(…) As suas cantigas, harmoniosa e cuidadosamente soletradas, baseavam-se nas suas vidas, nas circunstâncias em que foram criados, no amor por seus pais já falecidos e na saudade dos tempos idos em vez de se atacarem mutuamente (…)
Fonte: In “A União”, publicado na Quinta-Feira, dia 07 de Abril de 2011, em Actualidade, sob o título “COMUNIDADES Cantigas ao desafio na cidade de Toronto”, assinado por Avelino Teixeira
Destaquei esta parte supra porque comprova-se que assim é: as cantigas ao desafio estão a tomar outro cunho poético ao invés do despique mordaz que marcou muitos desafios dos homens da cantoria. Quando a mulher se aventura ao improviso é muito natural que adoce a cantoria com o seu jeito feminino e característico. Enfim, tudo tem a ver, também, com a situação em que ocorre a cantoria: se solene, adopta-se um perfil adequado, se a jeito de brincadeira ou entre amigos/cantadores que recorrem a um despique mais aguçado, pois há que perceber e entrar na onda que os envolve.
Ainda bem que, em qualquer dos casos ou de perfil do desafio, a mulher (ou a jovem Maria Clara Costa) está a chamar as multidões para ouvirem as cantigas que, segundo a minha fraca opinião, já estavam a precisar de uma lufada de canto fresco. Tudo tem o seu dia e hora, tudo tem uma fase de subida e até não descer (e oxalá que nunca tal aconteça) vai-se mantendo nos sentidos da população que gosta e ama a cultura popular, porque só mesmo o nosso Povo para entender esta força e/ou atracção que leva a percorrer distâncias enormes só para ouvir os pares da cantoria com a língua matriz – portuguesa!
Para não me alongar muito neste pensamento e/ou comentário, resta-me desejar o melhor do mundo para os cantadores, que conheço e já ouvi algumas vezes, José Eliseu (que tive o prazer de cumprimentar pessoalmente um dia destes) e Maria Clara que toma a dianteira em qualquer cantoria que se preze. Ela é e será a Jóia da Cantoria. Quem sabe um dia alguém se lembra colocá-la no “Retiro dos Cantadores” ou noutro local da ilha Terceira a defrontar-se com outra mulher… Eu chamaria a esse desafio do seguinte:
Perfume de Cantigas
São estrelas perfumadas
São flores de rima doce
São vozes escancaradas
No canto que o luar trouxe.
São pérolas esvoaçando
Pelos olhares das gentes
São palmas acarinhando
As almas ali presentes.
Hoje em dia se pode ver
Um xaile e um chapéu
E assim irão permanecer
No coração do ilhéu.
As mulheres das Cantigas
São dueto singular
Atraem odes amigas
À nossa arte popular.
Rosa Silva (“Azoriana”)
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