Coisas de outrora, sonhos de agora

Véspera do meu nascimento,
Houve escrito de tragédia
Que veio a luzimento
No livro "enciclopédia".



João Ângelo, o ás da terra,
Terceira, que é lilás flor,
Contou que do mar à serra,
São Jorge viu o horror.

Só agora soube disso,
Neste livro pioneiro,
Que guardou todo o serviço
Sempre num verso certeiro.

Talvez fosse distracção,
E eu tinha pouca idade,
Não lembro de tal menção
Da desgraça de verdade.

Nossas ilhas são assim,
Volta e meia treme tudo,
O que tem de bom jardim
Também o tem carrancudo.


 


Toda a vida ouvi dizer,
Que Deus é a protecção,
Por isso há um bem-querer
Pela Casa da Oração.


 


No meio de tempestade
Há que esperar a bonança;
Aos quinze anos de idade
Vi que a terra balança.

Balança tão fortemente
Tecendo marcas nos dias
Que ficam pla nossa frente
Sempre alerta às agonias.

Espírito Santo e a Senhora
Dos Milagres, nossa amiga,
Foram quem na triste hora
Ouviram a prece antiga.

Lembro que era o terço
A companhia diária,
Mesmo quem estava no berço
Tinha prece extraordinária.

Isto tudo a propósito
Do "Mestre das Cantorias"
Este o seu grã depósito
O melhor dos nossos dias.

Na tristeza ou alegria,
Na doença ou na saúde,
Deu valor à Cantoria
E à ilha deu virtude.

No seu olhar doce e terno,
No seu cantar de humildade,
Tem o nome já eterno
No campo ou na cidade.

Velhas, rimas, desgarradas,
Cantorias e Pezinho,
Frases e prosas lembradas
Nunca o deixarão sozinho.

Ele sozinho quis ficar,
Mas na vida pessoal,
Se eu um dia lhe cantar,
Será um sonho real.

Gosto do mês de Setembro,
Onde brilham mais foguetes,
De Outubro eu só lembro,
Da musa dos meus verbetes.



Uma musa encantadora,
Que tem o nome de mãe,
A nossa progenitora...
A minha queria-lhe bem.

A dor que ela levou,
Pro ventre da sepultura,
Na Cantoria ficou,
E fez-se a sã moldura.

João Ângelo convidado,
Para a festa da Briança,
Nem um ano tinha passado,
Era dela essa lembrança.

Já no céu ela o ouviu,
E a mim deu a conhecer,
José Fagundes insistiu
Neste novo amanhecer.

E amanheceu, então,
O gosto pla Cantoria,
Agora peço perdão
Se o deixar em agonia.



Luís Bretão é devoto,
Desta causa, sem saber,
Que será este o voto
Duma mãe, mártir, mulher.

Eu já fui convidada
Pro Pezinho lá de casa,
A São Carlos irei prezada,
Com o coração em brasa.

E se não abrir a boca,
Não terei prova dos nove,
A vontade não é pouca,
E a rima me comove.

Isto que agora conto,
Com gosto à humanidade,
Com emoção cada ponto...
Fez-me feliz de verdade!

Nem pensem que é mania,
Por fama ou outro efeito,
São ecos da Cantoria
Que do céu me vem a eito.

Os versos já me salvaram
E podem vir a salvar,
Dos tempos que já passaram
E posso vir a passar.

Nesta ilha tudo canta,
Do mais velho ao mais pequeno,
Todo o povo se levanta
Quando se canta em pleno.

Alonguei a trajectória
Destes versos apressados,
Pra que fique na memória
Brio dos antepassados.

Se algum dia cantar
O brio não será meu,
É a luz que vem plantar
O que é ditado do céu.

Rosa Silva ("Azoriana")
2008/08/16

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