Ideal
Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vénus de cintura estreita...
Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...
E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
Antero de Quental (1842 - 1891)
Antero Tarquínio de Quental nasceu a 18 de abril de 1842 em Ponta Delgada, nos Açores.
"Em 1864 publicou "Odes Modernas", obra que, junto com Visão dos Tempos" e "Tempestades Sonoras" de Teófilo Braga, é responsável por provocar a polémica "Questão Coimbrã".
"A produção poética de Antero de Quental está intimamente ligada a sua vida. Isso pode ser percebido claramente no livro "Sonetos", organizado pelo crítico literário António Sérgio em oito partes. Na primeira delas, "da expressão lírica do amor-paixão", vemos um poeta lírico que segue as regras da escola Romântica; na segunda parte, "do apostolado social", vemos uma poesia revolucionária, voltada para o momento histórico da época e com uma nítida preocupação social; as outras seis partes ("do pensamento pessimista", "do desejo de evasão", "da morte", "do pensamento em Deus", "da metafísica" e "da voz interior e do amor puro, sempiterno") referem-se ao período em que ele retorna para Ponta Delgada é atacado pela estranha doença. Nas quatro últimas partes há ainda o predomínio dos temas metafísicos".
"Devido a perfeição técnica dos seus sonetos, Antero de Quental é considerado um dos melhores sonetistas portugueses, dividindo esse título apenas com Bocage e Camões". (Fonte: Mundo Cultural).
"Antero de Quental faleceu a 11 de Setembro de 1891, suicidando-se com dois tiros de revólver, sentado num banco, próximo do muro do convento do Senhor Santo Cristo dos Milagres, acima do qual, gravada, se encontrava, e ainda lá está, uma âncora atravessada pela palavra Esperança".
Fonte: CARVALHO, Ruy de Carvalho. "Antologia Poética de Antero de Quental", Colecção Gaivota/36, Secretaria Regional da Educação e Cultura. 1983. Angra do Heroísmo. Página 13).
Soneto seleccionado: IDEAL (Fonte: Idem, Página 184).
"De Os Sonetos Completos - Edição de 1886 - Porto - "Antero há-de ser para sempre o poeta dos Sonetos" - Joaquim de Carvalho, Prefácio, pág. 7, in - Raios de Extinta Luz. Edição de 1945. (Fonte: Idem, Página 173)
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