Publico uma carta muito bonita... o mote era: «Quando te leio!»

Quando te leio, sinto a nostalgia do tempo que nos separou entre o oceano e a ilha que te abrigou, sinto a água do mar revoltada pelo nosso afastamento, ainda que por breves momentos me recordo dos beijos que trocamos. O teu cabelo sabia a sal. Beijei-te e fiquei por ali eternamente, preso àquele momento que me consumia e me dava vida...
Desejei nunca mais acordar e entrei no nosso mundo, um criei à parte deste, só para ti. Lá desenhei castelos e verdes prados, dei vida a animais selvagens, seres nos quais já não acreditas. Havia fadas, duendes e até um pequeno unicórnio... desenhei para ti um rio de agua transparente, fresca, com pequenas pedrinhas coloridas no fundo, com cascatas que cantavam enquanto adormecíamos no vale.
De vez em quando, uma ou duas borboletas passeavam-se por ali, batendo as asas ligeiramente, penso que era delas que vinha aquela brisa de verão.
Deixei que dormisses... só tu sabes como precisavas desse sono, desses sonhos... o meu, estava a realizá-lo naquele preciso momento. E não me conseguindo suster, deixei escorregar uma pequena gota de água dos meus olhos, uma gota de um azul brilhante, luminosa, que deixava transparecer toda a felicidade que sentia... por vezes pergunto-me se em algum tempo voltarei a ser tão feliz...
Com os dedos desenhei na areia, junto ao riacho, uma pequena espiral de desejos, começavam de fora para dentro, primeiro os grandes, extensos, depois cada vez mais pequenos, mais simples, cada vez mais importantes, cada vez mais difíceis de alcançar, até chegar a um ponto final, que és tu... e aí deixo cair mais uma lágrima que não resvala, não desaparece entre os grãos de areia... fica ali suspensa, como que te acarinhando e segurando, para que não voltes a fugir de mim.
Molhei os dedos no rio, e ao lado da espiral fiz apenas dois traços, de alto a baixo, para te lembrar que somos dois e até podemos ser sempre diferentes, sempre distantes, sempre únicos, mas nunca deixaremos de ser azuis, pois somos da mesma agua, do mesmo fogo, da mesma terra, da mesma brisa que sopra... e o meu espírito, esse é teu! Então desenhei mais quatro pequenos pontos ao lado dos traços.
Por fim apenas soprei... a espiral ergueu-se no ar, em tons de vermelho forte e carmim, subiu, subiu e explodiu numa nuvem de pequenos brilhantes que desceram sobre ti, alojando-se nas tuas faces ruborizadas, nos teus cabelos dourados, no teu corpo coberto por uma fina túnica branca...
Não quis perder aquele momento e então guardei todo o meu desenho numa pequena garrafa de vidro, tapei com uma pequena rolha de cortiça, selei-a com um pequeno de lápis de lacre e envolvi-a no pequeno lenço de seda que usei outrora para te limpar as lágrimas do rosto.
Voltei para junto de ti... dormias ainda, serena, silenciosa, secreta, sozinha, sem medo, sem pressa de viver, sem vontade de acordar...
Beijei-te o cabelo, sabia a sal... estava preso naqueles cheiros e sabores e texturas e acima de tudo na tua luz e nos nossos dois traços azuis, nos quatro pontos elementares e nos meus sonhos que são, afinal de contas, só um...
Suavemente, suspiraste... acordaste... eu sorri... perguntei-te com que sonharas, mas não respondeste, sacudiste as pequenas pedrinhas de sal da cara e do cabelo, levantaste-te e foste embora.
Não quis perder aquele momento e guardei-o para sempre dentro de uma pequena garrafa de vidro...

Friedrich do blog:A Babushka

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