Não consegui parar sem ir até ao fim...

Angra do Heroísmo, 30 de Outubro de 2008



Querida amiga Clarisse



Esta carta que lhe escrevo,

É talvez a mais sentida,

E vai cheia de relevo

P'la sua afilhada querida.



Eu não consegui dormir,

Tive de ler até ao fim,

O livro que veio abrir,

Uma ferida por mim.



Tão amada era a Gracita,

Uma "Flor da Saudade",

Ela era meiga e bonita,

Tão nova na eternidade.



Quando a lágrima nos corre,

E aquece bem o rosto,

É porque quando alguém morre,

Deu-nos um maior desgosto.



O gosto não é pra nós,

Mas sim para Deus, que viu

Erguer no Céu uma voz,

Cujo tom tem maior brio.



Foi a santinha de Góis,

Que deixou entes na terra;

Porém, o que vem depois,

No coração se encerra.



Encerra-se tanta dor,

E grande consternação,

Mas pra quem lhe teve amor

Guarda uma eterna paixão.



Fev'reiro de oitenta e cinco,

Oito, até me atrapalho,

Nesse dia, com afinco,

Começava o meu trabalho.



Vinte e três anos de idade,

E vinte e três se passaram,

P'ra ela foi mocidade,

E a mim me alertaram.



Ela é uma bonita santa,

Que a Clarisse tem no Céu;

E por todos nós lá canta

Sorrindo no alvo véu.



Rosa Silva ("Azoriana")

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