Cantoria solitária e virtual

I
Eu fiz uma descoberta,
Oxalá mais alguém note:
A Cantoria me desperta
A razão para este mote.
II
Já pensei com meus botões
De falar com um cantador
E na penumbra dos salões
Saber se canto com valor.
III
Encenava uma cantiga
À espera da resposta;
Do desafio sou amiga
Acho que mais gente gosta.
IV
De pedir eu tenho custo,
'Inda vão dizer que não,
E p'ra passar algum susto
Mais vale calar-me então.
V
Mas a ver portas p'ra dentro
Na escrita repentista,
Sempre que eu me concentro
Sai rima a perder de vista.
VI
Nem que seja na garagem
Sem grandes espectadores,
Tentava ganhar coragem
De rimar pelos Açores.
VII
A moda já ensaiei
Mas dá-me p'ra ir com pressa,
Se for como imaginei
Dá para pensar na peça.
VIII
Um verso dito com calma,
Dá tempo para o seguinte,
Se falhar, falha a palma,
Daquele que é ouvinte.
IX
Quem me dera a resposta
À pergunta que eu fiz,
Apesar de não vir exposta
Podem crer que foi feliz.
X
Foi à Matilde, minha mãe,
Que era fã de tais cantigas,
Penso que estará bem,
Inspirou-me estas amigas.
XI
Há-de haver algum sinal,
Vindo de algum lugar,
Nem que seja um postal
Que de alguém há-de chegar.
XII
Mas se a vida for escassa,
E ficar só no desejo,
A quem por'qui os olhos passa
Deixo uma flor e um beijo.

Rosa Silva ("Azoriana")

Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigada pela visita! Volte sempre!