A chama da paixão
Lembro-me de ser pequena, nova, risonha e alegre e sê-lo muito mais na altura do Carnaval. Lembro-me dos enredos que se faziam à volta do tacho das filhós. Era bonito ver e saborear aquelas bolinhas acabadinhas de sair da banha escaldante que a concha (aquele grande talher) fazia pulular por cima de um pedaço de massa lêveda.
Antes, a minha mãe tinha uma canseira feliz. Num alguidar, colocava os ingredientes necessários e a paciência de os amassar bem para depois se fazer o repouso, agasalhado com algumas mantas e cobertores, para que aquela bola gigante de massa levedasse a ponto de se estender na mesa talhada em pequenas bolas que tornavam a ganhar volume em cima da mesa.
Olhando para aquele estendal enorme, já se adivinhava o prazer que dali advinha. Eu, nessa altura, sem dizer a ninguém; punha-me a contá-las todas. Ai tantas, tantas! Que lindo! Mas, o melhor estava para vir. O calor da banha no tacho e, eventualmente, a canseira do corre-corre a entregar as bolas todas esticadas para que dentro do tacho, na banha bem quente, elas tufassem e ficassem coradas de alegria. As filhós "estendidas" então ganhavam a forma asseada e saborosa. Hummm, que delícia para o olhar e para o paladar! Por muitos anos que passe, eu nunca vou esquecer o sabor das filhós da minha avó, mãe e agora irmã. É que só a minha irmã possuía e possui o jeito especial de amassar pão, massa sovada e as ricas filhós de Carnaval. A minha participação, enquanto residi na freguesia da Serreta, era no corre-corre a levar filhós crua ao tacho, o pegar na concha e, rapidamente, cobrir aquela bola que obedecia prontamente e empolava até ficar no tamanho padrão.
Que saudades! Era vê-las dispostas no tabuleiro, com uma cor maravilhosa e, quando se dava a primeira dentada, sentia-se o sabor carnavalesco, Terceirense... Que ninguém ouse sequer dizer mal desta cultura tão linda e tão apaixonante. Lembro de ontem (e hoje) o gosto que tinha aquando do estrondo do foguete anunciador da nova Dança que chegava ao palco da Sociedade Filarmónica Recreio Serretense, e das corridas pela estrada tal qual uma atleta em direcção à meta, para chegar a tempo de ouvir a primeira parte, onde músicos tocavam a moda já bem ensaiada e decorada. Os aplausos ecoavam de par em par e não havia mão que se contivesse neste dia e de par davam o merecido louvor a cada uma das danças que presenteavam aquele público, que ficava horas e horas sentado à espera de outra, e outra e mais outra até que o galo anunciasse a madrugada.
Era sempre assim o meu Carnaval. Hoje já não corro pela estrada abaixo... mas nestes dias a concentração fica dispersa pelas lembranças do meu passado tão lindo, nesta altura... É que no Carnaval tudo o que se faz ninguém leva a mal e eu aproveito para exceder-me um pouco porque gosto de folia, risada e algum devaneio carnavalesco, excepto levar com água em cima, porque isso pode provocar gripe.
Por fim, viva o Carnaval, vivam as tradições terceirenses e vivam as filhós à moda da minha mãe - Filhós estendida (estas são diferentes de todas as outras, estas são tipo a nossa tradicional «massa sovada» às bolinhas). E que deliciosas bolinhas! Hummm!! Mas tudo se acaba. Este ano sinto que não vou avistar daquelas filhós especiais e exclusivas da Serreta; haverão outras. Exemplo de outras bolas: sonhos, coscorões, malassadas/melaçadas, donetes, filhós de forno (várias receitas), etc. Ponto final porque isto está a fazer-me crescer água na boca.
Azoriana
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