física. Nada melhor que o Carnaval para levantar o ânimo e o da ilha Terceira é prova singular de arte e magia.
2012-02-20. (ver imagem)
Rosa Silva (“Azoriana”)
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