Vinha eu toda empenhada a escrever um artigo através do telemóvel e nisto... zás, foi-se o texto todo. Nem as tecnologias modernas aguentam com a nostalgia de alguma prosa. Deixa cá ver se me recordo o que os dedos iam captando da mente que raramente pára...
Hoje, cedo, no café habitual lancei o olhar à revista domingueira DI, de
13.09.09, na sua página 18, Folhetim 435, de Fagundes Duarte - "Em memória das figueiras da Fajã", e logo me saltaram uma data de letrinhas saudosas de outros tempos. Juro que a outra escrita estava muito melhor que esta porque corria ao sabor instantâneo das ideias. Adorei ler aquele Folhetim.
A minha nostalgia prende-se com a saudade das vozes que faltam nas casas alvas de neve; da algazarra da "canalha" (crianças felizes) por aqueles quintais agora desertos; das rosadas maçãs, das saborosas e sumarentas laranjas (de umbigo) do pomar de meu pai; dos berlindes (bolachas especiais) da tia Belmira; da pia de pedra onde a água cantava logo cedo e me deixava a barriga toda molhada; e tanta, tanta coisa que agora só pode molhar o rosto inteiro de lágrimas... Mas o que lá vai, lá vai e não se vê forma de voltar a ver-se a produtividade de outrora mesmo nos cerrados da Fajã.
Hoje, não apetece (ou não há) quem pegue num "foicinho" e desarme as silvas dos valados. Talvez a troco de um grande punhado de euros e mesmo assim penso que com máquinas sofisticadas que dão cabo do joio num ápice. Lembro que gostei imenso de ver o aspirador automático a limpar os restos dos tapetes de flores no percurso da procissão... Coisa linda! Antigamente, mal acabava a procissão da Senhora dos Milagres, iam, em bando, mulheres e homens, com vassouras, apanhadeiras e sacas de lona, juntar tudo o que restava e que embelezara o caminho da Senhora por umas horas. Valha-nos a nova maquinaria! No entanto, dá cá uma nostalgia ver que já nada (ou quase) é como dantes. E éramos todos mais felizes, suponho, porque num ambiente mais caseiro e fraterno.
Só não lembro bem é dos figos da Fajã nem da Tia Guilhermina da Fajã...
Recordo melhor da compota de figos que vinha de Santo Amaro do Pico, em frascos que aguentavam um inverno e nos deliciavam o paladar e desgrenhavam a saudade... Há memórias e nostalgias aos molhos e por causa delas choram nossos olhos...
Rosa Silva ("Azoriana")
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