Relíquia da memória

No quente dos riscados lençóis
Permanecia-me arrumada;
Em vigília um carro de bois
Que nunca saiu p'ra estrada.

As alfaias não devia esquecer
O avô fabricou p'ro seu neto;
Artesanato p'ra conhecer
Feitas só com uma mão, d'afecto.

O cabeçalho madeirado
Suportado por bois dispostos
Num carro todo envernizado
De seis fogueiros nos seus postos.

Baila uma canga na cabeça
A brocha liga-lhes o pescoço
Nos pares animais, outra peça
Tamoeiro em pele, d'esforço.

Acendo a quieta atenção
A pormenores miudinhos:
Pequena gaveta p'ro sabão
Maço no arado e os foicinhos.

Alvião, ancinho e forquilha
Garfo p'ra terra, concerteza,
Enxada muito usada por ilha
Cavava o sustento p'ra mesa.

Peças agrícolas da tradição
Suspendidas em sebe de vimes
Guardadas como recordação
De horas d'outrora tão sublimes.

De vimes são dois cestos também
Repletos de sonhos vazios;
Uma charrua e reparo bem
A grade, gradeava em "fios".

Da sachadeira lembro-me bem
As ervas daninhas trucidava,
A "escrepa" maior função tem
Porque a terra ela endireitava.

Cenas da memória contei
Rima fraca na madrugada
Os bois, madeiros, eu nem encantei
Onde estaria tal aguilhada?

Agora observo bons tractores
E máquinas na dianteira,
Incentivos p'ros lavradores
Outros eixos e cordas de primeira.

Azoriana

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