Sonhei

Choro pelo caminho. É hora de almoço e nem sei onde está o cartão que me dá o "dinheiro da parede". Procurei na algibeira da mala e nada de encontrá-lo. Onde será que o larguei?! Hoje, fiquei trancada na rua. A chave da porta de casa não está comigo. Bato à porta e ninguém responde. Experimento enviar uma "sms" para me valerem mas sem resultado. Estão todos impedidos de vir a casa. De repente, lembro-me que tenho uma nota estrangeira no saco, à deriva. Encontro-a e resolvo ir trocá-la.



O lugar, por excelência para bons câmbios, está fechado. Rodo nos calcanhares e vou até à instituição bancária mais próxima. Troquei a nota e quase perdia a vontade de comer: Ao total (contravalor) foram retirados os impostos (0,16€) e as comissões (4,00€) e, na minha mão, nem pousa 10 euros inteiros. Saio triste. Afinal não há nada a fazer ou argumentar. É-me dito que é mesmo assim e pronto. Fico a olhar para a minha mão, por uns instantes, e acelerei a vontade de jorrar água exaltada dos olhos. Arrumo o papel comprovativo na mala e sigo pelas ruas, ainda com fome, e penso: - Isto é que vai uma crise em tudo e todos! Até as dólas estão a sofrer derrapagem acelerada.



Entretanto, enquanto as horas vão rolando num estômago vazio e triste, tal como o meu rosto deve estar, e, enquanto vou esperando saber o resultado da minha ida à "baixa citadina", vou olhando à minha volta e vou entrando no sonho. Sonhei: - Sou mais feliz fora dos bancos. Imagino o meu filho, lá longe, e sem dinheiro. O que será que ele faz o dia todo? Será que conseguiu um trabalho? Será que está de mão estendida a pedir umas migalhas? Um homem chora mais do que se imagina, quando estende a mão ao pão-nosso-de-cada-dia. Agora entendo porque há gente que se revolta, faz "lavarintes", digo, roubos, crimes e acaba na cadeia. Sonhando já estou a ver o mundo a apodrecer de tédio.



Mas o que se passa afinal?! É um corre-corre rumo a não-sei-onde e a não-sei-quê. Antigamente, o rumo ainda se vislumbrava na curva do destino, agora já não há tempo nem dinheiro. Vamos dando cabo de tudo. A caridade também já não é o que era. Ninguém dá por ninguém. Andamos lado a lado e não se sabe quantos e quantas carregam o rosto dos impostos e das comissões. O meu rosto está carregado. Fiz a borrada do dia. Não devia sequer ter comido... E continua o pensamento de que um dos meus filhos não deve ter comido nada hoje...Choro silenciosamente. Não sei o que fazer. Sinto a saudade e a fraqueza. Vou subindo a rua amarguradamente. Acabei de chegar do outro lado da ilha onde estive feliz por seis dias e o choro instala-se inconsolável.



De repente, procuro a abertura da mala e olho para dentro. Um cheiro bom inunda-me as narinas. Trouxe comigo uma rosa da Senhora dos Milagres. Um sonho real.


 


Para a "Fábrica de Histórias" - Sonhei.

in http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/4335.html

4 comentários:

  1. Olá, "ROSINHA"...!
    Há tanto tempo que não passo por aqui...!
    Enfim, a vida nem sempre nos dá o tempo de que necessitamos e depois...bem, depois, é acatar aquilo que Deus nos dá.
    Quanto ao texto com que nos brindou hoje, a minha opinião:
    É das coisas mais bem feitas e melhor idealizadas, que li nos últimos tempos.
    A fantasia de braço dado com a realidade, por vezes assusta-nos. Quem é que ainda não passou por um susto destes?
    A cidade do Porto, dista da minha terra, mais ou menos, cem quilómetros.Há cerca de trinta anos, puz-me a caminho, daquela cidade utilizando o transporte do caminho de ferro. Chegado ao Porto, logo pela manhã, entrei num café e pedi meia de leite e uma torrada.Tomei o pequeno almoço descançado, até que chegando junto de mim o empregado, perguntou:não precisa de mais nada? - são 15$00.
    Pucho pela carteira para pagar o que tinha consumido e verifico, que não trago a carteira comigo. Isto, é: nem dinheiro, nem documentos.
    Se a minha deslocação ao Porto era para efectuar umas compras que tinha programado, e agora? Nem dinheiro para fazer uma chamada telefónica.
    Com toda a sinseridade, mandei chamar o patrão do estebelecimento, e contei toda a situção, sem rodeios nem mentiras.
    O Homem, ouviu-me com toda a serinidade e perguntou-me: tem alguém conhecido na sua terra a quem eu possa telefonar? Sim, tenho muita gente, que pode abonar a minha idoneidade sem receio.
    O senhor Santos - assim se chamava o dono do estabelecimento - disse: não é necessário telefonar. Até me posso enganar, mas o meu amigo parece-me uma pessoa séria.
    Deixa-me o seu nome e morada e eu vou confiar-lhe cem escudos, para as suas despesas aqui no Porto. Quando poder, paga-me.
    Estupfacto com tamanha grandeza de alma, agradeci e prometi ainda no mesmo dia, passar pelo estabelecimento, para pagar o favor, que aqule homem sem me conhecer de lado nenhum, me tinha feito.
    Obviamente, que telefonei aos meus familiares a contar o sucedido e prontamente resolvi o problema, que me tinha acontecido.
    Como vê, minha cara ROSINHA, há fantasias que até parecem verdade e quantas vezes existem verdades, que não passam de mentiras.
    Um grande beijo,
    Teixeira da Silva

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  2. Este episódio é para a "Fábrica de Histórias". Quem sabe se o seu comentário também se adequa ao preconizado por este sítio que recolhe sonhos e realidades.

    Se não tiver 500 palavras tente completar o seu texto e colabore nesta ideia interessante.

    Bem-vindo e com a amizade de sempre lhe desejo um bom fim de semana.

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  3. Olá Azor.
    O texto está mágnifico.
    Conheço-te e admiro-te pela poesia, nunca te tinha lido na prosa.
    Foi uma surpresa muito agradável.
    Parabéns o texto está, como já disse antes, mágnifico.
    Muito bem escrito, parece que te estamos a ver, deambulando, perdida pelas ruas da nossa cidade.
    Mais uma vez parabéns. Adorei.

    grandes.

    Lala

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  4. Veja lá se gosta do que fiz: http://silvarosamaria.blogs.sapo.pt/579792.html. O seu belo comentário virou artigo e penso que terá lugar no podium da Fábrica de Histórias. Espero que não o desgoste com esta atitude mas foi por gostar do seu texto.

    Abraço

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