Juro-vos: É de dentro meu improviso

Na cozinha, enquanto a máquina lavava a roupa e no tacho cheirava a sopa, meti-me a cantar na toada da moda do Pezinho, e fui rascunhando para passar para o blog. Diria que é uma simulação de cantoria ao vivo. Espero que gostem, sobretudo quem sabe desta tradição terceirense, que penso estar a fraquejar porque falta uma mulher com os cantadores a improvisar...

Fecho os olhos e imagino um arraial com algumas curiosas pessoas e lanço o desafio. Entre [...] será a deixa para quem quiser entrar neste desafio. Depois tirarei os [...] e colocarei a rima que, por ventura, aparecer em comentário.

Então, vamos lá:


Minha estreia foi sozinha (título sujeito a alteração)


 


Saúdo o povo amigo
Com o meu primeiro canto:
Qu'esteja a cantar comigo
O Divino Espírito Santo!

[...]

Não há esperteza na voz
Nasci dentro de nevoeiro,
Mas a casa dos meus avós
Era perto da do Barbeiro.

[...]

E lembrei-me agora dele,
Porque o via amiúde,
Levava a pasta com ele
No tempo sorria saúde.

[...]

Acho que usava chapéu,
Sua conversa era calma,
E por ser nosso ilhéu
Rezo, nesta, p'la sua alma.

[...]

Poucas falas então tinha
Porque era uma pequena;
Mas agora esta "vizinha"
Canta-lhe a sua pena.

[...]

Se na altura eu lhe canto,
Uma quadra ao Deus dará,
Por volta do Espír'to Santo
Teria ido ao Canadá.

[...]

O Barbeiro, pessoa recta,
Tinha o nome do meu avô,
Daquele não sendo neta,
A rima p'ra mim voou.

[...]

Se dom trago de nascença,
Já sei quem me deu a musa,
Foi muito de uma crença
Que nossa terra bem usa.

[...]

É do Culto do Divino,
Que inspira qualquer um,
Que O segue de pequenino
E nesta ilha é comum.

[...]

Lembro que a minha mãe,
Da Serreta, tão devota,
Ao «Pezinho» queria bem,
Agora, por mim, se nota.

[...]

Delegou-me o desafio,
Quando a alma foi p'ro Céu,
E até eu me arrepio
Com a força que me deu.

[...]

Não pensem que improviso
Sempre na hora que quero;
Há dias que meu juízo,
Se é mudo já desespero.

[...]

Uma mulher não se atreve
A cantar com os demais,
Dizem que a mulher não deve
Ir além dos seus quintais.

[...]

Agora aqui apareci,
Com o gosto mais profundo,
À Virgem dos Milagres pedi,
Que o verso fosse fecundo.

[...]

Ela é nossa Padroeira,
Lá feliz no Santuário,
É a Mãe da ilha inteira,
E de quem ama seu Rosário.

[...]

Eu sou uma pessoa crente
Mesmo qu'isso não se note,
Cá dentro 'inda é fervente
O que me deram de dote.

[...]

Não há amor verdadeiro
Nem razão para viver,
Se não tivermos primeiro,
Um exemplo para crer.

[...]

O exemplo que recebi
Lá no seio dos meus pais,
Foi com ele que venci
Muitas batalhas reais.

[...]

É na luz do firmamento,
Que debruço o meu olhar,
Se vejo que não aguento
Algo que venha atacar.

[...]

A fé trago de um monte,
Vestido de solidão,
Na Serreta, ali defronte,
Trouxe do mar a visão.

[...]

Esta foi a vez primeira,
Que simulei cantoria,
Se for esta a derradeira,
Feliz fui por um só dia!

A Cagarra Azoriana
Rosa Silva ("Azoriana")
2008/07/26

Nota: Dedico estas quadras à minha família e por alma do Sr. Manuel Gonçalves Correia de Melo Júnior e do meu avô que se chamava Manuel Gonçalves Correia, da freguesia da Serreta, concelho de Angra do Heroísmo, ilha Terceira - Açores.

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