Numa tarde de sol

Não me lembro do muito que estudei. Às vezes nem precisa, porque eu vou rebuscar, mas canso-me.
Eu não gosto do cansaço, prefiro o luar...
em sossego ou com vento!
"E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido".
Fernando Pessoa o escreveu e eu gostei de o ler. Admirei-o de coração.
Eu pensei bem lendo isto.
Dói-me é se nada penso mas o vento sopra a dor e encanto-me no verso que leio à noitinha.
Sempre ouvi tanto de Fernando Pessoa e hoje a vergonha inflama o que vou escrever.

Numa tarde de sol eu fui às compras e na lista, pequena, assinalei: livro.
Queria, porque queria um livro. Mas que livro?! Havia tantos...
De repente, olhei e vi

FERNANDO PESSOA
poesias escolhidas por Eugénio de Andrade.

Parei: É este!
Depois... a tira com números pequenos e a curiosidade abalaram rumo a casa.
Grande compra! Que grande compra! - pensava eu.
O pensamento estava cheio de razão.
Agora torna-se difícil saber qual o poema que gosto. Uns li uma vez, outra vez e outros fazem-me companhia assídua.
Não me obriguei a decorar nada como outrora o fiz. Agora soube-me muito melhor voltar a esta leitura:

Coroai-me de rosas;
Coroai-me em verdade
       De rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
       Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
       E basta.


in página 125. Ricardo Reis. Odes.

Em páginas anteriores, apaixonei-me... quem não se apaixona por este Poeta?!

LAST POEM
(ditado pelo poeta no dia da sua morte)

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.


in página 121. Alberto Caeiro. Poemas Inconjuntos.

A página 117 trouxe-me uma surpresa agradável que calei e continuei a ler porque o próprio o escreveu:

"fui o único poeta da Natureza". - in página 119. Alberto Caeiro. Poemas Inconjuntos.

e

"Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?</i>. - in página 203. Álvaro de Campos. Poemas.

O melhor de tudo é mesmo ser livro... é a árvore que fica viva.
Aquele é lembrado e amado por quem lhe toma gosto.
Há árvores grandes!
Eu nunca plantei nenhuma, nem pequena...
Talvez um dia volte às compras numa tarde de sol...

Azoriana

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