Que fique claro

«Quem me dera ser o que não sou,
E voar contigo num sorriso,
Das asas cair o que desgostou:
Amar-te é tudo o que preciso.
»


Foi assim que escrevi e rematei um dos meus escritos. E é verdade: Quem me dera ser o que não sou - Quem me dera ser perfeita em tudo o que faço, como sempre me incutiram desde a infância, mas não sou. Tenho as minhas imperfeições e é escusado lutar mais pela perfeição. Ninguém a tem, por muito que lhe pareça. O único perfeito foi Jesus e mesmo assim cuspiram-Lhe, maltrataram-No, crucificaram-No e ainda hoje se continua a relembrar e a reviver essa passagem.

O bom mesmo é tentar seguir dentro do que é razoável, mas o que o é para uns, para outros nem por isso. Vamos sempre encalhando aqui e ali nos rochedos da vida que tantas vezes andam à deriva.

E voar contigo num sorriso - A expressão é propositada, porque o «contigo» pode ser um livro, uma pessoa, uma lembrança, um momento, etc., e nada melhor que acompanhada por um sorriso ou mais, porque para mim é bom a solidão mas não o estar sozinha. Detesto mesmo estar sozinha e sem sorriso. Quando não estou a sorrir é porque encalhei na solidão, aquela que mesmo rodeada de milhares de pessoas fica trancada no meu ser e me amaldiçoa.

Das asas cair o que desgostou: Dei-me ao luxo, já que outros luxos não tenho e penso que nunca terei, nem tive, de colocar asas no meu coração por uns momentos. O coração guarda coisas que mais ninguém vê ou sente e muitas dessas coisas prefiro deixá-las cair no esquecimento, porque fizeram-me desgostos.

Amar-te é tudo o que preciso. Amar é uma arte; amar os filhos uma benção que Deus me deu (e são três legítimos que não são perfeitos mas dou-lhes o melhor de mim e o meu coração, na medida que posso e sei, só...); Amar-te é íntimo, é pessoal, é tudo o que preciso para não me sentir sozinha na solidão.

Depois desta reflexão, que fique claro que quando me entrego na escrita dos meus dias não estou a contar a métrica perfeita mas estou a viver a vontade que me é perfeita. Deixo-me, ao menos uma vez, ser aquilo que não sou, sem revisões, sem cortes e sem reparações.

A menina perfeita de outrora caiu das asas... Simplesmente continua a voar com as suas próprias asas. Pelo menos este gosto ela tem e outro que descobriu há mais de seis meses.

Rosa Silva ("Azoriana")

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