As primeiras luzes de ânimo

30 de Outubro de 2008

Nem sei como começar. O texto está-me engasgado como se tivesse um novelo a prender os dedos. Foi o dia de ir fazer a minha primeira vistoria à "nova" casa que, finalmente, está em meu nome. Passados seis anos parece uma catacumba de vazios, com restos de baratas, cores horríveis (onde param as paredes branquinhas? (...) E onde foi parar tanta coisa?). Sem água, sem luz, sem cheiro agradável. Com sanitas vagabundas, negras de nódoas de quem parece ser mais irracional do que ser humano. Como é possível?! Seis anos é assim tanto tempo?

E o quintal? Parece um tufão de silvado, ervas multicores de altura exagerada, árvores sem fertilidade, um dilúvio de bicharada que quando nos "avistou" voava em nuvem para nos ir à pele, sobretudo à minha que à mais pequena coisa fica um cristo...

O que faço? O que fazer? Não sei.

Falta a minha mãe para eu lhe ligar a dizer: - Mãe, mãe... Sabes o que aconteceu? Pois olha isto assim, está assado; aquilo de lá, está acolá; aquela parte já não existe... Mas não a tenho viva. Tal pena! Haverá alguém que me substitua, por um instantinho, a minha mãe? Preciso tanto de ti, mãe!

Sem carro. Sem ter alguém que nos ajude (imagino assim uma data de mãos por lá dentro fazendo uma reviravolta em tudo) e mesmo que arranje alguém, como vou pagar-lhe?! E não me venham dizer que sou pedinchona. Eu já ajudei algumas vezes mas agora estou a sentir-me só, a nadar em monda e lixo... Quem se quer meter nisso? Tem de ser eu, eu e eu... Mãe, tenho medo de não aguentar... Por momentos, voltei seis anos atrás. Recordei-me de tudo fresquinho, arranjado, novo... O sonho acabou para me dar o pesadelo real. Como vai ser?

Valerá a pena? Mãe, diz-me, valerá a pena lutar mais uma vez por ter aquele cantinho "novo"?

Quando posso mudar? Não sei... Esmoreci... A tristeza ocupa parte de mim...

Até logo, mãe.

Rosa Silva

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Acho que a minha mãe mandou uma mensagem a uma amiga que me escreveu.

Não revelo quem assinou a mensagem mas ela sabe que já faz parte do meu mundo e que gosto muito dela. Espero nunca a ofender porque a minha escrita, por vezes, pode não se perceber como eu penso que se percebe. As suas palavras sensatas e amigas vieram dar-me as primeiras luzes de ânimo:

Amiga, eu percebo... É uma desolação! Mas pensa que uma etapa já está! Já tens a casa no teu nome!! E uma vitória!!

O resto, vai fazendo com calma, aos poucos... Com o gosto de que estás a reconstruir o teu lar. Não precisas fazer muito de uma vez... Cada coisinha que fizeres faz com amor... Para que o amor, a paz, a ordem, a tranquilidade, aos poucos vão voltando àquele lugar. Tu agora és como um passarinho que está a construir um ninho... Palhinha a palhinha... E as palhinhas vão-se entrelaçando, e quando deres por isso as coisas começam a tomar forma! Agora és uma cagarra que nas rochas áridas das escarpas, constrói um ninho quentinho e cheio de conforto. Não penses no todo... Pensa só em partes, e estabelece metas... Mas metas pequeninas... Vais ver que chegas lá!

Eu sei que deve cortar a alma... Mas lutaste tanto para chegar aqui!! Não desanimes, não desistas!! Pensa que agora estás a começar de novo...

(...) posso comprometer-me que te vou ajudar um dia inteiro. Um sábado por exemplo. Vamos de manhã, e eu ajudo a limpar, e a fazer o que puder. Fico muito feliz de puder contribuir com um dia para que a Casa da Azoriana ganhe de novo vida! Olha, é isso mesmo!!! Faz uma campanha... Pede um dia de ajuda... Só um dia... Se todos derem um dia não custa muito... É uma ideia...

Sei que as minhas palavras não são o mesmo que as palavras sensatas de uma mãe... Mas espero ter ajudado e dado algum alento.

Sorte!!!


Bjis da tua amiga

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31 de Outubro de 2008

Obrigada Amiga!

Hoje só queria uma caixa de chocolates para comer contigo, amiga. Só mesmo essa beleza de doçura para me alegrar (mas até isso me está interdito). Será que alguém me ajudava por uma caixa de chocolates?! Já me chegam vestígios de um sorriso...

Primeira etapa está quase. A segunda etapa é adquirir luvas, lixívia, esfregões, vassouras, pá e sacos de lixo e, ainda, preparar roupa e calçado aptos a todo o tipo de intempérie. Ah! E uma caixa de chocolates porque pode aparecer alguém...

Levo comigo a estampa de Nossa Senhora dos Milagres que é sempre a melhor ajuda!

Rosa Silva ("Azoriana")

1 comentário:

  1. Amiga,
    Tu também já fazes parte do meu mundo e sabes que gosto muito de ti. Obrigada por me deixares fazer parte do teu!!!
    ... E um destes dias vamo-nos sentar a comer essa tal caixa de "chicolates"!!!
    Beijos desta Anómia que te quer bem!

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