Olhar para dentro...
Ando numa maré de saudade, talvez porque cismei de olhar para dentro e recordar cenários de uma vida que, para muitos, pode parecer atribulada ou nem tanto. Tenho tendência para olhar mais o cinzento do que a cor-de-rosa numas coisas. Mas, noutras, é precisamente o contrário, porque o romantismo sempre me plantou um sorriso nos lábios. Não vou falar de romance, porque não é o que me levou a escrever este artigo para mais uma homenagem serretense.
Em tempos que já lá vão, eu era uma menina que gostava daqueles "caldinhos" que a minha avó e a minha mãe faziam e que a mim sempre me causaram algum constrangimento preparar. Nunca gostei de cozinhar, mas gosto muito de comer e, principalmente, as iguarias que atraem o olhar. Confesso que sou muito gulosa e tenho muita pena por não poder comer os doces e cremes da nossa cozinha regional... Mas adiante...
Se voltar o pensamento para outro plano, vejo-me a detestar desfolhar o milho; a andar à frente da vaca para fazer o rego a direito para as sementeiras das épocas agrícolas próprias para cada ano e ficar mordida pelos mosquitos; de levar o almoço ao cerrado onde o meu pai me esperava com o fiel amigo "Calçado", o cão que raramente saía do cerrado se alguma peça ficasse esquecida pelo dono; a ir às missas todas (ou quase) na companhia da minha avó sempre forrada de preto, onde não ousava sequer abandonar o lenço para deixar ver os bonitos cabelos, alvos de neve, com alguma ondulação, que só se vislumbravam na volta de ir dormir; das visitas à casa das "titias" que por serem as primas com idade avançada recebiam o título honroso de «Tia», que era o mesmo que serem irmãs da minha mãe, para desabafar as conversas e brincadeiras da altura na pacatez do torrão natal; e vejo-me a adorar ver a casa limpinha e tudo arrumadinho com cortinas novas, passadeiras no chão também reformadas, colchas a condizer com os tapetes, nalguns casos, porque quando chegava o mês de Setembro, a casa tinha de estar preparada para a festa da Senhora dos Milagres, com tudo o que isso nos fazia trabalhar com outro afinco por entre nevoeiros e humidade q.b.; na corrida desenfreada estrada abaixo para ver e ouvir as danças de Carnaval; na visita à casa das primas para sair da monotonia caseira e ver uma mão cheia de gente alegre e talvez mais feliz que eu; etc..
Agora, entra o motivo deste artigo: a homenagem que fiz em vida ao meu primo Daniel da Costa Cota e ainda bem que ele tomou conhecimento e sei que gostou. É que me lembro perfeitamente, apesar da minha memória me atraiçoar algumas vezes, que este primo quando nos visitava, no tal tempo que já lá vai, conseguia deixar o pessoal lá de casa todo satisfeito com as suas "palestras", as tais conversas de tardes milagrosas em que já se notava que ele tinha um dom especial e que gostava muito de falar de e para Deus. Ainda bem que conseguiu vestir a indumentária de acólito e apesar da partida prematura aos 50 anos, formou uma família por quem tenho o maior respeito e admiração.
Eu podia escrever muito mais sobre o Daniel, fazer-lhe uma biografia detalhada mas não é isso que o faria voltar no dia 31 de Agosto de 2007 para colaborar na realização da comemoração do 1º Centenário da Paróquia da Serreta... No íntimo, sei que estará presente no coração e na lembrança de quem o estimava como eu e a família...
Talvez se lembrem de colocar uma fotografia tua nalgum lugar que a gente te veja com aquele ar que consegui captar no dia que conversámos e rimos numa passagem pela Mata da Serreta e que utilizei para encimar a homenagem simples e sentida.
E tenho de parar porque o meu coração está a batucar muito...
Amigo e primo Daniel, fica em Paz!
Com o valor das pequenas coisas,
Será que viste a Deus?!
Rogo pelo sim!
E pede pelo mundo
por nós
[por mim]
pelos teus...
Eu creio,
Na bondade de Deus
Para com os filhos seus.
Rosa Silva ("Azoriana")
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Para o dia 31 de Agosto de 2007 (2)
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