Monólogo: As dívidas de uma vida.
Hoje voltei ao meu passado. Vi livros, vi rancores, vi montanhas de raiva e dissabores.
Que pena eu não lembrar tudo aquilo que estudei, massacrando a minha memória...
Que pena eu não ter dado uma palavra de gratidão aos motoristas dos autocarros, digo, das antigas camionetas da carreira que me transportavam rumo à cidade que se proclama - Pratrimónio Mundial.
Não sei se vou chocar os olhares dos meus leitores mas eu não soube tirar partido da minha vida. Confesso que foi com alegria que ontem, no Teatro Angrense, pisei o palco de chão negro e olhei a plateia.
Pela primeira vez, ao entrar nos meus quarenta e dois anos, tive a oportunidade de dizer o meu monólogo, sem plateia e perante o rubro das cadeiras a aplaudir-me, silenciosamente. É que no meu céu não haverá aplausos. Daí que, a minha sempre vontade de ser actriz teve o momento de glória, na noite do primeiro dia do mês de Abril do ano de dois mil e seis.
Talvez quem se apercebeu disto não notou o que me ía por dentro.
Fui aos camarins e tive o prazer de cumprimentar os Homens do Teatro - Ruy de Carvalho e João de Carvalho, pai e filho.
Foi como se eu tivesse levado comigo a minha mãe e ela tivesse representado comigo naquele palco do nosso Teatro Angrense.
Podem-me dizer que é loucura, mas não é... Não é! É o meu sonho mais profundo a vir à tona. Eu nunca fiz teatro mas vejo-me como se estivesse lá e encarno cada papel.
Noutros tempos, eu dizia à minha mãe que gostava de ser actriz e não tive quem me desse esse empurrão, pois nem ela acreditou que eu falasse de dentro. Minha vida foi seguindo e nunca consegui fingir que não era uma actriz. As cenas foram sucedendo umas às outras num palco sem aplausos. Comédias, dramas de muitos medos. Afinal eu não era actriz e uma actriz que se preze adorna-se de aplausos na terra. E no céu haverá aplausos?!
De repente, numa tarde primeira de Abril, resolvi dar a volta à minha ilha, de autocarro. Foram três os autocarros que me fizeram as delícias de uma viagem circular.
De Angra do Heroísmo fui para a Praia da Vitória.
Na Praia passei pelo cartaz a anunciar a peça de teatro - "Palhaço de mim mesmo" - e reconheci imediatamente os actores. Então pensei: - Como deve ser linda esta actuação!
Segui viagem para a freguesia dos Biscoitos, outro ponto de paragem, e daqui andei até à freguesia dos Altares para depois seguir no último autocarro do dia rumo a Angra do Heroísmo.
Antes mirei a freguesia da Serreta e acenei, calada, ao lugar onde repousam os restos dos meus pais. Talvez foi aqui que senti a dor de não mais os ver para lhes dar o abraço que tanto faltou. (...) Nem interessa se neste momento estou em lágrimas... A ninguém interessa... só a mim.
Ao chegar a casa estava estafada mas feliz. Foi um dos melhores dias de aniversário porque meus filhos acompanharam-me (mesmo o que cá não está porque o pensamento também é boa companhia) e notei que estavam contentes porque viram os seus avós paternos.
Já em casa, eu estava a ler as mensagens de tantos visitantes ao meu blog, de amigos e não só, que me alegraram com a sua companhia e fiquei radiante. Quando o Luís e a Elisabete me bateram à porta não sabiam este meu pensar, mas sabiam que eu tinha vontade de uma surpresa. Sem dúvida, que esta foi a maior surpresa porque através deles minha mãe enviou um bilhete para eu assistir à peça de Teatro. Através deles eu pisei o palco, nem que fosse só para olhar o efeito da plateia, mesmo que sem ninguém àquela hora.
Foi assim que eu representei a minha cena e no fim, antes do pano cair, eu balbuciei:
- No meu céu não há aplausos!
Este o título que imaginei para a peça que eu queria representar. Talvez nesse dia os aplausos se fizessem ouvir e a minha mãe ficaria em paz.
Tudo por uma mãe que eu não soube mostrar o amor que lhe tinha. Afinal ela sempre quis o melhor para mim e eu deitei tudo a perder.
Por entre as minhas lágrimas de agora eu vejo um sorriso quando nesta tarde, de 2 de Abril, eu ouço o meu grito... fora do palco:
- Eu te amo, minha mãe!
(...) Agora sei que no céu há aplausos!
Fim
Rosa
ResponderEliminarNem sabes o quanto me emocionei ao ler este teu monólogo!...
Todos nós somos actores no palco das nossas vida!
Mas, tal como tu, gostaria imenso de pisar um palco, nem que fosse só a dizer duas palavras...
È um somho... quem sabe vamos ainda as duas realizar este nosso sonho em comum?!
Adoro-te
Chica
os sonhos têm asas... as asas fazem-nos voar e tu ainda vais conseguir voar rumo a um palco.
ResponderEliminarO teu Monólogo, mais do que uma peça de teátro é um poema vivo da tua vida. Palavra por palavra que, no teu texto fluente e subliminal de prosa, é simultâneamente perceptível essa linguagem poética que revela a tua alma e o grande talento para a poesia. Vai em frente e deixa essa tua poesia guiar os teus passos a fim de te puderes ver realizada.
ResponderEliminarAos poucos e poucos vou realizando sonhos nem que seja por escrito.
ResponderEliminarAdorei este comentário. Algo me diz que a minha mãe também.