1
Divino Espírito Santo Vos peço,
Que me dês inspiração,
Para a todos contar, em verso,
O que se passa numa Função.
2
Quer seja promessa ou por gosto,
o dia do Bodo o pelouro vão tirar,
Fica o Imperador bem-disposto,
Por saber o dia em que irá coroar.
3
Com a devida antecedência,
São pensados os preparativos,
E com toda a alegria e diligência
São convidados familiares e amigos.
4
Os homens as faias vão buscar,
Para ornamentar o exterior,
Às mulheres cabe armar o altar
E fazem-no com muito amor.
5
O milho cozido já está servido
Para encanto dos presentes,
E um mês antes foram cozidos
O pão-de-leite e os cacetes.
6
Chega, então, o dia ansiado
Com alegria e muita festança,
Em que o bezerro é enfeitado,
Naquilo que se chama Briança.
7
Chegam os cantadores para a folia,
Junto com alguns tocadores,
Segue-se a cantoria, pela freguesia,
Aplaudida por muitos seguidores.
8
"Não somos professores,
Aqui da Ilha Terceira,
Somos fracos cantadores
Para esta brincadeira"
9
José Gabriel Fagundes me disse
Esta quadra tão humilde,
Eu só queria que alguém ouvisse:
O seu nome era Matilde.
10
A Filarmónica ela tinha adorado ouvir,
Tocando a moda do "Pezinho",
E de ver a filha Humberta reunir
O pão, a carne e também o vinho.
11
Juntam-se os cozinheiros
Para o "picado" de carne preparar
E no sábado, sempre ordeiros,
Serviram a muitos o bom manjar.
12
José "Grande", como é conhecido,
E Manuel Eugénio, de parceria,
Cozinham, também, a sopa e o cozido,
Para o manjar do novo dia.
13
Não posso esquecer, igualmente,
Quem as alcatras temperou:
Maria Neves Costa, sempre presente,
E as ajudantes a quem muito agradou.
14
A festa está bem animada
E tudo muito bem feito
A carne está temperada
E o pão partido com jeito.
15
Mesas dispostas em paralelo,
Cobertas por brancas toalhas,
Sem dúvida nada é singelo
Deus permita que não haja falhas.
16
Rezar o terço e persignar,
É dever do Imperador e Imperatriz,
Primeiro Bodo, irão coroar,
Uma ocasião deveras feliz.
17
O foguete lançado para o ar,
Toca a música bem ensaiada,
É preciso depressa se organizar:
A missa não tarda nada!
18
Duas Coroas, tochas e quatro Bandeiras,
Para os que foram predestinados,
Segue o cortejo em duas fileiras
Para a Igreja onde serão esperados.
19
Quero agradecer ao Divino,
Por me ter ajudado a escrever
Este versejar tão pequenino
Mas que nunca vou esquecer.
20
A todos um muito Obrigado!
E que Ele vos recompense,
E que esteja sempre a vosso lado
E de toda a família Serretense.
21
Aos avós, pais e antepassados,
Que connosco já não estão,
Oxalá estejam já coroados,
Pela Vossa Divina Mão.
22
E que intercedam junto de Deus,
Pelos que por aqui padecem,
E também pelos parentes seus,
Que nunca deles se esquecem.
Rosa Silva ("Azoriana")
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