A dor de uma vingança

1
A minha mãe era tão doente
Raramente a via contente,
Nem meu pai a consolava,
E eu temia dela cuidar
O castigo sei que estou a levar
Mas sei que ela me amava.
2
Sempre se preocupou comigo
Queria-me fora de perigo
Por isso é que me ralhava
A dor que agora sinto
E juro-te que não minto
É pelos beijos que não lhe dava.
3
Se eu pudesse pedir perdão
Dos anos que já lá vão
Era o que eu mais queria
Foi ela que me deu o dom
E com amor fez o tom
Do que dizem ser poesia.
4
Há quatro anos que morreu
E de tudo o que me deu
Resta pouco ou quase nada
O material nem me interessa
Tomara que a visse depressa
P’ra saber se estou perdoada.
5
Uma dança gostava de fazer
Para dar ao mundo a saber
Tudo quanto eu já sofri
Mas de certeza porém
Que não agradava alguém
Com quem um dia convivi.
6
Seria um exemplo de vida
E não ficava esquecida
A dor de uma vingança
E neste efeito de rimar
Muito iria então chorar
A escrever assim a dança.
7
É triste perder os pais
Mas a dor que dói mais
É de perder uma mãe
Não sei se fui boa filha
Mas o facto de ser ilha
Traz uma solidão também.
8
Olhava o mar pela manhã
Depois ia para o divã
Conhecer coisas do mundo
Um sonho começava a surgir
E a vontade de o descobrir
Mexia bem no meu fundo.
9
Foi então que arrisquei
Com o namorado casei
E segui para outra morada
Os anos foram passando
Aos poucos fui reparando
Que a vida era amargurada.
10
Depois de três filhos ter
A alegria do meu viver
Julgava que nada acontecia
Mas as voltas que o mundo dá
Também chegaram até cá
E a separação teve o seu dia.
11
Foram anos para esquecer
Da vingança me quis valer
E não foi a melhor solução
Hoje o trauma é a minha cruz
Com fervor pedi a Jesus
Pela misericórdia e perdão.
12
E eis que num belo dia
Na festa de uma freguesia
Uns olhos tocaram os meus
Senti que naquele olhar
Estava a forma de amar
E confiei nos olhos seus.
13
Mas nem tudo são rosas
Na vida espinhos e prosas
Fazem virar tudo às avessas
De vez em quando ataco
Tenho ainda aquele fraco
P’lo passado de vãs promessas
14
Deus sabe que o sentimento
Para não virar como vento
Há que saber equilibrar
À balança da compreensão
Juntar razão e coração
E saber a fórmula de amar.

Rosa Silva (“Azoriana”)

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